O maior pesadelo de Matos

Opinião de Nuno Cláudio

António José Matos afirma que a empresa Águas de Azambuja estão a cobrar uma taxa injustificada, e apela à devolução do dinheiro aos munícipes...

Está ao alcance da vista até de um quase invisual que António José Matos tem muitas probabilidades de vir a ser o próximo candidato do Partido Socialista de Azambuja às eleições autárquicas de 2017. O PS de Azambuja transformou-se num partido dependente da orientação e da supervisão de Joaquim Ramos desde finais da década de 90 do século anterior e, com a queda em desgraça do seu antigo líder – leia-se desgraça física, evidentemente – ficou como que orfão de voz de comando, para mais a escassos meses de eleições. Luís de Sousa é um homem que tem tanto de manifestações de boa vontade como de evidente incapacidade para quase tudo o que se relaciona com a acção de um presidente de uma câmara, de tal forma que mete dó só de constatar as diferenças abismais existentes entre a presidência protagonizada por si próprio e os tempos de Ramos. Mesmo assim, reconheço a Sousa uma qualidade que Ramos não tinha: é que Sousa não me parece ser capaz de mentir com a convicção de quem fala verdade como o fazia Ramos, como faz Lopes ou Silvino. Refiro-me, evidentemente, a mentiras de âmbito político e no contexto do ambiente politiqueiro tão comum de ser visto em Azambuja. Mentir com convicção não é “qualidade” ao alcance deste presidente de câmara, e esse é um factor bastante favorável ao autarca de Alcoentre, que ao menos é pobre em capacidades mas dorme de consciência tranquila – os outros também o fazem, mas é porque não têm vergonha alguma.
O actual mandato revela-nos um Partido Socialista sem liderança, longe dos tempos de um Ramos omnipresente que dominava tudo quanto era assunto inerente à municipalidade. As capacidades argumentativas do “Jaquim” incutiam na equipa que o rodeava uma confiança cega; as pessoas sentiam que ali estava um comandante, um timoneiro, o homem que mandava e que tinha que ser respeitado pelas suas competências para orientar. Com Luís de Sousa perdeu-se tal característica de liderança, e a esmagadora maioria da equipa sente o impulso de colocar a dúvida, de questionar o projecto e de vacilar perante a voz de comando pouco assertiva. António José Matos, entretanto eleito presidente da Assembleia Municipal, tem sido a muleta visível de Sousa, defendendo com unhas e dentes o presidente, e ousando dizer aquilo que mais ninguém tem coragem de afirmar: que o Luís é o homem certo para este momento em que a câmara vive e que o Luís está a fazer um excelente trabalho. Convém recordar que Matos esteve ligado desde os tempos de juventude ao Partido Social Democrata de Azambuja. Pelo PSD foi candidato à liderança da freguesia de Azambuja, tendo obtido o melhor resultado de sempre do partido numa eleição para a autarquia local. Foi igualmente candidato à presidencia da Câmara de Azambuja pelos social democratas em 2005, tendo sido vereador no mandato realizado até 2009. Ou seja, Matos tinha (ainda terá?) a sua imagem inequivocamente ligada à sigla do Partido Social Democrata, e este é um facto irrefutável. Mas há outro facto indesmentível: é que António José Matos e António Jorge Lopes não combinam nem à lei da bala mais rápida do oeste selvagem. Dizem as más linguas que Lopes terá feito tantas e tantas, mas tantas a Matos, que o antigo pasteleiro e agora empresário de sucesso do ramo do ensino da condução automóvel tem o nome “Lopes” como sinónimo de absoluta e incontornável tormenta. Matos colocou, em 2009, um ponto final na sua militância activa no PSD de Azambuja, e passou desde então quatro anos a “descansar” da política, observando de perto o fenómeno Azambuja-Ramos-Lopes e afins. Luís de Sousa, percebendo que o fim político de Ramos deixaria o Partido Socialista sem uma referência válida perante a população, endereçou o convite a Matos para que este fosse o candidato do PS à presidência da Assembleia Municipal. O autarca de Alcoentre estaria a contar com o facto de Matos já ter provado ser capaz de conquistar votos, prova dada sobretudo aquando da eleição para a liderança da freguesia de Azambuja, em 1997. O risco estaria no facto da oposição poder vir a explorar uma certa imagem de vira-casaquismo, mas Sousa e o PS resolveram correr o risco.
Por seu turno, Matos viu nesta uma oportunidade flagrante de entrar no grupo dos vencedores, perdoem-me a expressão. É que no concelho de Azambuja nem a CDU liderada pelo excelente e muito capacitado António José Rodrigues em tempo de desgaste absoluto de João Benavente (1997) logrou obter uma vitória que acabou invariavelmente por sorrir ao Partido Socialista, quanto mais o PSD, ainda por cima de António Jorge Lopes. Para chegar a presidente de câmara em Azambuja o candidato terá que vestir inevitavelmente a camisola do PS local, não me pergunte o leitor a razão, que eu de coisas difíceis de compreender sei muito pouco. António José Matos percebeu que nunca lá chegaria pelo PSD, muito menos com Lopes por perto, e também percebeu que este convite de Luís de Sousa constituia uma oportunidade para satisfazer dois objectivos: ficar mais próximo de ser candidato pela equipa vencedora, e livrar-se de uma vez de António Jorge Lopes, cenário que valeria o prejuízo calculado de poder vir a ser apelidado de vira-casaca pelo facto de ter virado costas ao Partido Social Democrata. Matos arriscou, e averdade é que o tempo vai jogando a seu favor: transformou-se na face visível do apoio inequívoco a Luís de Sousa, que chega a defender de uma forma exuberante, qual coreano do norte a bajular o seu querido líder louco Kim não sei quantos, e vai ganhando pontos com uma apreciável capacidade de mediar consensos – tem ajudado a resolver um conjunto de questões relacionadas com algumas forças vivas do concelho, situações que não têm vindo a público, mas que têm conhecido resolução graças ao voluntarismo de Matos e à sua capacidade de mediar o diálogo, fazendo o papel que deveria ser protagonizado por uma equipa autárquica demasiado dormente e desconfiada para sequer demonstrar capacidade para ouvir e compreender o que se passa à sua volta. Com Matos a ganhar muitos pontos em relação à consideração que Sousa nutre por sí, resta saber qual vai ser o peso do actual presidente no processo de escolha do futuro candidato socialista a ser apresentado a votos em 2017. Restam poucas dúvidas de que está tudo muito bem encaminhado para que Matos se disponibilize de forma, digamos, natural, e para que Luís de Sousa, também de forma natural, conceda o seu apoio ao homem que, afinal de contas, tem estado incondicionalmente do seu lado. Restará apenas “dobrar” Silvino Lúcio, convencendo o histórico de Aveiras de Baixo de que esta coisa de ser presidente de uma câmara talvez seja areia em demasia… para o seu jeep Mercedes, o tal que tem uma excelente capota e que não mete águas… água. Depois é concorrer, que a vitória é certa e garantida. Lopes terá um desgosto de morte. Mas será nesse dia que começará o maior pesadelo… de António José Matos.

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VIANuno Cláudio
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