Viver para lutar mais um dia

Opinião de Joaquim Castro

Joaquim Castro

A guerra não é ‘justa’, o combate não é proporcional e a utilização de ‘força mínima’ é uma doutrina melhor adaptada aos políticos. Em alguns quadrantes, defende-se a noção de que ao inimigo deve ser dada uma “chance desportiva”, de que as duas partes estejam equilibradas e, a título de exemplo, ‘fogo de artilharia’ é uma resposta não apropriada nem proporcional para responder a ‘fogo de morteiro’. Decorre daqui a doutrina do uso de «força mínima», de apenas se deve utilizar aquele nível de violência necessário e suficiente para garantir o objectivo no caso concreto. Um ataque nuclear é manifestamente exagerado como resposta a um pequeno atentado bombista, ou a uma insurgência. Já Clausewitz alertava para a não aplicação universal desta doutrina. Segundo ele, “pessoas de corações bondosos poderão julgar que exista uma forma engenhosa para desarmar ou derrotar um inimigo sem demasiado derramamento de sangue, e poderão julgar que esse é o verdadeiro objecto da arte da guerra.” Como dizia o instrutor de guerrilha, «existe apenas um princípio sobre a guerra: atinge o outro tão rápido quanto possas, com tanta força quanto puderes, onde mais lhe doa e quando ele não estiver a ver». O general Patton dizia que «o objectivo da guerra não é morrer pela pátria, mas fazer com que o outro sacana morra pela pátria dele»! Também a considerar que uma guerra deve ser combatida até à sua conclusão. Uma guerra apenas “semi-combatida” (esse bizarro vício das democracias) a longo prazo não salva vidas, antes garante uma «segunda ronda» de violência. Nas sociedades ocidentais, a guerra tornou-se politicamente incorrecta, defende-se que a ‘guerra não é a resposta’, a ‘guerra não muda nada’, que tudo o que é preciso é ‘dar uma oportunidade à paz’, sentimento bonito (meio hippy), mas que não funciona quando o inimigo te quer matar. A campanha de não-violência de Gandhi, na luta pela independência da India, só surtiu efeito porque os adversários (ingleses) estavam dispostos a alinhar no jogo. Gandhi não teria durado muito na Alemanha nazi, na Rússia de Estaline, ou na China de Mao. A não-violência eficaz é contratual. Onde esse contrato não existe, Gandhi morre. No dizer de Trotsky, «tu podes não estar interessado na guerra, mas a guerra está interessada em ti». Isto pode parecer deprimente e indesejável, mas a realidade é que, para alguns, a violência é uma forma perfeitamente adequada para resolverem diferendos. Se ninguém se lhes opuser, eles ganham. No respeitante à ‘contra-insurgência’, a grande vantagem dos insurgentes é a força de vontade descomprometida, a sua prontidão para pagar qualquer preço e suportar quaisquer dificuldades e, à medida que a sua visão do que é permissível na guerra aumenta exponencialmente (lançar aviões cheios de passageiros contra edifícios), as nossas definições auto limitativas do que sejam alvos legítimos e baixas aceitáveis (hostis, civis e próprias) são cada vez mais restritivas. Os insurgentes não nos conseguem derrotar em confrontos directos, mas nós parecemos determinados a derrotarmo-nos a nós próprios. Os insurgentes estão dispostos a mais sacrifícios, a sofrer mais e a matar mais do que as contra-insurgências que se esqueceram do que significa a guerra e o que é necessário para ganhar. No dizer de um académico, «nós, o povo, temos vivido tanto tempo numa segurança sem precedentes, por tanto tempo que, pura e simplesmente não nos sentimos em perigo. Pelo contrário, achamos que qualquer maldade que possa haver no mundo, ocorrerá sempre em qualquer outro lugar e não irá perturbar o nosso estilo de vida. Gostamos do ‘frisson’ por nos sentirmos um pouco culpados, mas levamos a mal todos os apelos à acção que requeira sacrifícios». Um dos princípios básicos da moderna arte de guerra ocidental, tal como foi articulada por Carl von Clausewitz, é o desejo de destruir o inimigo em batalhas rápidas e decisivas, que lhe quebrem a capacidade (e a vontade) de lutar. Contrariamente, uma das doutrinas básicas da guerra de insurgência, tal como articuladas por ‘mestres’ como Mao Zedong e Vo Nguyen Giap, é evitar batalhas decisivas quando as circunstâncias objectivas não nos são favoráveis e “viver para lutar mais um dia”! Os insurgentes querem prolongar a batalha, criar uma guerra de impasses que, gradualmente, desgaste o inimigo mais forte, enquanto as forças insurgentes acumulam poderio (em homens, armamento e experiência) para poderem combater uma guerra convencional e derrotar o inimigo (depois de anos de guerra prolongada de guerrilha, de desgaste, o Viet Min lançou a célebre ofensiva (de guerra ‘convencional) que culminou no desastre de Dien Bien Phu para as tropas francesas. Os lideres militares ocidentais procuram resolver rapidamente uma guerra, enquanto os insurgentes procuram prolongá-la por todos os meios, mesmo que tal signifique ceder o controlo de território (áreas libertadas), até poderem reunir a força suficiente para o tomar de volta. No moderno contexto jihadista, vimos claramente esta estratégia no Afeganistão. Quando confrontados com o avassalador poderio aéreo dos Estados Unidos, em 2001, recusaram o combate directo e permitiram que as forças terrestres da ‘Aliança’ tomassem o controlo das cidades afegãs, e vez de ‘lutar até ao último homem’. A partir daí os Taliban lançaram uma «clássica» insurgência de base rural desde as montanhas, utilizando o Paquistão como ‘santuário’ para logística e bases de treino. O conceito operacional para os insurgentes é que, se o inimigo ataca em força, eles recuam; se o inimigo se acantona, levam a cabo acções de flagelação; se o inimigo está cansado, pressionam os ataques; se o inimigo recua, os insurgentes perseguem. A ideia é aplicar pressão prolongada, tanto física como psicológica (daí a táctica de, em vez de matar o inimigo, criar um crescente número de feridos graves, pois tal, para além de atrasar as colunas, tem enorme efeito desmoralizador entre as tropas). A base social de apoio é um elemento crítico para qualquer insurgência. Ganhando a simpatia da população, “terreno humano”, os insurgentes podem contar com a população, não só para apoio material, recrutamento de novos militantes e abrigo, como também para recolha de informação (inteligência). Por isso é que o elemento político do esforço insurgente foi sobremaneira valorizado nas teses de homens como Mao e Giap, os quais viam as suas acções em termos de «guerra popular». Das suas teses resulta também a convicção de que os longos motivos de queixa dão ao povo a capacidade de suportar o sofrimento e as perdas pesadas. Dessa forma, o povo tem uma maior força de vontade para combater do que o privilegiado combatente governamental ou o estrangeiro invasor imperialista. Detentores de favorável ‘terreno humano’ também permite aos insurgentes aplicar pressão ao inimigo utilizando métodos não convencionais de guerra, por trás das linhas do inimigo, através de operações com atiradores furtivos (snipers), ataques com engenhos explosivos improvisados, assassinatos e raptos. Controlar e governar cidades populosas requer muitos maiores recursos e esforço, do que conduzir uma campanha de insurgência a partir da floresta ou das montanhas. Manter o controlo de uma cidade requer muito pessoal para garantir a segurança, ao mesmo tempo que se tem de satisfazer as necessidades da população em água, comida, eletricidade e cuidados médicos. Tais necessidades iriam ocupar grande parte dos recursos necessários para um movimento insurgente combater uma guerra prolongada de desgaste. Daí que não seja incomum os insurgentes abandonarem vilas e aldeias impingindo ao governo a responsabilidade de cuidar das populações. O governo fica com esse ónus, gastando os seus recursos a garantir as necessidades das populações, incluindo a segurança. As forças insurgentes podem sempre regressar em pequenos grupos com ataques de flagelação contra as forças de segurança ou contra aqueles que com elas cooperem, desta forma obrigando o governo a investir ainda maiores recursos na protecção das zonas urbanas, assim reduzindo as forças disponíveis para perseguir e combater os insurgentes no campo. De uma forma simplista, levar a cabo ataques insurgentes ou ataques terroristas contra os centros de poder do governo requerem muito menos recursos e meios humanos do que os necessários para garantir a segurança de uma cidade ou vila. Ainda que haja benefícios com os ataques de assédio e flagelação, os insurgentes devem ter cuidado de forma a evitar demasiadas baixas civis, porque um elevado número de baixas civis pode virar a população contra o grupo. A verdadeira ‘fórmula’ em contra-insurgência é «secar» a base social de apoio dos insurgentes. Quando tal acontece, eles perdem a sua capacidade de utilizar a população como camuflagem e como fonte de recrutamento e apoio material, e a vantagem da obtenção de informações (inteligência) pende a favor do governo.
Sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014, entrou para a história como um dos dias mais negros e infames para a democracia em Portugal, em geral, e para a região autónoma dos açores em particular, autêntica sexta-feira negra. Na Assembleia Legislativa Regional dos Açores (ALRA), assistiu-se a um verdadeiro espectáculo de boçalismo político, uma exacerbada labreguice, por parte do presidente do governo regional e do PS açores. Desconfio que, nem no tempo em que imperava a troca de mimos na política nacional, os partidos useiros e vezeiros no insulto, na xicana e na política trauliteira, chegaram tão baixo. Na sua labreguice parlamentar, o pequeno entrou seguramente para o Guiness, por ter suplantado, de longe, (continua na página seguinte)
(continuação) o até então detentor do troféu: Idi Amin Dada! Se aquela coisa tem acontecido no parlamento do Burundi, República Centro Africana, no Uganda, ou mesmo na Guiné-Equatorial (a tal da CPLP), estaríamos a dizer, tá bem, são cafres, semi-canibais. O teor da intervenção, a pretender ser resposta à intervenção de uma deputada foi vergonhosa, javarda e atentória da dignidade do parlamento, uma séria machadada na democracia. Tiro o meu chapéu à senhora deputada, pela sua contenção, auto-domínio, elevado sentido republicano do debate político, que nos proporcionou uma magistral lição de debate político sério, elevado, com respeito pela democracia. Paradigmático do que se passa na política açoriana foi ver que agarradinho que nem uma lapa ao PS, estava o “camarada” do PCP. Naquele contexto miserável, em que os legítimos interesses dos professores apenas estavam sendo defendidos pelo BE, CDS, PSD e PPM, o deputado do PCP (que tem andado a contra-ciclo do PCP nacional) referiu que contra a proposta do PS, estavam os partidos de esquerda. Quando até o PCP reconhece que o CDS e o PPM estão à esquerda do PS e do PCP, porra amigo, por aqui me sirvo!

;
VIAJoaquim Castro
COMPARTILHAR