A variante do Álvaro, a herança e as “alembrancinhas”

Opinião de Nuno Cláudio

Eu sabia que este dia iria chegar. A família socialista de Alenquer não iria resistir por muito mais tempo e teria, em algum momento, de regressar às suas raízes de praticantes do verdadeiro espírito da Valsinha das Medalhas. Álvaro Pedro tem escapado às homenagens desde 2009 porque os responsáveis políticos deste concelho conhecem bem o seu povo – ou julgam que conhecem, até ao dia em que estes abrirem a pestana e os surpreenderem nas urnas de voto como, de resto, merecem desde há muito – e ficaram à espera que o tempo apagasse as memórias da miséria moral que constituiram os mandatos de Pedro, que acaba de ver o seu nome associado a uma obra que custou alguns milhões valentes de euros – a variante que liga a Estrada nacional 1, ou IC 2, à rotunda do Casal de Santo António. Que agora se chama Variante Álvaro Pedro.
Para começar, tenho uma sugestão para apresentar ao senhor Pedro: já que os eleitos de Alenquer nos presentearam com esta aberração de nomenclatura, então proponho que Álvaro Pedro faça a doação de 1 cêntimo para obras ou instituições de apoio social por cada veículo automóvel que circule naquele troço de estrada, paga pelos seus impostos (refiro-me a si, caro leitor, porque foi você quem pagou aquela estrada, mas é o Álvaro quem a ela fica eternamente ligada, como se de um herói se tratasse, apenas porque era presidente de Câmara quando o dinheiro do povo pagou aquela obra). O quê? O homem não teria dinheiro para tamanho acto de caridade? Ah, pois não, digo eu! Mas é que tem mesmo. Malinhas dele, bem guardadas, que resultam da construção… de um concelho desenvolvido em 34 anos de mandato. “Alembrancinhas” chorudas, conseguidas com o mérito que lhe reconhecemos, a troco da promessa de pouco ver e de nada fazer perante a construção… do tal concelho desenvolvido em 34 anos de mandato. Ainda pensei em estragar a festa do dia 5 de Outubro, e tive uma ideia: alugava uma daquelas carrinhas equipadas com uns megafones para divulgação das touradas e ia coloca-la mesmo no local onde decorreu a cerimónia de atribuíção do nome do homem à variante, divulgando alto e bom som algumas entrevistas e conversas privadas que mantive com alguns agentes da construção… deste concelho desenvolvido ao longo de 34 anos de mandato. Isso é que seria um serviço público de qualidade para aquelas grafonolas pedantes, não é a divulgação das barbaridades dos toiros! O leitor já imaginou o espectáculo? O homem a desterrar a placa toponímica e ao mesmo tempo as grafonolas a debitar as palavras de um desses agentes da construção… de um concelho desenvolvido em 34 anos de mandato a falar das malinhas e das “alembrancinhas”? Dos carros, das garagens, das lojas, enfim, dos custos do progresso e da riqueza? Isso é que era notícia, destaque para o Fundamental em mês de aniversário. Chamavam-se as televisões, avisando previamente sobre o que se iria passar, e era uma festa. Um hino aos anos dourados da construção… de um concelho desenvolvido em 34 anos de mandato. Lá me confiscavam a carrinha, a grafonola, as cassetes com as entrevistas que religiosamente guardo para um dia também criar o meu Câmara Leaks, o que farei apenas quando me sair o Euromilhões, no dia imediatamente anterior ao embarque para a Ilha da Páscoa, em pleno Pacífico, sem bilhete de regresso. Pensei cá para comigo: nunca mais evoluímos desta miséria moral que nos governa localmente, onde gente ordinária e vulgar é tratada como se de heróis estivessemos a falar. Servem-se do poder para enriquecer à custa da ignorância do povo e ainda são condecorados ao lado de nomes como Damião de Góis, Camões ou Pêro de Alenquer. Malfadada sorte a que Alenquer está votada com esta corja.

; ;
FONTENuno Cláudio
COMPARTILHAR