
Nas décadas de trinta e quarenta do séc. XX, na freguesia de Manique do Intendente, andar calçado era um luxo, em especial para os filhos dos trabalhadores rurais que, regra geral, só calçavam uns sapatos ou umas botas quando iam fazer o exame da quarta classe, na sede do concelho, neste caso, em Azambuja.
Naquela época, realizavam-se mercados mensais nas referidas freguesias de Manique do Intendente e de Alcoentre, no primeiro e terceiro domingos de cada mês, respetivamente. Nos referidos mercados, que chegaram a ter grande pujança até aos anos setenta do passado século, vendia-se um pouco de tudo: calçado e roupas de fancaria, utensílios para casa, ferramentas e gado para o trabalho, etc. Os sapateiros vendedores vinham da Benedita e calçavam os fregueses locais. Vendo a mercadoria já pronta a usar ou, nos casos em que queriam e podiam calçar-se mais a seu gosto, os artesãos tiravam as respetivas medidas aos pés dos clientes e entregavam os sapatos ou as botas no mês seguinte.
Não se pagava sinal, mas a mercadoria era sempre entregue no dia combinado; alguns compravam a prestações mesmo sem fiador, pois a palavra valia dinheiro. Uns sapatos ou umas botas cardadas custavam, por volta de 1955, 40$00 ou 50$00 (cerca de 20 ou 25 cêntimos atuais). Era preciso a jorna de dois dias de trabalho de um homem que ganhava, em média, 20$00 ou 25$00 por dia; as mulheres ganhavam metade dos homens.
As diferenças de custo de um par de botas para adulto, do número 39 ao 44, eram diminutas; assim, depois de discutido o preço da mercadoria, sem que o vendedor descesse o valor de custo, alguns campónios preferiam comprar umas botas mais avantajadas.
Conta-se que, numa segunda-feira seguinte ao mercado mensal de Manique, um camponês, quando caminhava rumo ao local de trabalho, tropeçou meia dúzia de vezes. Tendo sido inquirido por um colega sobre a razão de ter comprado umas botas tão grandes, respondeu: – «como o sapateiro não quis diminuir o preço das botas mais pequenas, comprei as maiores para não ficar tão prejudicado».
NOTA FINAL: O texto desta crónica foi escrito a pedido de um amigo (Dr. João Maurício, professor de história na Universidade Sénior de Rio Maior, que queria publicar um livro sobre os Sapateiros da Benedita, de onde é natural, o qual foi publicado em fevereiro de 2016. O dito texto está inserido na página 135 do citado livro.



















