Árvore Genealógica e pão com chouriço?

Opinião de António José Rodrigues

António José Rodrigues

Circula pela net uma crónica de Luís Fernando Veríssimo, publicada na folha de S. Paulo (Brasil) em forma de diálogo, entre filho e mãe, a qual vou procurar sintetizar:
– Mãe, vou casar!
– Jura, meu filho?! Estou tão feliz! Quem é a moça?
– Não é moça. Vou casar com um moço. O nome dele é Murilo, mas pode trata-lo por Biscoito.
Abrevio o diálogo, deixando a indicação que mãe ficou muito chocada, quase não resistiu a um ataque de coração, acabando por dizer antes preferia uma nora, ao que o filho retorquiu:
– Você vai ter uma nora. Só que uma nora … meio macho. Ou um genro meio fêmea. Resumindo: uma nora quase macho, tendendo a um genro quase fêmea… hoje é assim mãe os nossos amigos são quase todos gays …
De novo a mãe voltou à sua aflição, desta vez temeu pela saúde do seu marido, quando soubesse que o filho iria casar com um homem e sua filha com uma mulher, lamentando por não poder ter um neto … ao que o filho voltou a respondeu:
– Porque não? Eu e o Biscoito queremos dois filhos. Eu vou doar os espermatozoides e a ex-namorada do Biscoito vai doar os óvulos.
– Ex-namorada? O Biscoito tem ex-namorada?
– Sim, quando ele era heterossexual namorava a Veruska, que agora namora a Bel, minha irmã.
– Peraí, a ex-namorada do teu atual namorado … e a atual namorada da tua irmã … que é minha filha também … que se chama Bel. É isso? … porque eu me perdi um pouco….
– É isso, pois é … a Veruska doou os óvulos e nós vamos alugar o útero da Bel.
– Mas … logo da Bel?! Quer dizer então … que a Bel vai gerar um filho teu e do Biscoito, com teu espermatozoide e com o óvulo da namorada dela, que é a Veruska… Essa criança, de uma certa forma, vai ser tua filha, filha do Biscoito, filha da Veruska e filha da Bel. A criança vai ter duas mães: você e o Biscoito; e dois pais: a Veruska e a Bel.
– Por aí…
– Por outro lado, a Bel …, além de mãe, é tia … ou tio … porque é tua irmã.
– Exato. E no ano que vem vamos ter um segundo filho. Aí o Biscoito é que entra com o espermatozoide; que dessa vez vai ser gerado no ventre de Veruska … com o óvulo da Bel. A gente só vai trocar.
– Só trocar, né? Agora o óvulo vai ser da Bel … e o ventre da Veruska. Agora eu entendi! Agora eu realmente entendi …
– Entendeu o quê?
– Entendi que é uma espécie se swing dos tempos modernos! Uma troca de casais … com espermatozoides saídos dos tomates sabe-se lá de quem, a fecundar óvulos uma hora no útero de uma, outra hora no útero de outra … Isso é um bacanal de última geração! E pior … com incesto no meio …
– A Bel e a Veruska só vão ajudar na conceção do nosso filho, só isso … e quando elas quiserem ter filhos … nós ajudamos também.
– Quer saber? No final das contas não entendi mais nada. Não entendi quem vai ser a mãe de quem, quem vai ser o pai de quem, de quem vai ser o útero, o espermatozoide … a única coisa que eu entendi é que … fazer árvore genealógica daqui pra frente … vai ser fo**do.
No que toca a elas, Bocage terminaria assim: “meninas que sois tão boas, porque estais a fazer isso? Porque comeis pão com pão, se é tão bom pão com chouriço?”

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VIAAntónio José Rodrigues
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