A caminho de uma nova era

"A enxada dos nossos dias – o computador pessoal – não precisa de terra, e por isso não a ocupa, preferindo o meio urbano" - Opinião de Frederico Rogeiro

Há uma regra de todos os tempos que diz que o lugar onde o homem obtém sustento determina a sua residência. Os nómadas viviam procurando alimento e moravam onde o encontrassem; os agricultores passaram a viver em quintas e aldeias junto dos seus campos. Os operários fixaram-se em cidades e subúrbios industriais enquanto funcionários e comerciantes sempre estiveram nos aglomerados urbanos. Agora, depois de os transportes terem alargado a distância casa-trabalho, é a internet que desafia aquela regra, não se sabendo ainda até que ponto poderá contrariá-la.

Se historicamente a agricultura ocupava quase toda a gente e hoje ocupa uma minoria, fica claro por que é que muitas comunidades locais definharam ou desapareceram. Em Portugal, também o povoamento por razões defensivas já pouco se justifica, sobretudo graças a avanços políticos que debelaram antigas animosidades.

O sector agrícola deixou de ser o maior empregador e, em face da evolução tecnológica e dos padrões de vida, deixou também de ser o maior produtor de riqueza. Além de a mão-de-obra humana ter sido largamente substituída pelas máquinas, à família de hoje não basta chegar ao fim do dia e ter a barriga cheia, o corpo coberto e um tecto sobre as suas parcas posses. Mesmo para viver no que que agora consideramos um patamar mínimo de dignidade, ela aspira já a dispor de um largo conjunto de bens industriais e serviços. Portanto, só as comunidades locais que encontraram outras actividades produtivas mantiveram uma sustentabilidade económica capaz de satisfazer estas novas exigências.

A indústria deu em alguns casos esta resposta, quando encontrou vantagem em situar os seus processos de transformação junto de lugares de extracção de matérias-primas. Mas o desenvolvimento dos transportes, por um lado, e a complexidade crescente dos produtos industriais, incorporando mais componentes e materiais, levou-a tendencialmente a favorecer outros critérios, e a fazê-lo sobretudo nas fases de produção de maior valor acrescentado: a procura de mercados consumidores ou de trabalho qualificado leva a indústria para as cidades, onde também estão as melhores acessibilidades e os centros políticos e de saber. Mas também a procura de materiais e mão-de-obra barata a pode levar para outros continentes.

Os serviços, que trabalham maioritariamente para clientes finais, preferem, ainda mais que a indústria, a proximidade dos grandes mercados. A comunidade local é tipicamente um pequeno mercado, que só se torna grande quando o atrai do exterior. Isto só pode acontecer quando algum bem muito valioso não pode ser transportado, como a natureza, o património e a paisagem, ou outros valores intrinsecamente locais. Portanto, para além destes casos excepcionais, sem a força de algum dos pilares básicos da economia, dificilmente os serviços podem ser o sustentáculo de uma comunidade local.

Em suma, se o país agrícola tendia para a desconcentração populacional, o país industrial e de serviços tende para a urbanização, e em especial para a concentração nas maiores cidades. Ainda mais quando, especialmente graças ao automóvel, as cidades puderam expandir-se indefinidamente, absorvendo para o seu quotidiano espaços e aglomerados vizinhos cada vez mais distantes – aglomerados estes (como Alenquer) que obtiveram dessa condição de satélites uma nova forma de sustentabilidade.

Fica claro que, com a evolução da economia, a urbanização da população deixou de ser uma opção e passou a ser uma necessidade. E num país tardiamente industrializado, cronicamente atrasado face aos seus vizinhos, é uma necessidade que as próprias cidades não suprem, levando à emigração.

A cultura da grande cidade, do subúrbio metropolitano, é contudo diferente da que existe na comunidade local. O espaço comum continua a fazer parte da vida das pessoas, mas enquanto referência de comunidade, o local é ultrapassado.

Ultrapassado por quem? Adiante saberemos.

VIAFrederico Rogeiro
FONTEf
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