Quem quer ser milionário como o Joaquim Ramos

Opinião de Nuno Cláudio

Ramos esteve 12 anos á frente da autarquia, mas nesse periodo não foi bem sucedido quanto à requalificação da EN 3. Embarca agora em nova tentativa...

Não deixa de ser emocionante quando, de forma surpreendente, ligamos a televisão e damos com uma figura bem conhecida a ser massacrada pela Manuela Moura Guedes no concurso televisivo “Quem quer ser milionário”. Ora, num destes dias – 22 de Abril, para ser objectivo – lá estava Joaquim Ramos sentado na cadeira dos candidatos às migalhitas dadas pela RTP e retiradas dos impostos dos portugueses, depois de ter sido o mais astuto na chamada prova do dedo rápido – sempre ouvi dizer que Ramos era rápido com os dedos porque lesto de pensamento, o que veio a comprovar-se neste simples teste de ordenar alfabeticamente uns nomes que lhe apareceram pela frente. Com toda a franqueza e a maior das sinceridades, gostei de ver que Joaquim Ramos está bem melhor de saúde comparativamente com a última vez que tinha estado na sua presença, aquando da entrevista que lhe fiz em Dezembro de 2013, quando amavelmente me recebeu na sua casa. Nessa altura, confesso, fiquei impressionado com a debilidade que apresentava e julguei que jamais viria a ficar ao menos razoavelmente saudável mas, a julgar pelo que vi através da televisão, Ramos recuperou muito e bem e apresenta uma condição física que lhe permite, pelo menos, expectar um resto de vida com o mínimo de qualidade. Ainda bem que assim é, porque se trata do mais importante de tudo.
Bom, mas devo dizer que a satisfação por ver Joaquim Ramos aparentemente bem de saúde depressa deu lugar a alguma irritação, concretamente quando a apresentadora desafiou o ex-presidente da Câmara de Azambuja a, na prática, promover o município, enlencando razões para que as pessoas considerem o concelho um local aprazível para se viver. Aparentemente apanhado de surpresa, Ramos lá tentou “vender” o concelho, procurando fazer boa figura: falou de um Rio Tejo bonito, com deltas e braços de água; falou da lezíria e da cultura taurina, e falou desse ex-líbris inequívoco que é a… sala de cinema de Azambuja, salvo erro construída e explorada por um particular, estou em crer… E pronto, é isto o Concelho de Azambuja para Joaquim Ramos. O Rio Tejo, que atravessa o sul da freguesia de Azambuja; as largadas de toiros, que acontecem na Feira de Maio em Azambuja, e uma sala de cinema na vila de Azambuja. Falou em qualidade de vida, disse que em 12 anos procurou que Azambuja não se misturasse com a mancha urbana de Lisboa, mas depois, quando desafiado a concretizar… Tejo, toiros e sala de cinema. Mais nada.
Se há coisa que nunca percebi é se Joaquim Ramos, quando fala em “Azambuja”, se refere ao território municipal, ou se alude exclusivamente à vila-sede de concelho. Com toda a franqueza, sempre considerei que Ramos aceitou este desafio de ser presidente “de Azambuja” única e exclusivamente porque queria fazer figura de herói na sua terra; queria ficar bem visto perante os seus, desejava brilhar aos olhos dos familiares, ver a mãe envaidecida e orgulhosa porque o filho chegara a presidente da Câmara, e provar àqueles que o massacraram em miúdo – por ser… diferente – que era superior, mais inteligente e mais capaz. De resto, nada mais interessava a Joaquim Ramos. Tudo o que existe da Guarita para Norte era um frete tremendo para o ex-presidente, que muito pouco se identificava com o restante território concelhio. É ver a dedicação e o carinho com que trabalhou e fez alguma coisa em Azambuja para, em contraste, registar o que não fez no resto do concelho. Mais do que não fazer, foi a ausência de paixão que sempre foi notória em Ramos para com as restantes freguesias, com as quais definitivamente não se identificava. Joaquim Ramos revelou a Manuela Moura Guedes que servir a causa pública foi a mola motivadora que o fez candidatar-se à Câmara por três vezes. Para mim, o grande problema de Ramos residiu precisamente na concepção da área geográfica do espaço público que serviu. Depois de avaliar o trabalho de Ramos na Câmara e de ouvir em directo na televisão a sua ideia de potencial do concelho, eu diria que o ex-presidente esteve no cargo errado ao longo de 12 anos, porque verdadeiramente o que Joaquim Ramos deveria ter sido era presidente da Junta de Freguesia de Azambuja. Teria mais a ver com a sua paixão e com a abrangência da sua visão, seguramente que teria o jardinzito com a mesma placa toponímica e, com um pouco de sorte, lá estaria igualmente o redondel do massacre taurino, “espectáculo” do qual Ramos já confessou nem ser apreciador – lá está, porque é sensível, o que não tem mal nenhum; é até uma qualidade, estou em crer – mas que vai apoiando como se fosse o maior dos aficionados, lá está outra vez, porque ainda quer fazer figura de herói na sua terra; quer continuar bem visto perante os seus, deseja continuar a brilhar aos olhos dos familiares e provar àqueles que o massacraram em miúdo – apenas e somente por ser diferente… – que é superior, mais inteligente e mais capaz. Até admito que seja, mas custa-me a perceber em quê neste particular do servir da causa pública… Ainda fiquei à espera que Ramos doasse os 4 mil euros que sacou à televisão do Estado (com muito mérito, claro) a alguma instituição do Concelho, para a compensar dos cortes nos subsídios camarários motivados pela escassez orçamental da autarquia, escassez essa devida ao valor colossal da dívida deixada por… Joaquim Ramos em 2013. Mas enganei-me. Dirá Ramos, provavelmente, que já deu muito de si à causa pública para que ainda se dê ao luxo de doar um prémio ganho num concurso de televisão. Direi eu próprio: nunca se esqueça da outra parte, ex-presidente. Pode não estar à vista, como convém, mas sabemos que ela existe. Oh, se existe…

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VIANuno Cláudio
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