

Joaquim Ramos chegou à presidência da Câmara de Azambuja em inicios de 2002, depois de ter vencido as autárquicas de Dezembro de 2001, numa altura em que as eleições para as Câmaras ainda tinham lugar no mês de Natal. A chegada deste presidente foi positiva na perspectiva dos interesses do município de Azambuja, que vinha de um período difícil após os mandatos de João Benavente, curiosamente com o próprio Ramos a servir de amparo às muitas asneiras do anterior líder do executivo camarário, já que tinha sido ele próprio o presidente da Assembleia Municipal desde 1993. Quando chegou a presidente de Câmara, Ramos impôs alguma frescura de hábitos, de estratégias e de conceitos de gestão municipal. Nos primeiros tempos foi um encanto e até a oposição, de forma mais ou menos unânime, decidiu aceitar que o homem estava a, como se costuma dizer, dar a volta à Câmara. Que era como quem queria dizer, a enterrar aos poucos os muitos esqueletos deixados por Benavente em vários armários. Mas depois veio o deslumbre das obras e mais obras. Manuela Ferreira Leite visionou uma crise a aproximar-se e logo foi apelidada de tudo quanto era nome feio, sobretudo quando resolveu criar legislação que fechasse a torneira a presidentes de Câmara desgovernados e megalómanos, especialistas em fazer obra para ser paga ao longo de décadas, em alguns casos por munícipes que ainda nem tão pouco nasceram. Espertos e ardilosos, ao bom estilo do tuga que inventa a fechadura de cofre mais seguro e em simultâneo vende a fórmula de o arrombar ao bandido, logo trataram de criar as chamadas empresas municipais. Em Azambuja surgiu a EMIA – Empresa Municipal de Infraestruturas de Azambuja – que abriu caminho ao presidente Joaquim Ramos para continuar a endividar o município, a pretexto de fazer obras. Mais grave ainda, para continuar a endividar o município sem ter que dar cavaco a quase ninguém, sem passar pelo escurtínio da Câmara e da própria Assembleia Municipal. Nas reuniões internas do executivo maioritário, Ramos não podia ser contrariado; mal havia quem o questionasse acerca da oportunidade – ou falta da mesma – de um investimento, o ex-presidente, qual menino mimado e birrento habituado a não ser contrariado, agarrava nos papeis, enfiava-os numa gaveta e anunciava com estrondo que a reunião tinha acabado. Ou seja, era mesmo tudo como ele queria, só como ele queria, e ai de alguém que ousasse contrariar Joaquim Ramos, esperto, inteligente, mais capacitado que os restantes, homem de outras vistas, com outros andamentos. Luís de Sousa, Silvino Lúcio, José Manuel Pratas e companhia baixavam a cabeça. Se argumentassem, lá iam os papeis para uma gaveta ou para uma qualquer pasta que era um instante, tal como era num instante que acabavam as reuniões ou as discussões. Tinha que ser tudo feito e decidido de acordo com o que Joaquim Ramos queria, e mais nada, ou o homem fazia birra. Sem oposição interna que se atrevesse a contraria-lo e com a EMIA para decidir fugindo ao crivo dos eleitos municipais, Ramos estava como sempre desejou estar: dono da verdade absoluta, senhor da omnisapiência, o verdadeiro visionário do que era bom para o concelho de Azambuja, assim uma espécie de ser superior que vinha proporcionar aos pacóvios cá da terra um salto de patamar na sua qualidade de vida. Luís de Sousa encostava-se a Ramos; convinha-lhe esta parceria, a figura de vice-presidente, um bom ordenado garantido e dois bons empregos para as filhas. Silvino Lúcio era outro a quem convinha a muleta de Ramos: um emprego a tempo inteiro com bom ordenado para quem tinha tido, digamos, algumas dificuldades na vida antes de chegar à Câmara não era cenário de se desperdiçar, muito menos desperdiça-lo a contrariar Ramos, ainda que também ele, a exemplo de Sousa, vislumbrasse alguma tendência suicída na estratégia “visionária” do presidente. A verdade é que hoje estão ambos a braços com as muitas dificuldades herdadas dos dois mandatos anteriores, nos quais também participaram e têm responsabilidades, ainda que saibamos que foi Ramos quem decidiu tudo e quem fez tudo à sua maneira. Diz António Jorge Lopes que nunca terá visto uma pistola ou metralhadora G3 apontada à cabeça dos vereadores na hora das votações que desgraçaram as finanças da Câmara, mas era como se as mesmas lá estivessem encostadas. Era o voto a favor, ou então lá se iam a confiança política, o cargo de vereador, o ordenado, as regalias e até os empregos dos familiares mais chegados. E não há pressão que mais se compare a uma G3 encostada à cabeça do que termos que pagar a renda da casa ou pôr comida na mesa. Não no caso de Ramos, que sempre foi homem abastado, fruto dos seus diversos talentos. Os mesmos que conduziram aos esquemas e às engenharias que endividaram o município durante anos a fio, muito para lá dos mandatos governados pelo próprio Ramos, como se quem viesse a seguir não tivesse o direito e a capacidade de decidir que obras seriam as mais apropriadas para as populações; como se quem viesse a seguir estivesse condenado por obrigação e lógica a penar para pagar as muitas dívidas que Ramos contraiu, por considerar que ele, e só ele, saberia o que era bom para a actual e para as próximas gerações de habitantes do concelho de Azambuja.
Parvos, mas mesmo muito parvos, são aqueles que ainda se prestam a perder o cabelo e a saúde para resolver os problemas deixados por Ramos. Quem fica associado à obra e com o nome nas placas toponímicas é ele, o Ramos, mas quem anda a fazer o papel do odioso são os pobres de espírito que existem sempre e que alimentam estes autênticos ídolos com pés do melhor barro que há na região. Será que um ordenado, um carro de serviço e o… “prestígio” justificam tudo?
















