
Hoje, por todos os motivos, quero falar-vos de crianças e partilhar convosco o que sinto em relação à problemática das crianças e dos abusos, da violência contra os mais frágeis, os mais desprotegidos.
Por questões profissionais todos os dias trabalho com crianças e com as suas famílias. Durante quase dez anos colaborei com a Comissão de Protecção de Crianças Jovens do nosso Concelho de Azambuja (CPCJ). Fui presidente desta importante Comissão durante quatro anos.
O trabalho da CPCJ é duro, é desgastante, é doloroso. Pouco reconhecido mas verdadeiramente essencial. A relação da CPCJ com a comunidade começa em cada um de nós enquanto pessoas, enquanto pais e mães, enquanto educadores, enquanto cuidadores, enquanto protectores. Temos o dever de alertar para situações de negligência, de maus tratos, de abuso sexual, de violência em geral. São situações que por vezes conhecemos e não denunciamos, situações que desvalorizamos sem perceber a verdadeira dimensão das suas consequências. São situações que, assim, permanecem no silêncio das vítimas inocentes.
Estas situações são originadas por adultos mal resolvidos, que não conseguem comandar as suas vidas e que descarregam suas fúrias e suas frustrações nos que não lhes fazem frente e que, muitas vezes por amor e por desconhecimento de outra realidade lhes legitimam e perdoam a acção. Este abuso de poder, este distorcer do bem e do mal, do que é certo e do que é errado, provoca nestas vítimas danos irreparáveis. Ser vítima de violência por parte dos que deveriam ser os nossos maiores protectores, é algo atroz. Ser batido, abusado, maltratado em vez de protegido e acarinhado é indescritível! São crianças frágeis e inocentes que têm que ser protegidas para evitar o pior e que em última instância aconteçam fatalidades como as que temos visto e ouvido tão frequentemente nos meios de comunicação social.
“Um em cada cinco” é o nome da campanha desenvolvida pelo Conselho da Europa para o combate à violência sexual contra crianças. Os dados disponíveis sugerem que cerca de uma em cada cinco crianças na Europa são vítimas de alguma forma de violência sexual, e em 70 a 85% dos casos o abusador é alguém que a criança conhece e confia.
Em Portugal começamos a trabalhar para que quem comete crimes contra crianças seja punido exemplarmente, e isso está expresso na proposta de lei que irá até ao fim do ano à Assembleia da República, no sentido de agravar as penas impostas aos autores de crimes contra a liberdade sexual de menores (pedofilia) e com a proposta de criação de um registo de identificação dos condenados por crimes de pedofilia.
A nível local, daquilo que podemos fazer na nossa terra, parece-me que o caminho é o da prevenção e da denúncia, e aqui saliento o papel fundamental da comunidade médica, dos serviços de educação, das instituições, das colectividades, e de todos os que no dia a dia interagem com crianças e com famílias, para que em conjunto, e em dever de colaboração com a CPCJ, encontrem caminhos, projectos adequados ao nosso concelho e à especificidade das freguesias, com o objectivo maior do superior interesse da criança e do seu bem estar!
Porque a voz dos inocentes não pode estar silenciada.



















