O processo de urbanização de Alenquer (e do mundo em geral)

Uma população concentrada deixa de ser uma comunidade local quando o espaço comum deixa de ser chão de uma vivência comum.

Pela nossa própria experiência de alenquerenses, sabemos que muitos de nós vieram do norte e do interior do país, como boa parte dos que vivem na região de Lisboa. Muitos, por sua vez, são os que daqui saíram em direcção à capital. Também muita gente do Alto Concelho se mudou para Alenquer e para o Carregado, onde encontramos ainda quem já viveu mais perto das sete colinas.

A expansão de Lisboa tem sido tal que a própria cidade se esvazia há muito pelo alto custo do solo. O mercado (e a especulação) empurra a procura de espaço para anéis cada vez mais distantes da capital, e foi assim que também Alenquer teve o seu período de grande expansão demográfica. O nosso concelho perdeu habitantes em sucessivas décadas até aos anos 80, em contraste com o que se verificou nos concelhos metropolitanos, mas passou a acompanhá-los a partir de então numa acentuada subida. Note-se contudo que esta inversão aconteceu apenas nas duas grandes vilas do concelho, enquanto o seu restante território se manteve em perda.

Retratos como este existem por todo o planeta: a atracção fortíssima das grandes cidades, seguida do refluxo para uma periferia acessível, que se torna dependente. É assim que já metade da população mundial é urbana e se prevê que esta proporção continue a aumentar, e é assim que as grandes metrópoles se agigantam e se tornam os lugares de afirmação dos povos no mundo globalizado.

Lisboa e as maiores cidades do país atraem população rural desde sempre; a emigração fá-lo há séculos, desde a colonização. Estes fluxos eram contudo suficientemente fracos para que o saldo natural das comunidades de origem pudesse compensá-los, permitindo ainda o lento crescimento das populações locais. Foi já na transição para o século XX que aquele êxodo se massificou ao ponto de iniciar processos de perda, que em muitos casos se tornaram de notória desertificação.

É, conforme se prefira, a lei da selecção natural aplicada às comunidades locais, com a persistência das mais atractivas, ou a lei da gravidade, dirigindo as massas menores para as massas maiores.

No fim deste processo está a metrópole, uma grande vencedora da história.

Fazendo uma analogia, se a comunidade local é um lugar de trocas (internas e com o exterior) que centraliza um território periférico de produção, a metrópole é agora esse lugar centralizando toda uma região em seu redor – ou até um país inteiro. Mantendo-se a natureza da dicotomia cidade/campo, o aumento da sua escala reflecte a enorme teia de relações que hoje sustenta a nossa vida, que já pouco tem da simplicidade de outros tempos. Se o leitor está na sua sala, bastará que olhe à sua volta e tente contabilizar a quantidade de pessoas e lugares envolvidos na produção de tudo o que o vê. É impossível certo? Pois para o antigo aldeão isto não apresentaria grande dificuldade.

Contudo, não devemos confundir a comunidade local com uma suposta comunidade metropolitana, mais próxima da escala regional. Afinal, por maiores e mais complexos que sejam os seus espaços de referência; por mais poderosos que sejam os seus meios, o homem continua a ser do mesmo tamanho, e no dia do seu funeral são os vizinhos que aparecem. Se o conhecerem.

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VIAFrederico Rogeiro
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