
No século XVII, por iniciativa de três monges que se opunham à reforma religiosa, foi construída a Capela dos Ossos, em Évora, dedicada ao Senhor dos Passos, cuja divisa gravada à entrada avisa: “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos”. Dentro da Capela, para além dos 5000 exemplares de ossos provenientes dos cemitérios, situados em igrejas e conventos da cidade, pode ler-se este poema, de autor desconhecido: “As caveiras descarnadas/São a minha companhia,/Trago-as de noite e de dia/ Na memória retratadas/Muitas foram respeitadas/No mundo por seus talentos,/E outros vãos ornamentos,/Que serviram à vaidade,/E talvez … na eternidade/Sejam causa de seus tormentos”.
Longe de mim querer fazer humor negro, mas não resisto à tentação de comparar a motivação dos ditos monges com os dias de hoje, em que outro Senhor dos Passos nos quer empurrar, não para uma capela de ossos, mas para um gigantesco cemitério nacional onde possa acolher os ossos de uma grande maioria dos portugueses excluídos, cada vez mais famintos.
Sem consulta popular, integraram-nos na Europa dos poderosos, em especial da Alemanha, que domina as instituições europeias. Depois, a troco de uns subsídios, desmantelaram a nossa débil economia, decapitando a indústria, enterrando a agricultura e afogando as pescas. Bem podemos agradecer a Soares e Cavaco, secundados por Barroso e Sócrates, este último com os seus PEC, reformulados e ampliados para pior por Passos e Portas. Agora, de novo o sefardita (1) Cavaco, acompanhado dos safardanas Passos e Portas, os quais, através de uma suposta reforma do Estado, cada vez nos esmagam mais sob as mãos dos poderosos, da Europa e do nosso país. Basta atentar no aumento do desemprego e na degradação do poder de compra da esmagadora maioria dos tugas, na venda das empresas rentáveis, como a EDP e os CTT, etc. E, por este andar, se os portugueses não se indignarem por esta humilhação permanente, segue-se a venda das Ilhas dos Açores e da Madeira, para pagar a dívida acumulada (os poderosos da Alemanha já sugeriram ficar com as Ilhas gregas em troca da dívida da Grécia). Mais tarde, para recapitalizar os bancos portuguese roubados pelos seus administradores, já está em marcha um estudo prévio para a reforma dos cemitérios, onde se recomenda às autarquias o encerramento dos não rentáveis (todos, claro). Desta forma, querem economizar mais uns milhões de euros, evitando despesas de manutenção, despedindo umas dezenas de milhares de coveiros, permitindo aos abutres dissecar, a céu aberto, os cadáveres dos tugas, de modo que os seus restos finais, ou seja os esqueletos, possam ser amontoados num gigantesco depósito de ossos, à semelhança da referida Capela de Évora. Sabe-se, também, através de fonte governamental anónima, que os estudos em curso contemplam a escolha da localização adequada para a implantação de um futuro Museu Nacional dos Ossos, em que são consideradas apenas duas alternativas: a primeira, entre as Linhas de Cascais e de Sintra, onde há mais abutres por hectare, o que torna mais rentável o empreendimento; a segunda, na periferia da Urbanização da Praia da Coelha, concelho de Albufeira, onde costuma passar férias uma múmia, que promete não vetar nem pedir a fiscalização preventiva da constitucionalidade de mais esta medida reformista do novo Senhor dos Passos.
1) Termo usado para designar judeus oriundos da Península Ibérica – cfr. Wikipédia.

















