Pobres e loucos

Se andares pelas ruas de qualquer cidade ou aldeia de Portugal, ou nas de qualquer cidade ou aldeia da Coreia do Norte, ouvirás a mesmíssima coisa, «isto é pior do que falecer»!

Joaquim Castro

Há duas séries na televisão, de que gosto particularmente. South Park e os Simpsons. Para grande espanto meu, acabo de ver num noticiário que o danadinho do Homer foi a cabecinha pensadora, o grande estratega, o malvado do operacional da CIA, especialista em ‘’black ops”, que treinou os rebeldes sírios e planificou toda a estratégia da luta contra o regime do comprido. Eh pá, não será exageradamente épico demais para um pachola amante da cerveja como o Homer? Cá por mim, aqueles ‘jornalistas’ do Egipto, antes de entrarem em estúdio para transmitir as notícias, fumam primeiro uns charros e metem pó prá veia! Mas não são só os egípcios a meter prá veia, a snifar ou a fumar erva. Na tugulândia a tendência generalizou-se e ou é moda, ou religião entre os tolos de serviço da maioria, e já que se fala em maioria, ouvi o rapaz de Massamá a referir-se aos «partidos que suportam» o governo. Asneira seu láparo mal-amanhado, quem vos tem de ‘’suportar” somos nós, o Povo, nós é que temos de vos gramar, levar convosco em cima. Os outros, os lambe-cus a defender os tachos, apoiam-te que é coisa bem diferente. E a gente deste país suporta-te até às eleições que são umas coisas de que devias ter medo, muito medo, porque se a gajada acorda do pesadelo e se põe a pensar, bota o papel na urna e põe-vos com dono. Vai tudo prá Merkel que vos pariu. E de caminho podes dar boleia ao xico-esperto do Aníbal que ave de mau agoiro como aquele não há. A bem dizer, andam os políticos estupidamente contentinhos por Portugal ir ter uma saída limpa, de cú lavado, pese embora todas as cagadas da maioria liderada por Coelho. Nos meios da maledicência partidária já se diz que, depois de ter visto 10 vezes aquele filme, «Connan, o Destruidor», quer ser conhecido como «Coelho, o Destruidor», aquele que foi empobrecendo o país, desmantelando o Serviço Nacional da Saúde, a Escola Pública, mal-tratando e escravizando a função pública, lançando as famílias na miséria, no desemprego desenfreado e socialmente desprotegido, destruindo o Estado Social, e assim agradou aos bancos alemães. Os ‘’irmãos metralha” da governação cantam loas ao seu desempenho na salvação das finanças e contenção do que quer que seja, mas tentem explicar aqui ao je, como é que passar de uma dívida de 90% para 130% é salvar o que quer que seja. E vamos a votos na Europa. Vamos, juntamente com os demais europeus, combater quem quer destruir a Europa Social. A direita neo-liberal europeia votou o tratado orçamental, que impõe aos estados europeus ditatoriais e violentas regras no que respeita às despesas dos Estados. Essas mesmas regras, aplicadas por estas bandas, são no mínimo irrealistas, pois implicaria que a nossa economia gerasse um excedente orçamental e um crescimento do produto na zona dos 3,6%. A própria tentativa para atingir tais objectivos teria, como pressuposto, uma profunda e radical transformação da nossa sociedade, do próprio regime constitucional, a destruição completa e definitiva da Escola Pública, do SNS o desmantelamento da segurança social. Este, como diria aquela coisa pálida e mal-amanhada, ‘’conseguimento” da destruição social do país, só tem paralelo com o que o Kim Jong Un (o Coelho da Coreia do Norte) faz ao povo (dele). Se andares pelas ruas de qualquer cidade ou aldeia de Portugal, ou nas de qualquer cidade ou aldeia da Coreia do Norte, ouvirás a mesmíssima coisa, «isto é pior do que falecer»! Mas, como diziam os bravos combatentes republicanos da guerra civil de Espanha, mais vale morrer De Pé do que viver de joelhos! A 25 de Maio, De Pé!
Kim Jong Un ordenou às chefias dos serviços de segurança da Coreia do Norte, (CN) que tomassem “medidas estatais importantes e de elevado perfil”, o que foi amplamente interpretado como significando que estaria a planear o seu terceiro teste nuclear. A CN vem utilizando há muitos anos a ameaça dos testes, bem como os próprios testes, como arma contra os seus vizinhos e os Estados Unidos. À primeira vista, ameaçar testar armamento não parece ser propriamente sensato. Se o teste fracassar, pareces fraco. Se for bem-sucedido, pareces perigoso, sem que, na realidade, possuas uma arma utilizável, e quanto mais perto estiveres de ter essa arma, mais provavelmente alguém te irá atacar para que não consigas na realidade obter essa arma. Desenvolver uma arma em absoluto segredo, pareceria ter mais lógica. Quando a arma