Um olhar sobre a Grécia

Opinião de António Franco

António Franco atira-se a Mariana Mortágua como gato a bofe...

Agora que o folclore à volta da vitória do Syriza parece ter acabado, é altura de expressar a minha modesta opinião sobre um movimento de histeria colectiva que se apoderou da esquerda Portuguesa. O Syrisa ganhou… E ao ganhar trouxe à esquerda portuguesa uma espécie de esquizofrenia. Do PS ao BE passando pelo PCP, todos os lideres à esquerda falaram de Tsipras (na foto) como se o homem fosse um messias. O mesmo que tinham sentido em relação a Hollande. O Bloco de Esquerda então falou de uma forma que eu, por momentos, achei que Marisa Matias e os seus acólitos pensavam que Portugal era uma província Grega. Com efeito, a eurodeputada disse que Portugal estava nas mesmas condições que os Gregos, e que tínhamos todo o interesse em juntarmo-nos a eles na cruzada anti-Berlim…
Nada mais errado. Portugal não está felizmente nas mesmas condições dos Gregos. Vejamos: Portugal e Grécia foram resgatados em 2011. Portugal teve um resgate; a Grécia teve 2 e está em estudo um programa cautelar. Portugal tem 13 por cento de desemprego, e a Grécia tem 27 por cento. A divida pública de Portugal é de 131 por cento do PIB, e a da Grécia é de 178 por cento. O problema da Grécia é de ordem cultural: foram governados por irresponsáveis, que os convenceram que podiam viver a vida toda à custa do estado. A Grécia foi um país de funcionários públicos que se reformavam aos 45 anos. Uma cabeleireira na Grécia reformava-se aos 40 anos, pois a sua profissão era considerada de desgaste rápido. 60 por cento dos Gregos não pagava impostos, e achava isso natural. Em 2009, 40 por cento dos hotéis e restaurantes de Atenas não tinham caixa registadora.
O syriza veio apregoar alto e bom som: “A austeridade acabou”. Depois acordou para a realidade. Tsipras e o seu ministro das finanças rapidamente deram o dito por não dito. A Banca grega, diabolizada durante a campanha por Tsipras, é hoje objecto de protecção, com o primeiro ministro grego a pedir “pelo amor de Deus” ao BCE para continuar a financiar os bancos. O salário mínimo aumentou num dia e desceu no outro, quando as poucas empresas que restam na Grécia avisaram o “enfant terrible” de que faliriam rapidamente. O azougado ministro das finanças no seu visual “casual chic” ameaçou o governo Alemão durante a campanha. Agora Berlim tem um adversário à altura. Amanhã vai a Berlim com o braço ao pescoço implorar a Schauble que empreste a Atenas 1900 milhões de Euros no imediato sob pena do país entrar em bancarrota. Afirmou ontem que as conversações com o FMI estavam a decorrer muito bem. Hoje o FMI veio dizer que não teve qualquer conversação com o governo Grego. Tudo gente séria…
Atenas propõe pagar a divida em função do crescimento da economia. Na prática, e como a economia grega não cresce há 40 anos, Atenas diz de uma forma dissimulada: não pagamos nada disto. Vejamos: acham que um banco me emprestaria dinheiro se eu dissesse que pagaria a divida quando a minha vida começasse a correr melhor? Não me parece. O povo Grego, na ansia de continuar a viver faustosamente à custa do estado, deu o poder a um grupo de azougados.
Mais um reparo: a esquerda Portuguesa sempre defendeu igualdade de género nos cargos de poder. No entanto, nem uma palavra sobre o facto de não existir uma única mulher no novo governo Grego. Que em desespero começa a dar sinais de um populismo demente, ao afirmar que vai vender os carros de luxo que os anteriores governantes tinham, como se isso fosse a panaceia para um país dominado pela corrupção e fugas ao fisco.
Hoje, Marisa Matias afirmava que Tsipras queria vir a Portugal. Acho que as únicas pessoas que o vão receber são os correligionários do Bloco e Mário Soares, que imediatamente após a vitória se referiu ao grego como “um grande amigo”. Eu na minha modesta opinião acho que os gregos constituem uma ameaça para a zona euro, e que se não cumprirem as suas obrigações deveriam pura e simplesmente sair dela…
Mas isto talvez seja por ainda não ter esquecido a derrota no Euro 2004. Boa Semana.

VIAAntónio Franco
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