Silvino: o mistério das negociatas do homem-sombra

Opinião de Nuno Cláudio

Silvino parece estar no fim da linha. A carreira política do ainda vice-presidente está por um fio...

Confesso que fiquei absolutamente chocado quando vi pela primeira vez Silvino Lúcio num evento público, vestindo então a pele de presidente da Junta de Freguesia de Aveiras de Baixo. Estávamos nos anos noventa, e a Casa do Povo daquela freguesia servia de palco para uma discussão pública acerca de um assunto que, francamente, já se me varreu da memória. O que me ficou bem presente – dificilmente esquecerei… – foi o estado de embriaguez em que Silvino se encontrava e a forma desordeira e primitiva como deliberadamente desestabilizou aquela reunião pública. Fiquei, sinceramente, a pensar que me tinha enganado na porta, e que aquele espectáculo degradante que tinha visto não poderia ser a postura de um presidente de junta, para mais de um presidente de junta que havia ganho a sua freguesia com maioria absoluta. Curiosamente, nos anos seguintes não consolidei a péssima imagem com que fiquei de Silvino naquele primeiro contacto – até porque pior seria impossivel de imaginar. Quando “Jaquim” Ramos chamou Lúcio para braço direito na campanha de 2001 desde logo fiquei com a certeza de que ali estavam a sorte grande e a aproximação: um, o “Jaquim”, delicado, educado e ponderado; o outro, o Silvino, um pouco mais parecido com o betão, explosivo e fervente em centilitro de água. Com o Silvino a liderar a concelhia, era útil para Ramos que o presidente da freguesia de Aveiras de Baixo se juntasse à sua candidatura, para dessa forma dominar as bases locais do partido. Para Silvino, Ramos caía do céu: era assim uma espécie de sol…garden que se afigurava no futuro próximo, já que o então presente tinha pouco de perspectivas futuras e solarengas, muito menos “gardencidas”. Ramos na corrida à Câmara era sinal de que a vitória dificilmente escaparia ao PS, e Luís de Sousa na vereação seria sinal de que… faltava pouco para chegar o tempo de Silvino. Durante doze anos foi fidelíssimo a Ramos. Ambos partilharam conhecimentos, alguns segredos e Lúcio cultivou uma certa admiração pelo “Jaquim”, que sempre considerou (e de forma justa, estou em crer) um líder carismático e competente. Com a perspectiva da retirada de Ramos em 2013 Silvino começou a alimentar a ideia de que seria o escolhido pelo presidente para a sucessão – escolhido por Ramos, como é evidente, porque vencer três eleições com maioria absoluta, a última das quais a mais alargada de sempre, dá estatuto para escolher e plantar na sucessão quem bem o protagonista quiser. Só que, vá lá saber-se a razão, a escolha do “Jaquim” incidiu sobre o já mais idoso Luís de Sousa… um balde de água gelada sobre Lúcio; gelada e ainda por cima água cara, já retirada das torneiras da concessão. Não fazia sentido, na cabeça do Silvino. É que Sousa, até pela idade e atendendo ao desgaste natural de 16 anos de Câmara na condição de vice-presidente, quanto muito poderá assegurar mais um mandato, e depois terá que calçar os chinelos e gozar a reforma. Ora, se Ramos queria assegurar a sucessão no contexto de um projecto mais duradouro e abrangente, não seria melhor (pensou Silvino) que apostasse em si mesmo, mais jovem, mais enérgico, mais capacitado (pensou Silvino!)? Porque seria que o “jaquim” não teria apostado em si para candidato? Porquê esta traição, e logo a ele, Silvino, que sempre dera tudo em prol das candidaturas de Ramos para a presidência da Câmara?
Foi neste momento que a dúvida se abateu sobre a cabeça e o bigode farfalhudo e aparado de Silvino. Talvez o “Jaquim” tenha achado que… que… ele nem queria acreditar no que estava à beira de concluir. Talvez Ramos tenha mesmo considerado que ele, Silvino Lúcio, não tinha nem capacidade nem perfil para ser Presidente de Câmara. Essa era uma conclusão com a qual Silvino, num primeiro momento, se recusava a conviver. Depois o tempo passou, e Silvino recuperou forças. Se não era em 2013, haveria de ser em 2017, com toda a certeza. Ramos já está fora de combate e Silvino continua a ser o líder da Comissão Política Concelhia do PS de Azambuja, cujo mandato com os novos estatutos durará até três meses após as próximas autárquicas. Ou seja, vai ser Silvino Lúcio a definir o perfil do candidato que deseja para o seu PS atacar a autarquia em 2017. Sousa também estará fora de combate e, na cabeça de Lúcio, ele será o melhor posicionado para agarrar o desafio. Isto se Luís de Sousa não resolver apoiar outro candidato, como por exemplo António José Matos. Digo eu, que não percebo nada disto. Mas é que Matos vai ser militante, já é presidente da Assembleia Municipal pelo PS, fez o jeito a Sousa ao aceitar o convite e agora até o apoia declarada e publicamente – leiam, por favor, o artigo de Matos publicado nesta edição. Ora, com a postura pública de Silvino, que diz onde calha e lhe apetece que Sousa não tem pedalada para ser presidente e que o PS perdeu a maioria devido ao desastre da liderança do homem de Alcoentre, quem acha o leitor que Sousa vai carregar ao colo nas próximas eleições? Mas o Silvino não fica a perder, mesmo nada. Pelo menos tem um Jeep Mercedes, é um homem jeitoso que faz sucesso na comunidade e pode gabar-se de não meter água. Pelo menos até à data, que o futuro… a Deus pertence, como dizem os católicos.

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VIANuno Cláudio
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