As águas, o populismo e a realidade! (Opinião de Maria João Canilho)

Os factos seguintes podem parecer estranhos, mas são a mais pura das verdades e estão registados em gravação de som e nas respetivas actas solenes da Assembleia Municipal de Azambuja.

Maria João Canilho

No dia 30 de Julho de 2015, o presidente da Assembleia Municipal, António José Matos, saltou do palco do Auditório do Páteo Valverde para a frente da sala e pediu a palavra como deputado.

De microfone na mão, como se estivesse a desafiar compradores na Feira dos Santos, Matos fez uma intervenção apaixonada, cheia de relatos do passado, das suas intervenções, daquilo que fez contra a concessão das Águas da Azambuja há quase 10 anos, etc., etc.

Nesse discurso inflamado, Matos disse coisas como “Seria muito mais fácil votar contra ou abster-me, no entanto, estou aqui para enfrentar as coisas, também quando estas são difíceis!” ou “Hei-de agir sempre em função da minha consciência e do que acho melhor para as pessoas que em mim votaram!”.

Quando a conversa de Matos acabou, lembro-me de ter dito aos meus colegas vereadores Jorge Lopes e David Mendes “Mais um bocadinho e tinha comprado os cobertores ao homem!”

Depois da sua calorosa intervenção, António José Matos votou a favor do aditamento ao contrato das Águas da Azambuja, o tal aditamento que causou os recentes aumentos brutais na fatura da água! E o seu voto foi o decisivo!

Como havia empate entre votos contra e votos a favor, coube a António José Matos desempatar. E Matos desempatou votando a favor dos brutais aumentos da fatura da água e de todo um conjunto de disparates que estão no aditamento ao contrato de concessão, como o pagamento da tarifa de disponibilidade de saneamento pelas famílias mesmo quando na sua rua não exista qualquer rede de esgotos! As famílias pagam um serviço que não têm!

Este aditamento ao contrato de concessão teve os votos contra da Coligação PELO FUTURO DA NOSSA TERRA e da CDU. E só mereceu os votos a favor dos eleitos do PS, incluindo António José Matos e os presidentes das Juntas de Freguesia de Azambuja, Vale do Paraíso, Vila Nova da Rainha e Alcoentre.

Eis que um ano e alguns meses depois da “venda dos cobertores”, as famílias e as empresas começam a sentir os duros efeitos desta decisão política no seu bolso.

Agora, tentando dar a volta, António José Matos torna público que enviou uma carta às Águas de Azambuja onde escreveu “Apelo aos responsáveis pelas Águas de Azambuja que parem imediatamente com estas cobranças totalmente abusivas e devolvam às pessoas, na próxima factura, tudo o que lhes foi indevidamente cobrado”….

Mau! No que é que ficamos???

No dia em que votou a favor, Matos não disse que achava que o aditamento ao contrato de concessão era o melhor para as pessoas?

Matos e o PS não disseram que a Oposição não tinha razão e que era alarmista quando falavam dos aumentos brutais na fatura da água?

Matos e o PS quando votaram a favor do aditamento não viram que estavam previstas e expressas várias cobranças abusivas, nomeadamente na tarifa de disponibilidade de saneamento?

Das duas uma: ou não leram o texto que aprovaram ou então não o perceberam!…

Ou pior, leram e perceberam e agora querem enganar as pessoas porque sabem que na altura própria não defenderam os interesses das famílias e empresas do nosso Concelho!

Porque razão o PS rejeitou o apelo da Coligação PELO FUTURO DA NOSSA TERRA e da CDU para um CONSENSO POLÍTICO sobre o contrato de concessão e que permitisse enfrentar com firmeza as Águas da Azambuja? Um consenso entre todas as forças políticas não teria sido mais prudente e mais coerente? As famílias e empresas não teriam sido melhor defendidas? Acredito que sim e por isso não desculpo o PS e seus autarcas neste assunto!

Na reunião da votação do aditamento ao contrato das Águas da Azambuja, os deputados da Coligação PELO FUTURO DA NOSSA TERRA fizeram três intervenções em que pediram o adiamento da votação e a construção de uma solução de consenso que acautelasse os interesses das famílias e das empresas. O Partido Socialista rejeitou esse consenso e votou sózinho os brutais aumentos na fatura da água que agora todos pagamos!

Um último comentário sobre a reviravolta de António José Matos que antes foi contra as Águas da Azambuja, que depois votou a favor das Águas e agora volta a estar contra as Águas…

Que as pessoas mudem de opinião e reconheçam um erro, parece-me razoável, de bom senso e até é uma prova de que há princípios e valores que se sobrepõem, pela sua importância, a posições pessoais. Mas, acusar as Águas da Azambuja pelas consequências de um acto que é da exclusiva responsabilidade de quem votou a favor dos aumentos e do aditamento ao contrato, é, no mínimo, uma atitude de alguém que apenas anda ao sabor das conveniências e que quer agora agradar a quem não soube defender!

As pessoas não têm uma memória tão curta quanto a alguns convém. As pessoas que devemos defender, pelos cargos que ocupamos, não estão em amnésia colectiva, não esquecem e farão reflectir nas próximas eleições o seu descontentamento. Tenho a certeza. Até porque as próximas eleições não serão uma venda de cobertores!…

VIAMaria João Canilho
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