

O tema que originou o título desta crónica levou-me a revisitar os Autos das Barcas de Gil Vicente, em especial o primeiro dos três autos, geralmente conhecido por Auto da Barca do Inferno, representado pela primeira vez em Lisboa, no Natal de 1517, na corte do rei D. Manuel I. O cenário desta obra é um porto onde se encontram duas barcas, uma que leva ao inferno e a outra ao paraíso, a primeira guiada por um diabo e a outra por um anjo, sendo os guias a escolher quem entra ou não nas suas barcas.
Ora o desdobramento do banco bom e do banco mau, foi uma criação dos nossos governantes (creio que todos endiabrados e sem anjinhos). No banco bom (a barca destinada ao paraíso), colocaram os ativos financeiros e imobiliários, que poderão ter valor de mercado; relegaram para o banco mau (a barca destinada ao inferno) as dívidas assumidas, os créditos incobráveis, bem como os títulos (ações, obrigações e outros) sem valor de mercado. Mas não cuidaram de distinguir alguns milhares de portugueses que se sentem enganados por terem investido em ações e obrigações do BES e GES, convencidos pelas afirmações do (des)governador do BdP, pelo timoneiro Sr. Silva e pelo anjo P. Coelho, todos eles dizendo que o BES/GES estavam sólidos.
Recordo que, na sequência do 25 de Abril de 1974, a banca foi nacionalizada quando os banqueiros se preparavam para fazer inverter a prometida democracia. Uns anos mais tarde, quando a banca nacionalizada gerava lucros que ajudavam a suportar, entre outros, o Serviço Nacional de Saúde, eis que Soares, Cavaco e os seus seguidores proporcionaram o regresso aos antigos banqueiros. De entre os bancos que voltaram à posse dos ex-donos, salienta-se o BES, que passou a ser o Banco do regime, subsidiando campanhas eleitorais dos partidos chamados do arco da governação (AG), de onde saíram administradores e diretores para integrarem os governos que facilitavam a reconstituição dos antigos grupos financeiros, onde os governantes, depois de saírem de funções, passariam a assumir cargos de direção com remunerações milionárias.
A partir de então, em conluio, banqueiros e políticos corruptos, criaram legislação adequada tendo em vista facilitar negociatas e proteger os trafulhas e vigaristas, os quais já gamaram biliões de euros: do BPN, criado por homens de mão de Cavaco, o que já custou aos contribuintes portugueses cerca de 7 mil milhões de euros; do BES/GES, que ainda agora começou, já se fazem cálculos de que a fatura a pagar pelos contribuintes será ainda mais pesada.
Segundo o Expresso, de 11/10/2014, o BdP soube do buraco no GES seis meses antes de o revelar, quando a dívida era apenas de 1,3 mil milhões de euros. Em agosto, quando o BdP resolveu intervir, depois de Ricardo Salgado e os seus primos Espírito Santo terem colocado mais uns milhões em paraísos fiscais, o mesmo BdP entrou com 4,9 mil milhões de euros para salvar o BES. Entretanto a PT já tinha sido lixada com 900 milhões. Sem vergonha da promiscuidade entre governantes e homens de negócios, no início de outubro, no Algarve, o Sr. dos Passos participou num jantar convívio com outro anjinho José Maria Ricciardi (um dos primos de Ricardo Salgado), onde se apertaram num fraternal abraço.
Se esta crónica continuasse como na sátira das barcas, ainda veríamos os donos disto tudo a afundar a barca destinada ao inferno e a tentar expulsar os ocupantes da barca destinada ao paraíso, atirando-os borda fora, por os donos disto entenderem que eles é que terão direito a entrar no paraíso, com a mesma facilidade que levaram o dinheiro dos contribuintes para os outros paraísos (FISCAIS). Isto porque todos estes diabretes se julgam anjos e santos e contam com a cumplicidade dos nossos governantes e de do Sr. Silva, o grande arrais de todas as naus, fragatas, barcas e submarinos (mesmo os comprados por Portas).
É claro que os portugueses que pensam pela sua própria cabeça não gostam da sátira do Banco bom e Banco mau, gostariam antes de ter leis e justiça capaz de julgar e condenar os corruptos à prisão e à confiscação da riqueza deles, espoliada a todos nós.
















