
Confesso que me sinto arrepiado de cada vez que vejo na televisão manifestações dos chamados “lesados do papel comercial”, uma expressão simpática e eufemista para descrever um cenário de roubo ao mais alto nível, com a colaboração e complacência do Estado Português e perante a apatia na União Europeia. Diz-se amiúde que os bancos são o sustentáculo da economia, e que funcionam sobretudo a partir de uma chamada base de confiança do depositante na instituição. A partir deste pressuposto, eu não concebo outro cenário que não o de que qualquer “produto” que seja vendido ao balcão de um banco tenha forçosa e necessariamente que ser um “produto” assegurado. “Produtos” de risco são vendidos em vãos de escada, na Feira da Ladra ou nas esquinas mal iluminadas dos bairros problemáticos das grandes cidades, e não aos balcões de instituições bancárias devidamente legalizadas, fiscalizadas por um banco central e tidas como a base de uma economia de mercado. Qualquer forma de aplicação de dinheiro dos depositantes de um banco a operar com a devida autorização do Estado Português deveria ser uma aplicação que pelo menos assegurasse o retorno do capital investido. É como se agora, de repente, as farmácias passassem a vender frascos de veneno. O farmacêutico impingia ao cliente o frasquinho milagroso, alegando como argumentaria de marketing que a ingestão do mesmo poderia significar a eterna fonte de juventude. O desafortunado cliente bebia o conteúdo do frasco e afinal aquilo mais não era que o famoso 605 Forte, muito utilizado nas zonas rurais por quem pretendia colocar um ponto final à vida. O desgraçado cliente caía redondo no chão. E o Estado Português, o que faria num cenário destes? Naturalmente que as autoridades policiais prendiam de imediato o farmacêutico, e encerravam a farmácia. E muito provavelmente teriam de indemnizar a família do falecido. Caso assim não fosse, as pessoas perderiam totalmente a confiança nas farmácias.
Peguei neste exemplo como base de explicação do meu ponto de vista em relação aos bancos. Os clientes das instituições bancárias não podem estar sujeitos a “produtos de risco” vendidos ao balcão dos bancos nos quais confiam há décadas. Para mais quando sabemos que na maior parte dos casos a relação de confiança que se estabeleceu entre os chamados gestores de conta e a clientelagem depositante era de tal forma próxima que em muitos casos bastou um simples telefonema para que as poupanças de uma vida voassem para os tais apelidados de papeis comerciais. Estou convencido que apenas escaparam mesmo aqueles que não tinham dinheiro depositado nesse banco de gente manhosa, pois a esmagadora maioria daqueles que lá eram depositantes caíram que nem patinhos. Afinal, sempre é uma sorte ser pobre. Os gestores de conta – na verdade funcionários bancários com alguma responsabilidade acrescida nas agências, agora pomposamente apelidados desta forma – na esmagadora maioria dos casos foram também eles vítimas da louca ganância da sua entidade patronal; a maior parte dos mesmos passa actualmente um mau bocado porque foi o rosto visível desta roubalheira em grande estílo. Actuaram de boa fé, convencidos de que um Banco com uma história de século e meio como a dos Espírito Santo, garantido pelo mais alto representante da República e com um presidente que privava de forma íntima com o poder político, jamais iria vender gato por lebre aos seus clientes. Hoje constituem uma das partes odiosas da questão, a ponto de já terem sido perseguidos por clientes lesados de caçadeira em riste.
No contexto desta inqualificável situação, vejo e oiço horas intermináveis de discussão em torno da ideia de que não será fácil determinar se os clientes tinham, ou não, consciência de que estavam a comprar produtos de risco. Ora, é precisamente aqui que reside, quanto a mim, o cerne da questão. Esta discussão nem deveria sequer ter hipótese de ser colocada em prática, porque ao balcão de um banco jamais deveria ser permitido vender o que quer que fosse que não tivesse total garantia de ausência de risco por parte da instituição. É necessário ter em conta que uma boa parte dos clientes de bancos são pessoas humildes, muitas vezes que mal sabem ler ou escrever, que trabalharam toda uma vida e que têm mais que fazer do que andar a ver telejornais e programas de economia para saberem, ou intuírem, o que é de risco e o que se apresenta como produto seguro. São pessoas que confiam (confiavam) cegamente no seu banco, nos homens e mulheres que sempre deram a cara pela instituição à qual confiavam o seu dinheiro. Essa base de confiança, aliada ao pouco esclarecimento e ao parco conhecimento de causa, levou a que as pessoas acreditassem sem reservas naquilo que lhes estavam a propôr. Afinal, foi essa tal confiança que sempre alimentou a existência das instituições bancárias, as tais que se arrogam como o garante de uma sociedade sustentada na economia de mercado. Mas foi precisamente essa confiança que traiu milhares e milhares de pessoas, que viram todo o seu dinheiro positivamente roubado, a coberto de uma desculpa esfarrapada de que os produtos vendidos aos balcões das instituições bancárias não eram, pasme-se, garantidos! Chegamos, desta forma, à triste conclusão de que estamos, nós, o povo, rodeados de ladroagem do mais alto calibre, que a coberto da legislação que os próprios produzem perpetuam as mais infames falcatruas, com a complacência do poder político, que vergonhosamente se esconde por detrás de um silêncio enervante perante situações como as que vamos vendo de pessoas de idade, cujo dinheiro de uma vida foi roubado por estes miseráveis, e que hoje se arrastam na sopa dos pobres por não terem sequer capacidade para garantir a alimentação diária, quando naquele antro de roubalheira têm depositado dinheiro que lhes asseguraria um final de existência digno, com a qualidade que merecem. Muita paciência tem tido esta gente, e é de estranhar que atitudes mais radicais ainda não tenham sido tomadas. Fosse uma roubalheira destas perpetrada na Espanha, ou na Grécia, e aí já fiava mais fino…

















