Educação: um bêco sem saída

Opinião de Joaquim Ramos

Não, não contem comigo para comentar a prisão preventiva do Eng. Sócrates. Não quero saber se ele é culpado ou inocente. Não me interessa se a medida foi mal ou bem aplicada e estou-me nas tintas para que o juiz tenha ou não justificado as razões da sua decisão. Apenas uma coisa me interessa : que em todos estes passos que até agora foram dados e nos que se lhes seguirão, a Lei foi e será estritamente observada e justamente aplicada. Devo ser dos poucos portugueses que não tem uma relação afectiva com o EngºSócrates . Não o amo nem o odeio, sentimentos que ele desperta, reconheço, na generalidade das pessoas. Para mim sempre foi completamente indiferente, e nunca tive qualquer rebuço em afirmá-lo mesmo quando ele estava no auge do Poder, e quando muitos dos que hoje o pontapeiam e insultam, o bajulavam à espera da queda das migalhas. Considerei que ele foi um bom primeiro-ministro no seu primeiro mandato, pela análise objectiva que fiz do seu trabalho, das grandes iniciativas no campo das tecnologias, da investigação aplicada, das energias alternativas; mas uma pessoa insuportável de sobranceria e arrogância no trato pessoal (mesmo internamente, no Partido). Espero apenas que a Justiça lhe seja justa e não corra ao passo do cante alentejano! Mas detestei aquele espectáculo mediático da prisão à saída do avião, das correrias das televisões e outros “informadores” que já sabiam a hora e o local, das jornalistas de cócoras a espreitarem a garagem da PJ e corei de vergonha por viver num País onde a prisão dum homem se transforma num local de romaria domingueira que até obriga os cafés circundantes a alterarem o seu dia de descanso semanal. Pronto, já falei demasiado sobre aquilo que disse não querer falar.
Eu hoje gostaria de falar de algo muito mais importante : o beco sem saída a que chegou a Educação em Portugal, fruto de erros e omissões que se foram acumulando em décadas de prática abusiva dos conceitos de liberdade e de educação, por parte de governantes e governados.
Em primeiro lugar : a responsabilidade pela educação das nossas crianças são os respectivos Pais e ponto final. É no seio da família, e pela prática quotidiana, que se ensinam as regras da cidadania, as ” boas maneiras”, o respeito pelo próximo e pelo ambiente, a solidariedade, a responsabilidade e a tolerância. Depois, a Escola ensina História e Matemática e forma-os profissionalmente, as Igrejas, se fôr caso disso, incutem-lhes princípios religiosos, as colectividades e associações expandem-lhes as aptidões. Mas a responsabilidade é e será sempre da família.
Em segundo lugar : o Estado, na sua ânsia de controlar todos os aspectos da sociedade portuguesa, através dos sucessivos governos PS e PSD/CDS e também, convenhamos, das Autarquias Locais, foi-se apoderando paulatinamente desse papel nuclear da família , transferindo-o para a Escola. E a escola passou a ir buscar e levar os meninos, a dar-lhes almoço e lanche, a desenvolver todo um conjunto das chamadas actividades extra-curriculares, isto é, substituiu-se à família – só faltava dar-lhes banho e arranjarem um dormitório ao lado do ginásio! E as famílias alinharam, aplaudiram e até reivindicaram mais. Pudera, menos trabalho tinham. E não me venham com histórias : eu sei que muitos casais, muitos pais e mães solteiros ou divorciados “viravam as tripas” para se conseguirem governar e eram obrigados a subtrair esse tempo à tal convivência com os filhos que os torna verdadeiramente educadores. Mas também sei de muitos que preferem ir para os cafés, dar umas voltinhas à tarde, ir até ao Vasco da Gama aos saldos ou ao cinema, ao ginásio ou ao Pilates enquanto a criança permanece na escola ou nas suas extensões.
Em terceiro lugar : de repente, a crise, a falta de meios ou a doutrina ultraliberal vivida há quase quatro anos, fez todo este fenómeno reverter. A escola perdeu a capacidade que tinha vindo a ganhar de substituir (mal…) a família e tem recentrado o sua acção naquilo que é de facto a sua função primitiva : ensinar ciências e letras às crianças, incutindo-lhes agora um espírito de competição desenfreada à volta do Português, da Matemática, do Inglês e, um dia destes, do Mandarim. E a família não teve tempo nem circunstância ( nem vontade, desconfio…) para se reconverter novamente no espaço de ensino da cidadania, a sua missão perdida. São coisas que se destroem num instante mas que levam décadas a reconstruir. Aliás, o falhanço do Estado no sector da Educação é bem patenteado no facto de não ter havido nenhum Ministro da Educação que não tenha querido fazer uma reforma do ensino, alterando e baralhando todas as ( poucas ) regras que existiam até à sua chegada ao Governo.
Conclusão : temo que, com tudo isto, estejamos a forjar uma geração que fale e escreva mal e porcamente, porque a Escola se tornou num reduto de convulsões, que gere, nalguns casos pontuais, especialistas ultrassofisticados em áreas muito avançadas do conhecimento, mas que escarre para o chão, atire papéis pela janela do carro, abandone os seus cães e gatos, atropele os seus adversários e maltrate os seus velhos e incapacitados. Por isso eu acho que o que se tem feito no Sector da Educação é um atentado a uma Nação e ao seu futuro.

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VIAJoaquim Ramos
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