

Permitam-me que inicie este primeiro artigo com uma manifesta satisfação pública, por ter tido o privilégio de ter sido convidado para redigir alguns artigos de opinião no Fundamental. Este é um primeiro, certamente que outros se seguirão, haja interesse da Direcção e percepção de valor acrescentado que os mesmos possam levar até aos leitores.
Há limitações naturais no espaço concedido à redacção dos mesmos, o que leva a que invariavelmente para qualquer comentador (articulista) os referidos exercícios de opinião tendão a ser o mais sucintos possível dentro dos princípios de construção de um comentário, que será sempre subjectivo e como tal sujeito a opiniões diferentes.
Deixei de residir em Azambuja em 2001. Por força das opções profissionais que tomei, que já me levaram a trabalhar no Porto, em Moçambique e em Oeiras onde resido desde então.
Mas mesmo à distância acompanho com regularidade as notícias de uma terra que considero também minha, à qual estive ligado durante toda a minha infância e adolescência e parte da ainda idade adulta. Mas também é esta distância e contínua atenção que talvez me permite expressar de forma quiçá diferente – não diria mais objectiva – sobre Azambuja.
Tal como eu, nos anos de 2001 a 2003 em particular, vários jovens da minha geração optaram – por escolha ou por força das circunstâncias – por abraçar outros desafios profissionais que a, bem da verdade e ainda hoje, Azambuja com o tecido empresarial que tem infelizmente não proporciona.
Bem sei, e o constato aliás, que houve uma clara evolução na última década principalmente com a implantação quase plena do parque industrial de Azambuja, excepção feita a um trabalho não continuado por exemplo em Aveiras de Cima, que não possui certamente mais do que meia dúzia de empresas que realmente são geradoras de emprego e consequente riqueza para o Concelho e para o País.
E o parque industrial de Azambuja acaba por reflectir – e aqui sim, sou bastante crítico – as opções de empregabilidade que são dadas aos jovens do Concelho pelas características da maioria das empresas aí estabelecidas.
Sector dos serviços logísticos – quase em exclusivo, diria – certamente com médios e elevados níveis de exigência de mão-de-obra, mas sobretudo para trabalhos com remuneração inferior e habilitações técnicas não muito exigentes. Com toda a certeza com excepções, como aliás acontece em todas as empresas, estas sem dúvida alguma não constituem per si a necessidade de um know-how (conhecimento) técnico elevado. Criámos pois um “cluster” económico exclusivo para os grandes armazéns de logística, não tendo inclusive acautelado na plenitude as consequências que isso teria nomeadamente e também no próprio tráfego rodoviário que circula na EN3.
À “distância”, é esta a percepção que muitos da minha geração têm, mesmo aqueles que ainda residem em Azambuja mas que trabalham fora desta. E não menos importante, talvez sintomático até dos níveis estatísticos de insucesso escolar, publicamente conhecidos, o Concelho ainda não se libertou de uma média negativa no espaço da Área Metropolitana de Lisboa.
Dirão com certeza alguns que não haviam outras opções e que estas no final criaram pelo menos mais postos de trabalho. É uma verdade incontornável, tal como são também os níveis técnicos, de conhecimento e de remuneração que são requeridos e oferecidos a essa mesma necessidade.
Não sendo totalmente negativo, há com certeza também exemplos contrários mas que apenas confirmam a excepção à regra.
Das opções político-económicas – novamente à distância e aqui talvez seja mais incisivo na análise – passaria para um breve e necessariamente inicial comentário sobre a política em si.
Como poderei colocar da forma mais educada e elevada possível, evitando as aguerridas e provocatórias discussões nas redes sociais, um primeiro comentário sobre este tópico?
Permitam-me que seja directo: por aquilo que leio, escuto, vejo, Azambuja tornou-se um verdadeiro arraial de quezílias pessoais, de intrigas políticas e, o que nos afecta mais, por uma evidente falta de capacidade de gestão e conhecimento adequados para gerir os destinos do Concelho.
Vive-se num ambiente quase arruaceiro, com evidentes faltas de princípios de educação e que, quer queiramos quer não, se reflectem também na forma como se gere uma empresa, uma instituição, uma autarquia. O caracter é o que nos define enquanto indivíduos; os percursos profissionais permitem-nos evoluir e melhorar de forma contínua.
Costumo afirmar que quase tudo se resume a uma “questão de berço”. Naturalmente que as pessoas evoluem, adaptam-se e se tiverem esse espírito melhoram naquilo que identificam serem as suas lacunas e falhas recorrentes. Não vejo nada disso!
Celebram-se publicamente coisas menores, sem grande impacto socioecónomico, gere-se de uma forma dúbia e muitas vezes até incoerente e promove-se e idolatra-se para gaudio dos seguidores mais acérrimos as tais quezílias e brigas absolutamente infantis e desprovidas de qualquer sentido.
O problema para mim é simples na justificação da relação causa-efeito. Azambuja, hoje mais do nunca, é gerida por indivíduos que fizeram da politica, e não da causa pública, o seu percurso e objectivo de vida.
Há os que são visíveis; há outros que se vão mantendo mais ou menos na sombra, por forma a se protegerem para o futuro, mas que participam activamente na vida politica.
As exigências, tal como as capacidades técnicas e intelectuais que são necessárias à abordagem das mesmas, são quase inexistentes. A interpretação desta menoridade intelectual não se detém em quaisquer percursos académicos; antes, sim, nas várias demonstrações de carácter e sobretudo nos percursos profissionais de sucesso, que transversalmente são, diria, quase incipientes senão inexistentes. Arriscaria dizer que Azambuja vive numa espécie de gestão diária, quase de mercearia à antiga, continuando a promover infelizmente uma das características menos boas da cultura nacional, como o são o compadrio, o pagamento de “favores”, o arregimentar de tropas fiéis à causa própria, que de todo é aquilo que deveria presidir a quem exerce funções que, antes de politicas, são publicas, são do Estado e como tal devem, por defeito, aos cidadãos o seu salário.
Exemplos não faltam e mais importante e negativo que isso, é que se tornaram recorrentes.
Azambuja – na gestão autárquica – precisa de se libertar e depressa destes episódios, dos seus interlocutores e enveredar por um caminho diferente. E não há inocentes. Tanto os executores como os opositores (políticos, entenda-se!), parecem ter todos um mesmo objectivo de vida e, na sua esmagadora maioria, nada mais fizeram até hoje do que apenas e tão só a chamada “politica” como forma de vida ou como forma de sobrevivência. Outros há que a espasmos lá vão exercendo “cargos” em agremiações várias, não por qualquer interesse maior que os mova mas sim uma exposição contínua ao seu potencial eleitoral e garantia de essa presença será sempre publicitada por este ou aquele meio de comunicação.
Haverá vontade – não destes cujos objectivos e desejos são sobejamente conhecidos – de alguém tomar as rédeas e assumir um novo caminho, com todas as consequências que isso possa trazer ou é preferível mantermo-nos assim?


















