De purgante à guerra química

De seis em seis meses era a vez do «óleo de rícino», aquele da lavagem à tripa, que te punha sentadinho na cagadeira a esguichar que nem mangueira do carro dos bombeiros.

Joaquim Castro

Quem foi criança pela mesma altura em que tal me calhou na rifa em África, se lembrará do que estou para aqui a divagar. Quando chegava a época do cacimbo, pomposamente chamada de inverno, as nossas mães, malevolamente aconselhadas por médicos sádicos, afinfavam-nos pela goela a baixo, todos dias, uma colher de sopa de “óleo de fígado de bacalhau”. Puro e duro, daquele mal-cheiroso, a saber a bosta de camelo (achava eu). Estas malvadezas com que as nossas mamãs nos brindavam eram complementadas com uma outra tortura ainda pior, também ela aconselhada pelo malvado do médico. De seis em seis meses era a vez do «óleo de rícino», aquele da lavagem à tripa, que te punha sentadinho na cagadeira a esguichar que nem mangueira do carro dos bombeiros, que tinha um sabor nauseabundo e cheirava pior que os pêlos do rabo do rato. A coisa tinha o seu toque de perversidade. Ninguém consegue, hoje em dia, imaginar o que é ser acordado cerca das cinco da manhã, entreabrir a pestana e dar de caras com a mãe, numa mão o frasco do maldito do óleo de rícino, na outra a colher de sopa. Para tentar amenizar a coisa, já tinham colocado na mesa-de-cabeceira um copo com sumo de laranja. Nunca percebi para quê, pois o gosto do rícino persistia nas tuas papilas gustativas, para além de passares a odiar sumo de laranja para o resto da tua vida. E o ritual começava como no semestre anterior. ‘Abre a boca’, ‘num abro’, ‘abre a boca’, ‘um-um’, ‘abre a boca, ou chamo o teu pai’ e, perante tal argumento, alma até Almeida, dos fracos não reza a história, e escancaravas as beiças, engolias aquela nojice e bico calado! Ora esta mistela que te lavava a tripa, desenvencilhava-te das lombrigas e outras bichezas provem da planta, de seu nome ‘ricinus communis’, popularmente conhecida como ‘mamona’. O óleo obtido das suas sementes é um eficaz adstringente que, ao ser ingerido, faz com que as enzimas dos intestinos libertem o ácido ricinoleico, princípio activo da tal super-caganeira. Porreiro, até aqui tudo joia, até porque o dito óleo até tem serventia naquelas coisas dos tratamentos de beleza, para os cabelos e para a tromba. Onde a coisa começa a animar, é por o ‘rícino’ ser venenoso se inalado, injectado ou ingerido, actuando como uma toxina inibidora da síntese das proteínas. Durante a I Guerra Mundial, os Estados Unidos investigaram o potencial militar do rícino. Naquela altura estava a ser considerado para utilização, quer como um pó tóxico ou como revestimento para balas e para os ‘estilhaços’ das granadas. O conceito da nuvem de poeira não conseguiu ser adequadamente desenvolvido, e o conceito do revestimento das balas e dos estilhaços, seria uma violação da Convenção de Haia de 1899. A guerra terminou antes de se conseguir a sua utilização como arma. Durante a II Guerra Mundial, os E.U.A. e o Canadá dedicaram-se a estudar a utilização de rícino em bombas de fragmentação. Apesar de haver planos para a sua produção em massa e se terem realizado não era mais económico do que utilizar vários testes no terreno com diferentes modelos de bombas, a conclusão final foi de que ‘fosgénio’ (oxicloreto de carbono). Esta conclusão foi baseada mais na comparação das armas finais, do que na toxicidade do rícino. Ao rícino foi atribuído o símbolo militar W, mais tarde WA. O interesse pela sua utilização continuou por pouco tempo após a II Guerra Mundial, mas em breve o U.S. Army Chemical Corps iniciou um programa para criar armas químicas utilizando o sarin. A União Soviética também pesquisou o rícino, havendo especulações acerca da sua utilização pelo KGB fora do bloco soviético, ainda que tal nunca tenha sido provado. Em 1978, o dissidente búlgaro Georgi Markov foi assassinado por agentes dos serviços secretos búlgaros que, numa rua de Londres, subrepticiamente dispararam contra ele com um ‘guarda-chuva’ modificado (utilizando ar-comprimido) para disparar um pequeno projéctil esférico, contendo rícino, na sua perna. Markov faleceu, passados alguns dias, num hospital londrino. O seu corpo foi enviado para um departamento do Ministério da Defesa, especializado em ‘venenos’ e, na autópsia foi descoberto o pequeno projéctil esférico. Ficou famoso na ‘história’ dos artefactos dos serviços secretos o «guarda-chuva búlgaro». Ao