Assim nasceu Portugal (opinião de António José Rodrigues)

Crónica Maldita de António José Rodrigues

"Para uma mãe que preferiu distribuir os seus carinhos pelo seu amante Galego, Peres de Trava, traindo os portucalenses e chamando aleijadinho ao seu próprio filho, toda a tareia que este lhe deu terá sido pouca..."

Aqui há alguns anos algumas conceituadas pessoas, designadamente dos concelhos de Santarém e do Cartaxo, colocavam em questão a conquista de Ourique, no Baixo Alentejo, porque, segundo certos historiadores e estrategas militares, tal ofensiva de D. Afonso Henriques seria impossível antes da conquista de Santarém e de Lisboa, pois para chegarem a Ourique teriam que passar por diversas terras da moirama. Defendiam a sua tese dizendo que a dita batalha de Ourique teria antes sido uma escaramuça que alguns historiadores chamam fossado nas Chãs d’ Oric, hoje Vila Chã de Ourique, no concelho do Cartaxo, antes da conquista de Santarém.

Contudo, tendo acabado de ler dois livros, I e II volume, com o título “Assim Nasceu Portugal” de Domingos Amaral, Edição Casa das Letras, é relatado no vol. II designadamente página 372 e seguintes, que a conquista de Ourique ocorreu em final de julho de 1139. Tal conquista aconteceu quando Afonso Henriques, depois de se ter retirado da região da Andaluzia, dominada pelos muçulmanos, onde pretendeu receber uma relíquia trazida por seu pai da Terra Santa, deixando em troca uma princesa muçulmana, de seu nome Zaida, prisioneira dos portugalenses há vários anos em Coimbra. Tal troca fora combinada com Abu Zhacaria, governador de Santarém, ainda em posse dos sarracenos, que desejava unir as taifas (principados muçulmanos) de Córdova, Sevilha e Badajoz ao condado Portucalense. Para tal teria o acordo de Ismar, califa de Córdova. Para entrar na Andaluzia Afonso Henriques e os seus guerreiros atravessaram o Tejo, na zona do Castelo de Almourol, próximo de Santarém. Tal troca não foi possível, pois Afonso VII, que se designava rei Leão, Castela, Galiza e Navarra e do condado Portucalense, primo de Afonso Henriques, pretendeu atacar Oreja, para enfraquecer o califado de Córdova, administrado pelo príncipe Ismar, dependente do rei muçulmano de Marraquexe. Como Afonso VII, continuava a querer subjugar o primo Afonso Henriques, e julgava não poder combater em duas frentes, fez um acordo com o califa de Córdova, de modo a suspender a sua ofensiva a Oreja, para poder derrotar os portucalenses antes de obterem a relíquia.

Assim, Afonso Henriques sentindo-se atraiçoado por Abu Zhacaria, e reconhecendo que com cinco mil guerreiros não podia defrontar o exército inimigo que teria mais de 20.000 (de Badajoz, Beja, Santarém, Córdova e Sevilha) ensaiou uma retirada pelo sul do Tejo, pois tinha informação de que o seu pequeno exército se utilizasse o mesmo percurso de Almourol, seria dizimado. Deste modo, fugiu com os seus homens pela zona de Mértola, também dominada pelos muçulmanos. Sabendo-se perseguido pelos sarracenos, quando chegou perto de Ourique, verificou que estava numa zona privilegiada para emboscar e derrotar os sarracenos, pois iria contar com o apoio de um reforço de portucalenses que viriam de Coimbra, em sua defesa, tal como veio a acontecer. A grande sorte dos portucalenses foi a forte trovoada caída sobre os exércitos de Badajoz, Sevilha e Córdova, que criara vários focos de incêndio, que confundiram os sarracenos, sobretudo o exército de Ismar. A dita trovoada foi seguida de vento forte que empurrou o fogo para o sul, pelo que os soldados cordovenses tiveram de recuar um pouco, enquanto as labaredas passavam, o que os impediu de reagir de pronto ao avanço dos portucalenses, que estavam confiantes por, na véspera, terem derrotado as tropas de Badajoz e de Sevilha. Tal trovoada, foi considerada pelos muçulmanos um milagre dos céus que os derrotaram em Ourique. Ainda nesta batalha, houve um bárbaro ataque com uma horda canina atiçada pelos sarracenos, que provocou o pânico generalizado dos portucalenses, a qual foi contida com toneladas de carne de vaca, ovelha e burro preparada de véspera para saciar a fome dos cães, que iriam procurar nas pernas e o corpo dos soldados de Afonso Henriques que já tinham começado a serem ferrados pelas mandíbulas colossais dos cerca de 500 cães enraivecidos da batalha, onde quase todos foram dizimados pelas lanças lusitanas.

Em complemento do parágrafo inicial desta narrativa, assinalo que Santarém foi conquistada aos mouros em 15 de Março de 1147 e Lisboa, tendo sido cercada a partir de 1 de Julho de 1147, só foi tomada por Afonso Henriques em 24 de Outubro de 1147.

Finalmente, deixo a informação de que, para quem tiver interesse neste tipo de romances históricos, de permeio existem algumas estórias de amor, à volta da mãe de Afonso Henriques e deste último que, em jovem, era considerado enfezado e aleijadinho (até pela própria mãe), que não tinha sorte com as mulheres mas que, depois de assumir a regência do condado portucalense, era desejado por muitas mulheres, da nobreza e do povo. Acrescento ainda que o primeiro rei de Portugal foi criado pela mulher de Egas Moniz e que, na opinião de alguns historiadores, ele seria mesmo filho de Egas Moniz e de sua mulher, que o terão trocado pelo enfazadinho, para assegurar a transmissão do trono que foi do Conde Henrique e de Teresa.

Finalmente: para uma mãe que preferiu distribuir os seus carinhos pelo seu amante Galego, Peres de Trava, traindo os portucalenses e chamando aleijadinho ao seu próprio filho, toda a tareia que este lhe deu terá sido pouca.

VIAAntónio José Rodrigues
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