
Aqui há dias Silvino Lúcio (uma vez mais) conseguiu surpreender-me e deixar-me por momentos sem resposta na ponta da língua. O vice-presidente da Câmara de Azambuja dirigiu-se à minha pessoa com o intuito de me cumprimentar – o que faz invariavelmente de forma educada e cordata – mas aproveitou a oportunidade para se sair com esta: “eh pá, eu noutra encarnação devo ter-lhe feito muito mal, pois você não pára de embirrar comigo”. Bom, fiquei sem resposta, como já disse, sobretudo por ter sido totalmente surpreendido com o facto de Silvino acreditar nessas coisas da alma reencarnar para voltar a viver outras vidas. Sempre considerei Silvino um homem terra-a-terra e não o via com perfil para crer nesses assuntos do além, até porque normalmente as pessoas que acreditam um dia voltar a viver fazem tudo nesta vida para que depois não tenham que pagar a factura em formato de castigo divino. Nesse particular, eu diria que todos os habitantes do concelho de Azambuja que vivem sob a governação de Silvino deverão ter sido, noutras encarnações, uns diabólicos de uns pestinhas. Só assim se justifica o castigo extremo de terem de ser governados pelo amigo Lúcio.
Eu quero deixar claro, e com toda a minha total sinceridade, que considero Silvino Lúcio um tipo porreiro, simpático e até educado quando assim o pretende ser. Reage com algum azedume excessivo à oposição política mais veemente mas tem capacidade de encaixe suficiente para minutos mais tarde manter um ambiente suportável com aqueles que lhe apertaram os calos. É excessivamente impetuoso na defesa das suas posições políticas e é com facilidade que esbarra para uma postura corriqueira, típica das dicussões de taberna na aldeia. Jamais esquecerei aquele episódio na Casa do Povo de Aveiras de Baixo, em meados dos anos noventa. Silvino Lúcio era presidente da junta de freguesia local e a população estava reunida para debater a localização da futura ETAR – Estação de Tratamento de Águas Residuais, em terrenos localizados a sul da sede de freguesia. Silvino Lúcio, totalmente apostado em semear a desordem e o caos naquele forúm, apareceu meio embriagado e desatou a desconversar desaustinadamente, atropelando qualquer um que pretendesse usar da palavra. Foi uma vergonha. E para mim foi um choque tremendo, uma vez que estava habituado a ver num presidente de junta uma figura respeitável e respeitadora. Lembro-me perfeitamente de me ter passado pela cabeça que uma pessoa com esta impreparação não poderia ambicionar ir mais além no espectro político local, porque para qualquer freguesia ou mesmo município seria mau de mais para ser verdade ter nos seus quadros de eleitos um Silvino Lúcio.
Bom, depois veio Joaquim Ramos e trocou-me as voltas. Promoveu Silvino Lúcio à categoria de vereador, categoria antecedida do cargo de mandatário/director de campanha para as autárquicas de 2001. Pensei cá para com os meus botões: “isto vai de mal a pior, bateu no fundo”. A verdade é que Lúcio já era o presidente da Comissão Política Concelhia do PS e Ramos viu-se obrigado a ter de gramar com ele – assim como sucedeu com José Manuel Pratas Pratas, outro sacrifício tremendo para “Quitó”, que trazia de Lisboa uma pedalada de outros campeonatos. E Silvino lá foi fazendo um esforço para refriar os ímpetos e ficar um pouco mais próximo dos níveis exibicionais do seu chefe de equipa, alimentando ao mesmo tempo a ambição de um dia vir a suceder a Ramos como presidente da Câmara de Azambuja. O problema foi que o anterior líder do executivo trocou-lhe as voltas e empurrou Luís de Sousa para o cargo, momentos antes da sua saúde cair em desgraça. Silvino espumou de raiva, mas fez um esforço tremendo para se agarrar aos aspectos positivos da anunciada nova ordem.
Em Agosto de 2013 estava o Aveiras de Cima Sport Clube a fazer obras de melhoramento do seu campo. As obras em questão foram unica e exclusivamente projectadas, promovidas e realizadas pelos directores de então do clube. Qual não é o nosso espanto quando um dia aparece do nada um outdoor manhoso, colocado de forma bem visível por cima do portão sul do campo, anunciando que as obras em questão eram da responsabilidade da Câmara de Azambuja – claramente um cartaz de propaganda eleitoral. Recordo que estávamos em ano de eleições autárquicas, que haveriam de se realizar daí a dois meses. Peguei no telefone e imediatamente falei com Luís de Sousa, que deverá ter corado de vergonha. Solicitou-me o favor de retirar de imediato a placa, solicitação acompanhada de um nas entrelinhas perceptível pedido de desculpas. Este é apenas um de muitos exemplos. Isto é Silvino Lúcio. E é por estas – e por muitas outras – que jamais poderá vir a ser presidente de uma câmara, seja ela qual for.

















