Uma história de Natal em… Agosto!

Opinião de Daniel Claro

Daniel Claro

Tenho com o Natal uma relação difícil… olhando para a parte religiosa e iconográfica com os olhos de um ateu, agrada-me alguma “estética” de paz que lhe está subjacente e desagrada-me o contraponto do frenesim consumista em contramão com a mensagem de valores que supostamente estão presentes nestas celebrações. A minha abordagem a esta quadra é feita sobretudo pelas crianças, por aqueles olhares ansiosos que deitam para a árvore iluminada que num canto da casa se torna o fulcro dos sonhos de cada noite que antecede o “dia”… e não amigos… fazer um mimo aos nossos meninos não é – se for feito criteriosamente – consumismo, é carinho e comunhão que apenas me afecta quando depois de desembrulhar a prendinha vou à varanda fumar um cigarro e, num complexo de culpa porventura hipócrita, confesso que quase sempre uma “furtiva lágrima” me incomoda a visão, lembrando-me de outros que não têm essa possibilidade…! Lido mal com isso nunca sabendo o que fazer ou pensar! Consola-me a ideia de que, todos os dias, com muitos erros e omissões, tento fazer algo para amenizar esse sentimento com a consciência do pouco que é esse algo…! Da minha infância não guardo relevantes recordações do Natal… o meu pai era ferroviário, o dinheiro era sempre contado e recontado e a minha prendinha – que nunca faltou e era ansiosamente esperada – chegava sempre na forma de um carrito ou uma pistolita parecida com as dos livros do “Cisco Kid” e do “Kit Carson” que o meu tio coleccionava e eu devorava… “arredondada” com alguma roupita e um mimo que os meus padrinhos nunca se esqueceram. Lembro, isso sim, as broas e as filhoses que a minha mãe, num ritual de cheiros que ainda hoje me afagam a memória, preparava nos dois dias antes da consoada e, à noite, de uma enorme fogueira no largo junto à minha casa… tempo de brincadeira de algumas horas correndo na roda do “aqui vai o lenço, aqui fica o lenço…” e mais tarde, espigadote e olhando já para a “sombra” continuando com o mesmo refrão mas esperando que na ponta do lenço viesse um beijo roubado no escuro do vão da escada de alguma vizinha…! A vida foi passando com o seu cortejo de “glórias e misérias” e o meu contacto com muito “mundo” distanciou-me definitivamente do “espírito natalício” tradicional que passou a traduzir-se apenas no tal olhar das crianças, sempre presente nos meus filhos e numa família que, com paciência, encontrou a forma de conviver com esse meu cepticismo. Mas estas coisas do “Natal” e sobretudo do seu espírito, têm muito que se lhe diga…! Há mais de dois anos “tropecei” numa história de um “Natal em Agosto”… afinal como diz o poeta: Natal é quando um homem quiser… ou sentir! Contaram-ma deste modo e como sendo verdadeira: “há homens que olham para a vida racionalizando-a porventura em demasia e olhando cada momento num balanço constante de eficácia da sua presença perante o mundo que os rodeia. O nosso protagonista era exactamente um desses…! Possuidor de um desassossego de alma e acção, viu-se, por razões de doença, privado de muita da capacidade de intervenção e num caminho de decadência que parecia irreversível. Depois da morte dos pais e com o nascimento de um neto, racionalmente concluiu que o seu círculo de vida se tinha fechado com êxito, o seu papel estava cumprido e finalizado. O curioso é que para o nosso protagonista esse pensamento, embora causasse uma natural angústia, ao que parece não tinha qualquer dramatismo, antes resultava de uma análise fria, quase estatística, de custo versus eficácia! Até que… numa noite de Agosto enquanto os filhos passeavam e o resto da família cuidava de outros afazeres, o nosso homem ficou sozinho com o neto de poucos meses que dormia um sono profundo entrecortados por doces, suaves mas audíveis suspiros, e nesse momento, no silêncio apenas quebrado pela respiração da criança, lembrou-se do próximo Natal que podia ser já no dia a seguir… ou no outro, ou em Novembro, ou em 25 de Dezembro, porque não? E sobretudo lembrou-se de quem era, na esperança renovada, na confiança no seu círculo familiar, no que partilha com amigos e conhecidos na sua terra, em todas as terras e “mundos” que viveu, na capacidade que os homens e mulheres cidadãos deste mundo que está um lugar hostil e estranho sempre tiveram para renovar a esperança, num constante Natal feito de uma luta diária… e que essa luta precisa de todos, hoje mais do nunca quando a nossa dignidade de pessoas inteiras é posta em causa…”! Esta é a história tal como me contaram e o nosso protagonista reencontrou naquele menino ali ao lado uma renovada ideia de vida, de um Natal mesmo em Agosto, feito de um combate colectivo contra o individualismo e a selvajaria social… onde ele e todos nós temos um papel a cumprir e que merece a pena ser vivido todos os dias, pelo seu neto e pelos outros netos…!Feliz Natal e um Ano de 2014 o melhor possível… sem resignação!

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VIADaniel Claro
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