
Pronto. Parece que lá para meados de Maio, essa gente da Troika vai-se embora : aquele senhor baixinho e escurecido, que percorre os caminhos dos nossos Ministérios com a pressa de quem vai a fugir da Polícia, mais o magrinho espigadote e deslavado que anda por cá desde a ocupação e um terceiro que não estou agora a ver. Que vão, façam muito boa viagem e quando cá voltarem, venham incógnitos para banhos no Algarve.
Eu penso que há duas perguntas fundamentais que devem ser feitas e sobre as quais os Portugueses se devem interrogar. Faço o aviso prévio de que acho que, em 1911, fosse ele com resgate ou outro nome qualquer, teria que haver qualquer apoio externo sem o qual Portugal chegaria à situação de bancarrota, sem dinheiro para vencimentos, pensões e apoios sociais. Isso para mim tornou-se claro depois da derrota do PEC IV, e seria previsível antes dela. Isso foi o que o CDS e o PSD quiseram e percebe-se porquê quando a ânsia do Poder se sobrepõe ao interesse nacional. Mas o PCP e o Bloco…fazerem exactamente o gosto à direita! Não sei se o PEC IV teria ou não sucesso – nunca o saberemos – mas o PCP e o Bloco são tão responsáveis pelo que aconteceu ao País nestes últimos três anos como a Direita que nos governa.
A primeira pergunta é a seguinte : valeu a pena estes três anos de crucificação dos Portugueses ? A minha resposta é um claro e rotundo não. Os desequilíbrios estruturais das Finanças Públicas foram corrigidos ? Não, antes pelo contrário, pioraram. O Sector Público foi reformado ? Não, a máquina pública continua duma burocracia trituradora de qualquer tentativa de desenvolvimento e a administração passou a olhar os Portugueses como uns facínoras, mandriões e vigaristas, e afastou-se perigosamente do quotidiano dos cidadãos. A Educação teve alguma melhoria ? Não, as escolas são um laboratório – como aliás o foram antes – para o Ministro testar as suas teorias, ainda por cima variáveis como as fases da lua. O desemprego cresceu duma forma gritante, o malfadado deficit foi combatido à custa da miséria dos funcionários públicos, dos aposentados e dos que ainda conseguem pagar impostos. Os apoios sociais que, convenhamos, tinham forçosamente que ser moralizados dada as dimensões das diversas fraudes que a ganância de alguns “utentes” introduziram no fundo de desemprego e no rendimento de reinserção, foram atalhados a direito, sem haver a preocupação de separar o trigo do joio, isto é, quem de facto é carenciado ou quem se aproveitou do laxismo do Estado. A miséria e a fome que daí resultaram serão crimes que mancharão por décadas a consciência nacional. As pequenas e médias empresas foram estimuladas com programas de ajuda à sua viabilidade ? Não, foram afogadas com imposto em cima de imposto, obrigação sobre obrigação. A Justiça foi reformulada ? Ah, aqui sim, houve alguma alteração : acelerou-se a punição dos pobres e a prescrição dos ricos! E o mesmo se pode dizer de quase todas as áreas da governação, umas com maior outras com menor desengano. Eu já estou como o insuspeito Engº Mira Amaral que, com a tradicional baba aos cantos da boca, exclamou : ” Reforma do Estado, qual Reforma do Estado ? Cortar salários e pensões ? Assim também eu!”.
A segunda pergunta que eu acho que deve ser feita é esta: e depois da saída “limpa”, entendendo eu por saída limpa que a partir de 17 de Maio seremos novamente uma Nação e um Povo soberanos, livres da tutela quotidiana da dita Troika, qual será a atitude dos Portugueses face à dicotomia despesa/receita ao nível do orçamento caseiro? Eu acredito que estes três anos fizeram com que muitos de nós interiorizássemos que devemos ser comedidos, analisar realisticamente a nossa capacidade de arcar com encargos presentes ou futuros, enfim, sermos frugais e comedidos nos nossos anseios materiais e na forma de os satisfazer. Mas tenho honestamente receio que as restrições que fizemos à nossa barriga, às nossas férias, aos nossos popós e às nossas viagens tenham sido feitas apenas por imposição externa. Isto é, temo que já haja para aí muito menino e muita menina a dar lustro ao cartão de crédito para que ele no dia dezassete, lustroso e livre, nos permita novamente tentar alcançar o Eden .
E aí, amigos, o que acontece é que afinal o que a Troika vai fazer é tirar umas feriazitas e daqui a uns meses voltar de armas e bagagens!

















