Olhem para a etiqueta

Opinião de António José Matos

Não sou economista nem tenho pretensões a tal, nem a dar lições nem conselhos a ninguém, mas há coisas que parecem ser tão óbvias…
Um País não pode ser dirigido por contabilistas. Esses tendem a ver apenas a frieza dos números. Num País existe uma “coisa”, provavelmente a mais importante: as pessoas.
De uma forma muito ligeira pode dizer-se que Pessoas mais Números é igual a Economia. O que era da economia sem o ser humano? Por isso sou tão contra a forma como o País tem sido governado; têm utilizado as pessoas para governar para os números, quando se devia utilizar os números para governar para as pessoas.
São as pessoas que investem, poupam, consomem, empregam, empreendem,… os governantes têm de perceber que para levantar a economia, para haver crescimento económico têm primeiro que perceber e compreender o ser humano e o que o motiva. Perceber o que motiva uma pessoa a tomar uma decisão económica, porque no seu cerne, a economia é a ciência da escolha.
Outro problema tem sido o facto de tentarem resolver a situação do País de forma dogmática, utilizando modelos teóricos não se afastando deles um milímetro. Por isso o sr. que em câmara lenta, como era seu apanágio, anunciou o brutal aumento de impostos, teve de se retirar porque só sabia o que vem nos livros. Actualmente a economia é uma fila sem fim de novos problemas e dilemas muito difíceis aos quais não se podem aplicar da mesma forma as receitas de ontem.
Muito se fala do PIB (Produto Interno Bruto) e do défice em percentagem do PIB. Temos obrigatoriamente de baixar o défice e o endividamento em face do PIB e que tal aumentar o PIB? Se aumentar o PIB o défice baixa automaticamente, há crescimento e melhora a qualidade de vida das pessoas. Entre várias, uma das contas que se faz para aferir o valor do PIB é a diferença entre o que se exportou e o que se importou. Se nos dermos ao trabalho de ver a etiqueta, de ver quem foi o País que produziu o que estamos a querer adquirir, vamos estimular o consumo do que é Nacional, mas para isso temos de ter um governo que nos desperte e incentive a isso e esse governo não é seguramente este…
É muito fácil aumentar as receitas aumentando o preço dos bens que nos propomos transaccionar. O problema é que deixamos de ter clientes. É muito fácil aumentar as receitas fiscais, aumenta-se os impostos. O problema é que se está a matar quem paga os impostos e carregar cada vez mais nos que lutam para sobreviver.
Um micro exemplo que se generaliza por todo o País e passa de um micro exemplo para um macro problema.
Normalmente almoçava na churrasqueira do Sr. José Manuel, em Almeirim, quando o IVA passou de 13 para 23%. O Sr. José Manuel, como tantos outros, não fez reflectir o aumento do IVA nas refeições, ficou ele a suportar esse aumento para tentar não afastar os clientes. O problema é que a economia não são só os números: apesar do preço da refeição ser o mesmo, psicologicamente o que ficou na cabeça das pessoas foi o brutal aumento do IVA. Verificava-se que a cada dia que passava a casa tinha menos clientes. Para além dos frangos assados, tinha pratos já confeccionados. Com o movimento a decrescer, viu-se na necessidade de despedir uma pessoa que ajudava na cozinha e a servir à mesa. Mas os clientes continuaram nessa onda de escassez, pois só se ouvia e ouve falar de austeridade e cortes, cortes às cegas… Na tentativa de salvar o seu negócio, o Sr. José Manuel passou a servir pratos mais ligeiros e mais baratos, mas a periocidade com que os clientes frequentavam a churrasqueira continuou a cair. O Sr. José Manuel passou a comprar muito menos aos seus fornecedores, assim como tantos outros restaurantes passaram a comprar menos. Alguns desses fornecedores já fecharam, foram para o desemprego (menos produto, mais despesa, menos PIB, mais défice). Entretanto foram mais cortes, o aumento do IRS,… e os clientes do Sr. José Manuel eram cada vez menos, despediu a cozinheira e passou a ser pau para toda a obra. Resultado: não deu para aguentar o negócio, teve de fechar. Como não arranjou ninguém a quem o trespassar, entregou a casa ao senhorio, começaram os problemas para o senhorio, com o IMI cada vez mais caro e a casa sem estar arrendada, também ele ficou em maus lençóis… Estas políticas cegas de cortar em tudo e aumentar os impostos desta forma é de uma ignorância e arrogância atrozes; este não é nem poderá ser o caminho, ainda estamos a tempo de inverter a marcha mas temos de mudar de governo e de políticas. Quanto a nós, simples cidadãos, temos de ser cada vez mais patriotas, temos de ser adeptos da nossa selecção e bandeira nacionais sem nunca nos esquecermos de ver a etiqueta. Essa etiqueta fará toda a diferença: “Made in Portugal”.
Enquanto escrevia, ouvia a SIC notícias, ouvia o conjunto de tragédias que nos são trazidas para dentro de casa todos os dias, por todos os noticiários. A determinada altura ouvi que “por dia, em média saem de Portugal 341 pessoas”, 341 pessoas que são obrigadas a emigrar para poderem sobreviver. Assim não dá…é urgente mudar as políticas e os protagonistas.

VIAAntónio José Matos
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