

Na crónica que escrevi e foi publicada no Fundamental, em outubro passado, glosei “O Auto da Barca do Inferno”, uma sátira de Gil Vicente, pai do teatro português, para comentar a tramoia montada por Ricardo Salgado, em que este e outros espírito santos, seus primos endiabrados, sacaram do BES/GES muitos milhões de euros. Tudo indica que o saque terá sido partilhado com amigos e com a conivência alguns anjinhos que têm desgovernado Portugal. Tal desiderato culminou na separação daquele grupo financeiro, tendo nascido o Banco Bom e Banco Mau.
Este mês, para continuar a sátira, inspirei-me em Luís Camões (Séc. XVI), o qual foi considerado uma das maiores figuras da literatura em língua portuguesa e um dos grandes poetas do Ocidente. Deixou-nos uma obra diversificada, desde o teatro cómico à poesia lírica e épica, sendo a sua obra mais conhecida, a epopeia Os Lusíadas, onde canta “as armas e os barões assinalados”. Pela sua atualidade, em termos de crítica social, transcrevo a esparsa da autoria do nosso grande poeta, intitulada “Desconcerto do mundo”:
“Os bons vi sempre passar / No mundo graves tormentos; / E, para mais me espantar, / Os maus vi sempre nadar / Em mar de contentamentos. / Cuidando alcançar assim / O bem tão mal ordenado, / Fui mau, mas fui castigado. / Assim que, só para mim / Anda o mundo concertado.”
Atentemos nos termos e expressões usadas pelo poeta: os bons sempre viu passar graves tormentos, ou seja grandes sacrifícios; mas, para espanto dele, os maus sempre viu nadar em mar de contentamentos (em grande alegria). Cuidando (pensando) alcançar o bem tão mal ordenado (o bem a favor de quem tanto mal faz), Camões foi mau (praticou atos reprovados pela nobreza e clero dominantes) e, em consequência, foi castigado (foi parar à cadeia) ao contrário dos outros maus que sempre nadaram em grande alegria. Concluiu então nos últimos 2 versos: Assim, só para ele, que praticou um ato de pouca gravidade, o mundo agiu concertado, castigou-o.
Note-se que o nosso poeta tinha observado uma boa parte do mundo pois, para além Portugal continental, conheceu a África, o Golfo Pérsico, Índia, etc. onde participou em batalhas lutando por Portugal e onde perdeu uma vista em combate.
Comparando as observações do poeta, feitas à quase cinco séculos, o que notamos de semelhante? Deixando para trás o Médio Oriente e a Europa (cujas apreciações ficarão para outra ocasião), em Portugal, nos últimos 20 anos, os maus (os donos disto tudo), capturam os nossos governantes, bem como uma grande parte dos deputados da AR, deixando-os a cantar Blá, Blá, Blá, “as armas e os burlões mascarados” que têm gamado muitos milhões do BPN, BPP, BES e da PT, continuando a nadar em mares de alegrias e em oceanos de riquezas. Em contrapartida, um desgraçado (um bom cidadão) que furte um pão, uma lata de salsichas ou de sardinhas, para matar a fome, é julgado e pode ir parar à prisão.
Como se tudo isto não bastasse, nas últimas semanas temos assistido também a outros escândalos de corrupção, alguns ainda em segredo de justiça e sem julgamento, cuja apreciação não faremos hoje. Para já, poderemos destacar a concessão dos Vistos Gold, cujos contornos já estão melhor definidos. Estes vistos foram uma ideia de P. Portas, para em vender passaportes e direitos de nacionalidade e residência a mafiosos de todo o mundo (em especial chinocas) que, em troca de lavagem de dinheiro, compraram centenas de vivendas de luxo no nosso país. Seria intenção de Portas trazer capital de investimento que geraria muitos postos de trabalho, mas apenas trouxe mais algum dinheiro para os bolsos dos figurões habituais; e, tal prática, apenas tem dado trabalho às polícias e aos tribunais, que ficaram com menos disponibilidade de afrontar os burlões.
Para cúmulo do desconcerto em Portugal, só falta ouvir o nosso PR continuar a cantar: Blá, Blá, Blá, enquanto espera a libertação definitiva dos suspeitos criminosos, preparando-se para condecorar Ali Babá e mais de 40 burlões ainda fora das grades! Por outro lado, vai procurando obter consensos entre alguns políticos que garantam a manutenção de legislação de malha fina, de modo a continuar a apanhar apenas peixe miúdo (os pilhas salsichas), para que os tubarões continuem a rebentar as ditas malhas tecidas por finíssimas e habilidosas mãos.
















