

Não creio que Joaquim Ramos tenha sido dos piores presidente de câmara. Estou até convencido de que foi bom para Azambuja que Ramos tenha aceite o desafio de pegar no município, sobretudo depois da passagem do “furacão Benavente”, que deixou o concelho devastado. Os dois primeiros mandatos justificam esta minha posição, que assumo sem reservas. É óbvio que Joaquim Ramos é humano, tem defeitos, e pôs os mesmos ao serviço da câmara, a exemplo do que terá feito com as qualidades que também possui. O investimento no relvado sintético no campo de futebol do Aveiras de Cima Sport Clube é uma daquelas anedotas que, mesmo que bem contadas, não dão para mais do que para… chorar, tal foi a dimensão da imprudência e da falta de visão que caracterizou esta obra. Passo a explicar, para que o leitor perceba a grandeza desta perfeita asneira no contexto da gestão da coisa pública: o Aveiras de Cima Sport Clube ocupa desde sempre o seu campo de jogos, um terreno particular pertença de uma senhora já com os seus respeitosos oitenta e tais anos de nome Olga Pinto. Esta senhora vive em Lisboa e raramente vem a Aveiras de Cima onde, no entanto, ainda tem família. A dona Olga recebe do Aveiras de Cima Sport Clube uma renda mensal de 179 euros, que é paga, evidentemente, se o clube tiver uma direcção organizada, que obtenha receitas de forma a poder liquidar esta quantia. Paralelamente, a dona Olga Pinto pouco ou nada sabe do que se passa naquele seu terreno. A senhora, muito afável e de agradável conversa, nunca sequer ouviu falar de um tal tapete relvado sintético que a Câmara de Azambuja lá terá colocado… quanto muito, fala de um muro que construiram à volta do terreno sem a sua devida autorização e supõe que por lá existam algumas estruturas de apoio à prática do futebol, como os balneários ou mesmo o bar e as casas de banho. Agora, um relvado sintético? Não, nem sabe o que é isso. No valor de meio milhão de euros?? Não. A senhora nunca ouviu falar de tal coisa. O que a dona Olga Pinto sabe é que o clube tem sido desorganizadamente gerido, o que leva a senhora a não ter confiança nas pessoas da terra. Muito agarrada às memórias de família, a dona Olga gostaria que aquele terreno, uma vez transformado em parque de jogos, tivesse a nomenclatura da senhora sua avó, de quem a dona Olga tem a melhor das recordações. Esta garantia faria com que a senhora repensasse a sua intenção, já expressa em testamento, de deixar o terreno à organização Voz do Operário. O problema é que até hoje ninguém teve a sensibilidade de compreender esta legítima vontade da proprietária do terreno onde está situado o campo de futebol do Aveiras de Cima Sport Clube.
Bom, e é no meio desta confusão que acontece o impensável. A Câmara Municipal de Azambuja, atacada pela febre dos campos de relva sintética, resolve presentear o Aveiras de Cima Sport Clube com este equipamento. E vai de gastar cerca de 500 mil euros no dito cujo, em 2011, numa altura em que o clube já dava sinais de completa desorientação, sem que se conhecesse sequer uma direcção eleita na altura, e com as contas do Aveiras a não serem apresentadas já há anos. Investimento público que foi feito, recorde-se, num terreno particular, sem sequer o conhecimento da legítima proprietária do mesmo, nem tão pouco alguma garantia de que o terreno, no futuro, venha a pertencer à colectividade de Aveiras de Cima. Ou seja, caso a vontade expressa por Olga Pinto vá avante e o terreno seja doado à organização Voz do Operário, esta sociedade de instrução e beneficiência herda um campo de futebol com uma mais valia construída e paga pela Câmara de Azambuja no valor de meio milhão de euros. Esta é uma das possibilidades, porventura a mais provável de vir a suceder, caso não se consiga inverter a situação. E como é que se inverte esta situação, perguntarão os leitores mais interessados? A Câmara Municipal de Azambuja está entalada entre a espada e a parede com todo este imbróglio. Como protagonizou ali naquele terreno um investimento público avultado, agora sente a obrigação de acautelar o investimento realizado, tarefa que o doutor Joaquim Ramos deveria ter feito antes de ali ter construído o relvado sintético – já sei o que me vai dizer em sua defesa, doutor Ramos: se construisse relvados sintéticos noutros locais do concelho e não construisse em Aveiras era esfolado vivo, etc e por aí fora. Mas governar não é para maricas, com o devido respeito: exige-os no sítio para tomar decisões difíceis mas que garantam a boa aplicação dos dinheiros públicos. Para acautelar o investimento, a Câmara terá que garantir que o terreno será pertença do Aveiras de Cima Sport Clube quando a dona Olga Pinto partir deste mundo. Ora, como já disse, a senhora deixou o terreno em testamento à Voz do Operário. Acresce que o terreno era pertença da avó desta senhora, por quem Olga Pinto tem uma notória e profunda admiração, ao ponto de afirmar que jamais quererá ver um cêntimo que seja resultante da venda deste terreno. Portanto, o único instrumento que a Câmara tem ao seu dispôr para acautelar o investimento será o recurso à expropriação do terreno. Tendo em conta que a autarquia só tem 30 euros em caixa, como afirmou recentemente Luís de Sousa, não me parece que haja meios para levar a tarefa a cabo. Mais importante do que isso, não me pareceria justo que tal fosse feito de uma forma assim tão fria, despida de sentimento. A meu ver, e depois de ter conversado via telefone com a dona Olga Pinto, impôem-se alguns passos que poderão levar a senhora a considerar a hipótese do clube um dia vir a beneficiar da posse do terreno, algo que me parece de elementar justiça. Primeiro, que o campo seja requalificado: melhorar a iluminação, criar um parque de estacionamento atrás da baliza Norte, requalificar o corredor Este que conduz desde a referida zona de estacionamento a norte até aos balneários, passando pelo bar e pelas casas de banho; requalificar a entrada Sul e toda a zona por detrás da baliza Sul; melhorar as vedações, degradadas em algumas zonas. E criar num local de destaque um pedestral para colocar um busto da avó da dona Olga Pinto, rebatizando o complexo com o nome e evocando a memória desta já falecida senhora, tal como deseja a sua actual e legítima proprietária. Toda esta requalificação feita com algum critérito e bom gosto, assinalada com uma cerimónia a condizer, na presença da dona Olga Pinto e demais entidades responsáveis deste concelho, dona Olga que ficaria muito satisfeita por ver a memória da sua ascendente perpetuada com dignidade. Neste cenário, estou em crer (e não fui mandatado pela senhora para afirmar tal coisa, não obstante a conversa muito agradável de horas que tive com a mesma), a dona Olga Pinto encontraria condições para equacionar, ao menos equacionar, repensar a sua vontade de deixar aquele terreno “à terra”, como a senhora gosta de dizer. Ora, uma requalificação desta faz-se com meia dúzia de tostões. Estou em crer que quaisquer 15 ou 20 mil euros (quanto muito; provavelmente até estarei a exagerar) chegam e sobram para dotar o complexo de alguma dignidade (muito menos do que custa uma tourada, estou em crer) e levar por diante este projecto. Muito mais caro seria encetar um processo de expropriação, que obrigaria a autarquia a ter que comprar o terreno, já para não falar do lado humano, pois não me parece que a senhora mereça tal medida. Metam a cabeça a trabalhar, meus senhores.
















