A irredutível aldeia socialista

Opinião de António Franco

António Franco atira-se a Mariana Mortágua como gato a bofe...

Desde o 25 de Abril de 1974, e após as primeiras eleições autárquicas em 1976, que Alenquer tem sido dos poucos municípios governados sempre pelo mesmo partido. Com efeito, existem zonas de Portugal onde os partidos têm uma fortíssima implantação, criando muitas vezes uma espécie de tradição de voto, que lhes garante vitórias mais ou menos previsíveis. Além de Alenquer, temos como exemplo Viseu, onde o PSD através de Fernando Ruas e durante 40 anos obteve vitórias sucessivas. Fernando Ruas é claramente o exemplo de um autarca maior que o partido que o apoia.
Em Alenquer o exemplo do que acabo de referir, teve um nome: Álvaro Pedro. Em 1976 Álvaro Pedro foi claramente o candidato ideal, apresentado por um partido cuja ideologia se afigurava como a mais indicada para a época. Com efeito, ao afastar-se do radicalismo estalinista do PCP, e ao mesmo tempo dos partidos de direita, vistos à época como “inimigos do povo”, o PS granjeou, nomeadamente no alto concelho, uma legião de simpatizantes, que durante 40 anos lhe garantiram triunfos eleitorais, mais ou menos folgados. Por outro lado, Álvaro Pedro, honra lhe seja feita, tinha um carisma muito especial. O facto de ser um homem do “povo” criou-lhe uma simpatia genuína por parte dos munícipes, que encontravam no “Sr. Presidente” a resposta para alguns dos seus problemas mais prementes. Além disso, tal como João Mário, que fica para sempre ligado à instalação da luz elétrica no alto concelho, Álvaro Pedro fica na memória colectiva como o homem que trouxe o saneamento básico e o abastecimento de água.
Se em 2014 essa obra parece pouco importante, há que a situar num contexto histórico de há 40 anos, onde o simples gesto de abrir uma torneira e ver correr água era um sonho para imensa gente. Posso referir como exemplo o facto de há uns meses, em conversa com um senhor que vive perto da serra do Montejunto, ele me referir que já tinha “almoçado com Álvaro Pedro”, fazendo desse almoço um acontecimento deveras marcante na sua vida. Isto tudo aliado à simplicidade intrínseca do ex-presidente tornou-o praticamente imbatível, arrastando o PS para várias vitórias eleitorais autárquicas.
O PS era Álvaro Pedro. No primeiro acto eleitoral sem Álvaro Pedro, o PS sentiu-se órfão, e correu pela primeira vez o sério risco de perder as eleições. Pela primeira vez em muitos anos, o eleitorado dividiu-se claramente: o norte do concelho virado à esquerda; e o sul, mais à direita. 2013 trouxe uma nova realidade. O PS, embora voltando a conquistar uma maioria absoluta, teve menos votos que em 2009. O PSD teve contra si, não um voto de protesto como seria expectável, mas uma enorme abstenção, que obviamente prejudicou claramente os objectivos do partido.
Em 2017, porventura com novos lideres partidários, as eleições serão extremamente interessantes. Será que assistiremos a uma nova descida de votos no PS? Será que o ciclo iniciado por Álvaro Pedro em 1976 se manterá? Será que a Coligação PSD/CDS, no caso de voltarem a concorrer coligados, continuará a ver frustradas as suas ambições eleitorais? Em qualquer dos casos e dada a enorme implantação socialista, será sempre uma luta bastante complicada, mas são estas lutas que tornam apaixonante a politica. O debate de ideais antagónicos, desde que orientados para o bem estar social, fazem do exercício da democracia uma actividade deveras interessante. E é por esses ideais que qualquer partido se deve bater, tendo sempre como supremo objectivo o bem estar, quer do seu país, quer a uma escala mais reduzida, do seu concelho.

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