Aonde nos leva o nosso tempo?

O fim da história mundial implica uma imensidão de pequenos fins espalhados por todo o globo. A nós alenquerenses interessa particularmente o nosso

Viveram-se momentos de pânico entre os leitores, aquando da publicação do artigo anterior. Por momentos, passou a ideia de que Alenquer ia acabar. Felizmente, foi só fumaça. E se alguém ainda tiver dúvidas, que venha cá este fim-de-semana às sunset parties, no parque da Romeira, que valem bem a pena.

O equívoco deveu-se à óbvia noção de que, embora o princípio da história de uma coisa anteceda a coisa em si, o fim da história dessa coisa não pode anteceder o fim da coisa propriamente dita. Para que isso aconteça, é preciso então que a história se refira a certos aspectos da coisa e não à coisa toda. É preciso, por exemplo, que tomemos a história apenas como um processo de evolução política – e é o que fazemos.

Por exemplo, se dissermos que Cavaco Silva acabou, é falso, pois sabemos que está vivo. Mas se dissermos que o mesmo Cavaco acabou politicamente, é provável que estejamos certos. Neste sentido, podemos até dizer que há pessoas que chegaram longe sem nunca terem nascido, sem corrermos o risco de cair no absurdo.

Se o fim da história lhe soa familiar, é provável que tenha ouvido falar da teoria de Francis Fukuyama, que diz que o fim da história (história naquele sentido político) será o triunfo da democracia liberal capitalista sobre todos os outros sistemas políticos que já existiram.

Para este pensador norte-americano, que escreveu no tempo em que caía o muro de Berlim e se desmantelava a União Soviética, passados que eram os fascismos e os absolutismos no Ocidente, não restam alternativas capazes de concorrer com aquele modelo de sociedade, que – antecipou – acabará por chegar a todo o mundo.

Não sabemos se pode existir um fim da história, com uma ideologia definitivamente triunfante. Podemos ou não crê-lo ou desejá-lo – este fim que Fukuyama prevê e deseja ou outro. Mas, à margem destas controvérsias, podemos simplesmente imaginar para que hipotético fim nos levam as dinâmicas dominantes do nosso tempo e do nosso contexto – e é o que faremos.

O fim da história de Alenquer não significa então o fim de Alenquer. Mas assim como a história do mundo se repercute nas histórias locais, também o fim daquela se traduz numa imensidão de pequenos – e diferentes – fins espalhados por todo o globo.

A nós alenquerenses interessa particularmente o nosso. Mas dele teremos de ser nós a tratar. Ao que parece, o Sr. Fukuyama nunca cá pôs os pés nem bebeu da nossa pinga, por isso há coisas que ele evidentemente não sabe.

;
VIAFrederico Rogeiro
COMPARTILHAR