

Este recente episódio relacionado com a abertura ilegal do Pingo Doce no Carregado veio revelar que o município de Alenquer vive em absoluto estado de anarquia, sem que haja quem garanta aos seus cidadãos os mais elementares direitos de segurança e qualidade de vida. Como é possível que uma estrutura desta dimensão e natureza consiga abrir portas e vender ao público na mais completa ilegalidade e sem que haja quem tenha poder para o impedir, fazendo prevalecer a Lei?
A Câmara Municipal argumenta que avisou, aconselhou em contrário e garante que não concedeu autorização. A verdade é que o Pingo Doce abriu. Esteve positivamente a borrifar-se para a Câmara de Alenquer, que possivelmente considerará tratar-se de uma entidade menor, insignificante até. Portanto, de uma coisa os habitantes desta região têm a partir de agora ainda mais certezas: a Câmara não é competente para aplicar a legislação do espaço que tutela. Neste particular, não serve para mesmo nada.
As autoridades policiais locais estão no mesmo patamar, embora no caso em apreço tenham prestado um serviço útil, fiscalizando o evoluir do trânsito na rotunda no dia da abertura do espaço comercial. Útil para o Pingo Doce, bem entendido, porquanto estavam a ajudar e a proteger a actividade de uma infraestrutura ilegal. Só mesmo em Alenquer, caro leitor! O Pingo Doce abre contra tudo e contra todos, ilegal, perante a total impotência da autarquia e com escolta das autoridades policiais locais. Eduardo dos Santos, lá pelas angolas, até cora de inveja…
Há uns meses, em reunião de Câmara de Alenquer à qual assisti, o vereador Carlos Areal questionou a vereadora Dora Pereira acerca do que iria ser construído naquele local (onde hoje está edificado o Pingo Doce). Com um incompreensível e para mim inexplicável brilho nos olhos, e até alguma arrogância velada mas perceptível, a vereadora prometeu com ar triunfal que iria trazer a informação solicitada por Areal numa próxima reunião do executivo. Uma espécie de birrinha, do tipo “toma, toma! Que vocês podem berrar mas quem manda aqui somos nós!”, que fazia antever o quanto a vereadora era – e será, com toda a certeza – apaixonada por este projecto.
A vereadora lá terá as suas razões. Que, como se verifica pelo resultado final, não estão em sintonia com os interesses dos munícipes, que a vereadora deveria defender. Afinal, a quem interessa esta loja do Pingo Doce? Aos portugueses não será com toda a certeza, porquanto o grupo até paga impostos na Holanda. Ao emprego no concelho também não será, com toda a certeza, já que os postos de trabalho ali criados serão os que necessariamente ficarão comprometidos noutros estabelecimentos similares. Para os automobilistas e para a qualidade de vida do concelho em geral e do Carregado em particular, como está bom de ver, o interesse é nulo, anedótico até. Portanto, volto a perguntar: a quem realmente interessa a abertura desta superfície comercial, com todas as vicissitudes e ilegalidades que envolve?
Certo é que a superfície abriu, contra tudo o que foram pareceres negativos, ausências de autorizações da câmara local e evidências de perigo no contexto da circulação automóvel. As obras foram efectuadas de modo voraz, destruindo passeios públicos, invadindo espaços particulares e condicionando o trânsito local durante semanas, tornando-o caótico até em determinadas ocasiões. O promotor da sigla será quem mais ganha com tudo isto, como é evidente. Mas não me venham cá dizer que é o único, nem a mim nem aos alenquerenses e carregadenses, que a malta de hoje já anda de olhos bem abertos e sabe bem como estas coisas se fazem.


















