O António Jorge Lopes e a falta daquilo

Quando o Jorge diz que não vai ser candidato à Câmara de Azambuja em 2017, então é porque o Jorge vai ser candidato à Câmara de Azambuja em 2017. Mas nem pode ser de outra forma (Opinião de Nuno Cláudio)

Sem o Jorge a política em Azambuja não tinha sal, pimenta ou piada alguma...

Conheço o Jorge há anos esquecidos, desde os tempos de escola. Já nessa altura vivia a política de uma forma muito especial – o Jorge, bem entendido. Candidatava-se à liderança da Associação de Estudantes, andava obcecado com as eleições, com a formação das listas, com o programa de actividades. Entrava no refeitório, saltava para cima das mesas onde almoçávamos e ali mesmo fazia campanha, de peito cheio, punho esticado e dedo em riste. Era o prenúncio de um político cheio de garra, mas ao mesmo tempo também já dava sinais de algum excesso de… de tudo um pouco. Muitas manobras de bastidores, muito afã politiqueiro para lá da fronteira do aceitável. A melhor forma que sempre encontrei para definir o Jorge foi esta: ele faz o necessário para vencer, mas depois esmera-se para ser derrotado. Já não me recordo se alguma vez venceu as eleições para a associação da secundária, mas também não me recordo de alguma vez ter ganho o que quer que fosse na política.
boaviagem_telha2016 Tenho a convicção – certeza absoluta – de que o Jorge é um tipo excepcionalmente inteligente. Tivemos os nossos arrufos, eu tive as minhas razões e ele provou na pele o quanto um escorpião ferido e enganado pode ser terrível de digerir. Ambos pagámos o nosso preço, mas esses tempos pertencem ao passado. A nossa relação mantém-se numa base de admiração e respeito (presumo que) mútuos, mas sempre com um pé devidamente colocado à retaguarda, como precaução. Mas trata-se, no meu caso, de uma precaução despreocupada, porque a idade e a falta de cabelo também nos oferece outras regalias no contexto da maturidade. O Jorge continua a ser uma pessoa agradável de conversar para quem vive a política – acho que ele não fala de mais nada; futebol, música, extraterrestres, vida para lá da morte, equilíbrio natural do planeta Terra, relação dos homens com os animais, raças de cães ou de gatos, mulheres… não, não me lembro de nada para lá da política. Se se tratar de futebol, só se for a equipa da Câmara. Música? A banda do PSD. Extraterrestres, os eleitos do PS, cães e gatos os do canil municipal. O Jorge é mesmo assim; vive, respira e deglute política. Tem 47 anos de idade, mas quase 60 de política, porque tem feito horas extras.
Portanto, quando o Jorge diz que não vai ser candidato à Câmara de Azambuja em 2017, então é porque o Jorge vai ser candidato à Câmara de Azambuja em 2017. Mas nem pode ser de outra forma. O PS de Lúcio e de Sousa anda de rastos e pela primeira vez desde 1985 está claramente na iminência de perder a autarquia, mais até do que em 1997, quando então Benavente estava no auge do seu desgaste político aos olhos dos eleitores de Azambuja. Neste cenário, o Jorge sabe que dificilmente haverá outra oportunidade tão flagrante para chegar à cadeira. Deixa-la para quem? Podem apresentar-me a maior das listas, que eu garanto: na hora certa aparece com o argumento de que não queria, mas foi empurrado, “forçado”, induzido a, aclamado e por aí fora. O resultado acabará por ser idêntico ao de outras ocasiões recentes, porque o Jorge, sendo de facto inteligente, nunca perceberá (ou percebe, mas não quer saber do assunto) que lhe falta algo imprescindível para arrebatar os votos necessários para ser presidente de uma câmara: falta-lhe aquilo. E “aquilo” não é nem capacidade, nem inteligência. É “aquilo”. Que uns têm, e outros não, porque é inato. O povo percebe quem não tem “aquilo”, da mesma forma que os animais pressentem as tempestades mesmo antes dos meteorologistas anunciarem avisos laranja. É uma espécie de dom de sobrevivência.

VIANuno Cláudio
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