
Custa a crer que num País onde tudo se processa à volta duma mesa, tenham levado quase três anos para se postarem à frente um do outro. E nem os apelos do Senhor de Belém, nem os ralhetes da patroa da Europa, nem as ameaças de quem vai passando para cá ( leia-se para as finanças públicas ) o cacau nosso de todos os dias, venha ele do FMI, da CE ou do Banco Europeu – a gente quer cá é o cacau! – evitaram que estivessem estes anos todos de costas voltadas. Ainda por cima num País como o nosso! Ainda se fosse em Espanha em que as Autonomias andam às turras umas com as outras e todas contra o pobre do Mariano Rajoy, que nem para comer meia dúzia de churros são capazes de abancar juntos, ainda se percebia. Mas cá! Inventa-se tudo para nos sentarmos à volta duma mesa. Ele há dois amigos que arranjam uns caracóis e umas bejecas? Toca de sentar e atrombar. Ele há meia dúzia de comadres que sabem -umas – e querem saber – outras – as ultimas coscuvilhices da terra? Vá de arranjar mesa para seis, mandar vir uns cafés e uns descafeinados e soltar a língua. Ele há algum negócio para fazer, uma compra e venda, uma permuta, um aluguer, e lá temos os intervenientes à volta duma mesa que pode ser privada ou oficial – a do Notário. Ele há uma tertúlia cultural, ou política, ou desportiva, e a primeira coisa que se faz é ferrar uma valente mesa, munida das respetivas cadeiras, no meio da sala, com a dimensão suficiente para os tertulianos não só discutirem as suas questões como comerem as bifanas e coiratos do porco que roda lá fora.
Ainda por cima há mesas para todos os gostos, quadradas, retangulares, redondas, ovais, em U, em L, em T. Podia o Passos Coelho dizer : ” Não, eu não me sento à mesa com o Tó Zé – eles na intimidade tratam-se por Pedro e Tó Zé – porque eu embirro com mesas redondas e ele só se senta em mesas redondas…Aliás, tudo nele é redondo, parte dum ponto e vai sempre lá ter! “, aproveita o Pedro para dar a ferroada.
Mas parece que finalmente lá se sentaram. Aliás, já se deveriam ter sentado pelo menos desde o PAC 4, e se calhar escusava o Teixeira dos Santos e o Sócrates de ficarem com as cabeças todas brancas de andarem às cabeçadas um ao outro e escusávamos nós de estar de cócoras para depenicar no cacau europeu, que até parecemos aqueles pica no chão capados que se criam para o lado de Freamunde!
Bem, mas para isto acontecer das duas uma: ou arranjaram uma mesa que é redonda dum lado e quadrada do outro, ou o Pedro queria, quando chegasse a Berlim, para onde foi no dia seguinte ao encontro com o Tó Zé, correr para os braços da Tia Merkl aos berros: “Ângela, Ângela, war mit Tó Zé gesessen!”, o que em alemão quer dizer : “Ângela, Ângela, abanquei com o Tó Zé!”.
E a gente, o Zé Povinho, que está farto de saber que isto das melhorias do PIB e do desemprego e da economia não passam dum embuste insustentável a médio prazo e que quando a Troika der de frosques vamos andar todos engalfinhados uns nos outros e em manifestações a mostrar o rabo à Merkl e a dizer não pagamos, pergunta-se porque é que estes dois não se sentaram há mais tempo – e se calhar convidavam o Portas, que gosta sempre de estar por dentro. Já o Ti Jerónimo, podem convidá-lo, mas duvido que ele aceite. E mesmo que aceite vai sair aos gritos ao fim de cinco minutos, que querem exterminar os trabalhadores e telefona logo a dar ordens à Inter para marcar uma greve geral para um dia qualquer, de preferência uma sexta-feira (os do Bloco não vale a pena convidar, que esses só se sentam entre eles). Talvez assim ponham um pouco de esperança, por ilusória que seja, neste miserável País!
É que eles próprios só tinham a ganhar. O Pedro podia sempre dizer que pôs o interesse do País acima do interesse do Partido e que até acertou as medidas com o maior Partido da Oposição. O Tó Zé, se a coisa corresse bem, podia dizer que foi a mãozinha do PS que atenuou as medidas draconianas do PSD e conseguiu mais algum para os funcionários públicos, reformados e pobrezinhos; se a coisa corresse mal, mandava o Pedro às urtigas e dizia ao País que, embora tivesse tentado, não tinha conseguido atenuar as malfeitorias da Troika e do PSD e não queria ser conivente com essa política de desastre social.
Porque é que só agora é que perceberam isso? Creio que porque só agora perceberam que o Povo, independentemente das suas simpatias e ligações partidárias, lhes exige que se entendam.

