tempo acreditava-se que os serviços secretos búlgaros não estariam capacitados ara criar a arma e o projéctil e que ambos teriam sido fornecidos pelo soviético KGB, coisa que sempre foi negado pelos soviéticos, ainda que os desertores do KGB de elevado perfil, Kalugin e Gordievsky, tenham vindo a confirmar o envolvimento do KGB. Já anteriormente, o dissidente soviético Aleksandr Solzhenitsyn, em 1971, sofreu (ainda que tenha sobrevivido) sintomas semelhantes a um ataque de rícino, após um encontro com agentes do KGB. Para perspectivar a utilização do rícino como arma, convém notar que, como arma biológica, ou arma química, o rícino não se pode considerar muito potente em comparação com outros agentes, tais como o botulinum ou o antrax. Além do mais, a quantidade de rícino necessária para conseguir um nível de LD50, sobre uma grande área geográfica é significativamente maior do que um agente como o antrax – toneladas de rícino contra apenas alguns quilos de antrax. Daí que, um exército que pretenda utilizar armas biológicas e que possua recursos e tecnologia avançados, utilizará preferencialmente o antrax ou o botulinum. O rícino é de produção mais fácil, mas não é prático, nem causa tantas baixas como os outros agentes. Por outro lado, o rícino torna-se inactivo (a estrutura da proteína altera-se, tornando-se menos perigoso) muito mais rapidamente que os esporos de antrax, que permanecem letais durante décadas. A principal razão de o rícino ser perigoso é de não haver um antídoto específico, e ser muito fácil de se obter, sendo que, apesar de muito mais tóxicos, o botulinum, o antrax e a toxina do tétano são mais difíceis de obter.
As ‘ocidentais’ almas pias e bondosas não se cansam de agitar a desumanidade do conflito no médio oriente, apressando-se a condenar Israel pelos seus ataques de retaliação contra a chuva de ‘rockets’ enviados pelo Hamas e passando a mão na cabeça destes, apesar da sua reiterada utilização de escudos humanos e da forma como mal-trata a sua população. Apesar de a primeira preocupação do mundo ser ‘humanitária’, deverá também prestar uma cuidadosa atenção a um aspecto chave de duas organizações que poderão fazer escalar o conflito para além do imaginável e, possivelmente, levar a região à beira da destruição. O Estado Islâmico do Iraque e Levante ou ISIS (Islamic Sate of Iraque and Syria), sunitas radicais, cuja violência é considerada extrema mesmo pelos padrões da Al Q’aeda, não está apenas a querer espalhar o terror e a eliminar muçulmanos xiitas, cristãos e os Yazidis curdos, mas conquistar o Iraque. Já não satisfeito em controlar áreas tribais dispersas, o grupo pretende criar um efectivo Estado Islâmico, baseado em princípios fundamentalistas radicais. Esta aposta no ‘nacionalismo’ é o que torna o ISIS tão incrivelmente perigoso. Na eventualidade de ser bem-sucedido, o ISIS seria capaz de institucionalizar o terrorismo de uma forma até hoje jamais vista (apesar do apoio tácito dado à Al Q’aeda por governos árabes autoritários no passado). É este dúbio objectivo que o Hamas partilha com o ISIS e que torna o Hamas igualmente perigoso. Enquanto o objectivo do Hamas é, ostensivamente, estabelecer um Estado autónomo para os palestinianos, que esteja livre de intimidação e interferência de Israel, o seu verdadeiro objectivo é consolidar o seu próprio poder nesse Estado e utilizá-lo para espalhar o terror na região e internacionalmente. O alvo declarado do Hamas poderá ser apenas Israel, mas tal é deliberadamente enganador. Como bem demonstram as acções do Hamas, que mata muçulmanos tão indiscriminadamente como mata os não muçulmanos, a filosofia do terrorismo não conhece nenhuma lealdade para com ninguém, nem com nada, mas apenas consigo mesmo. Enquanto grupos terroristas como o Hamas e o ISIS estiverem activos, não haverá paz duradoura no médio oriente. Todo o conflito acarreta custos humanitários, mas se não se intervier para travar este tipo de ‘nacionalismo’, o custo humanitário daí resultante será inimaginável, como já se verifica no Iraque. Como ‘nota de roda-pé’, o ISIS tem como alvos para a sua expansão a Jordânia, Israel, Palestina, Líbano, Chipre o sul da Turquia e, preparem-se oh lusas almas gentis e bondosas, o Califado Andaluz (Espanha e Portugal). Ponham-se finos e comecem a decorar para que lado ides virar o cu na hora de rezar.

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VIAJoaquim Castro
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