estivesse pronta, apresentava-se publicamente e, assim, se teria algo de sólido com que ameaçar os inimigos. Na realidade, a CN tem vindo a fazer isto há imensos anos, e com sucesso, pelo que o que à primeira vista poderia parecer absurdo, obviamente não é. Pelo contrário, esta táctica, provou ser uma manobra muito eficaz. Estima-se que a CN tenha um PIB de cerca de 28 mil milhões de dólares. Contudo conseguiu posicionar-se numa situação que leva os EUA, Japão, China Rússia e a Coreia do Sul, a sentarem-se com ela à mesa das negociações, numa aposta de a persuadir a não desenvolver armas nucleares. Umas vezes, as grandes potências dão à CN dinheiro e alimentos numa tentativa de a persuadir a não construir armas. Umas vezes ela acede a parar o seu programa, mas rapidamente retoma a sua actividade nuclear. Nunca termina uma arma, mas amiudadas vezes ameaça testar uma. Há algo de genial na estratégia da CN. Aquando do colapso da União Soviética, a CN ficou numa situação de enorme carência económica. Existiam expectativas razoáveis em como o seu governo colapsaria, levando à reunificação da Península da Coreia. Naturalmente, o objectivo do governo norte coreano era a sobrevivência do regime, pelo que estava aterrorizado com a ideia de que potências estrangeiras a invadissem, ou apoiassem e orquestrassem um levantamento contra ele, donde a necessidade de uma estratégia que dissuadisse que alguém o tentasse fazer. Tal não seria fácil, mas os norte-coreanos desenvolveram uma estratégia em três partes, que podemos descrever como feroz, fracos e loucos, e tem vindo a seguir este rumo desde os anos 90. Em primeiro lugar, os norte-coreanos posicionaram-se como ferozes aparentando possuir, ou estarem à beira de possuir um poder devastador. Em segundo lugar, posicionaram-se como sendo fracos, de modo a que se argumentasse que não valia a pena pressioná-los pois, de qualquer modo, o regime iria colapsar. Em terceiro lugar, posicionaram-se como sendo loucos, na medida em que, pressioná-los seria perigoso, uma vez que, nada tendo a perder, muito provavelmente eram capazes de correr os maiores riscos imagináveis à menor provocação. No princípio, a capacidade de parecer feroz era limitada ao poder do seu exército de bombardear Seoul. A CN tinha concentrado toda a sua artilharia ao longo da fronteira e, teoricamente, podia devastar Seoul, partindo do princípio de que tinha munições suficientes, que a sua artilharia estava em condições de funcionar e que o poderio aéreo inimigo não arrasasse a sua concentração de artilharia. O ponto da questão não era que a CN iria arrasar Seoul, mas sim que tinha a capacidade e meios para o fazer. Muitas nações tentaram fazer o jogo da ferocidade, mas os norte-coreanos adicionaram-lhe uma brilhante e subtil mais-valia, serem fracos. A CN apregoava e publicitava de várias maneiras, a fraqueza da sua economia, em particular a sua insegurança alimentar. Isto não era feito abertamente, mas sim permitindo ‘’fugas de informação” sobre as suas dificuldades. Atenta a debilidade da sua economia e o baixo nível de vida dos seus cidadãos, não havia necessidade em arriscar tentar ‘minar’ o norte. Ele cairia por via das suas próprias debilidades. A ferocidade da CN por via de armamento cuja eficácia poderia ser questionável, mas que mesmo assim constituía uma ameaça inquantificável, obrigava os inimigos a apalpar cuidadosamente o terreno. Porquê arriscar que ele desse largas à sua ferocidade, quando a sua fraqueza levaria ao seu desmoronamento? E desta sorte, um constante debate académico entre os ‘analistas’ ocidentais acerca do poder do norte versus a sua fraqueza, paralisou os «policymakers». Os norte-coreanos acrescentaram um terceiro ingrediente para aperfeiçoar a sua estratégia. Eles criaram a imagem de que eram loucos, esforçando-se por parecerem imprevisíveis, dados a ameaças extravagantes e dando a ideia de desejarem a guerra, tal como quando afundaram barcos sul-coreanos sem qualquer razão aparente. Enquanto os norte-coreanos parecerem ferozes, fracos e loucos, o melhor a fazer era não os irritar demasiadamente, e não se preocuparem com que tipo de governo têm. Ser fraco e louco era a parte mais fácil para o norte. Manter a aparência de ferocidade era o mais desafiante. Não só a CN tem de continuar a aumentar a sua ferocidade, como tem de evitar aumentá-la tanto que esse aumento se sobrepusesse ao efeito dissuasor da sua fraqueza e loucura. (infelizmente continua na próxima).

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VIAJoaquim Castro
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