O dinheiro, o desgoverno, a ganância e a falta de estadistas

Opinião de Nuno Cláudio

Cada vez tenho mais dificuldade em crer que este modelo de organização política conduza a sociedade dos homens a algum fim consequente. Vou parecer demasiado pessimista, o que nem é de todo verdade; prefiro a palavra “realista”, até porque aceito de forma complacente e sem reclamações de maior aquilo a que vulgarmente chamamos de destino. Os homens traçam o seu a cada dia que passa e o caminho trilhado normalmente não tem retorno, ainda que evidentemente não conduza a um bom fim. É ver o que sucede no coração da chamada sociedade do dinheiro. De há uns tempos que os cérebros da questão não fazem outra coisa que inventar fórmulas de multiplicar o dinheiro, até que o mesmo chega a um ponto em que desaparece por completo. Essa, aliás, parece ser a essencia do capitalismo: multiplicar o vil metal até fazer com que se suma sem deixar rasto. Segundo consta, o total de endividamento de todos os estados do Mundo equivale a 11 vezes o Produto Interno Bruto de todos esses mesmos estados… até eu, um quase zero a matemática em todo o percurso escolar, depreendo que este é um cenário sem resolução possível. A esmagadora maioria dos estados vivem permanentemente acima das receitas que geram, e tapam o buraco com dívida em cima de dívida. As formas de crédito multiplicaram-se para lá dos limites do imaginável, e a antecipação de receitas geradas pelo crédito leva a que permanentemente se construa uma sociedade hoje mas alicerçada invariavelmente nas receitas que hão-de vir. O que dá origem ao acumular de dívida, nos países, nas regiões, nas sociedades, nas empresas, nas famílias e em tudo o que mexe. Em África, muitos são os países que se endividaram a tal ponto que actualmente venderam as suas terras mais férteis aos países credores. Agora, nessas mesmas terras trabalham os povos às quais deveriam as mesmas pertencer, mas produzem alimentos que entregam aos novos proprietários dos terrenos, quando os seus próprios conterrâneos morrem de fome. Ou seja, os países ricos primeiro emprestaram dinheiro aos países pobres; depois, perante a incapacidade destes de gerarem receitas para liquidar essas mesmas dívidas, aceitaram (eu diria: obrigaram-nos) a pagar as dívidas com as suas terras aráveis e férteis; e agora “dão emprego” aos povos nativos, que trabalham nas suas ex-terras (que ainda estão, e estarão sempre, nos seus próprios países) para produzirem alimentos que enviam para os países ricos, quando os seus próprios povos morrem de fome… desculpem lá, mas continuo na minha: isto não pode significar nada de bom para o futuro dos homens. Estamos aqui claramente perante uma nova forma de guerra, de invasão, de extorção e de chacina dos povos mais frágeis. Afinal, era precisamente assim que se fazia no passado, mas de uma forma mais bélica: quando a economia batia no fundo e quando os gastos associados a uma vida despesista afundava os estados, estes armavam-se até aos dentes, inventavam um pretesto e invadiam as regiões e os povos mais ricos, saquenado, destruindo e aniquilando tudo à sua passagem. E pronto, estava restabelecida a economia, reposta a riqueza e garantido mais um longo periodo de moleza e boa vida, palácios, monumentos e muita comilança para as elites. Afinal, um pouco do que ainda hoje continuam a fazer, por exemplo, os americanos, que quando necessitam de assegurar petróleo ou gás natural não têm pejo em invadir ou inventar conflitos, que também servem para animar a sua própria economia, assente na produção de armamento, uma herança dos tempos da Segunda Guerra difícil de gerir em periodo de paz.
O problema, quanto a mim, passa sobretudo pelo acesso ao poder, ainda que admita que a questão é bem complexa e daria pano para serões e serões de discussão. Basicamente existem duas formas de chegar ao poder nas sociedades contemporâneas: pela via da eleição democrática ou, como alternativa, pelo caminho da imposição com a ajuda de armas – os vulgares regimes ditatoriais. Ora, destes últimos nem é necessário que se diga muita coisa. Basicamente alimentam a ganância de quem tomou o poder pela força; os recursos que deveriam ser de todos são desviados e canalizados basicamente para as contas pessoais dos tiranos que os protagonizam. Estes acumulam desmesurada riqueza, que inclusive depositam ou investem nos países ditos civilizados, que entretanto fecham os olhos por cinismo e falta de pudor e vergonha – Portugal é deste comportamento um triste exemplo – ao mesmo tempo que deixam morrer à fome e com falta de tudo o pobre povo que pouco ou nada pode fazer perante a força das armas. Já no tocante à querida e tão amada democracia, bem dizia alguém quando a considerava o pior dos sistemas, com excepção de todos os restantes – Winston Churchill disse mesmo que a democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas. E de facto não será difícil identificar alguns defeitos gritantes desta fórmula de organização política das sociedades, sobretudo no contexto de um mundo demasiado assente no universo do dinheiro. Basta constatar que a democracia permite que qualquer um aceda ao poder de governar, seja esse qualquer um uma barra em organização e gestão de recursos ou, pelo contrário, trate-se de um estroina desorganizado, sonhador ou até formado para os lados da desonestidade. Ao invés de conduzir ao poder de governar e orientar aqueles que verdadeiramente tivessem capacidade para tal – e que deveriam ser preparados especificamente para esse fim ao longo da vida, segundo um desígnio nacional aceite por todos como base de uma estratégia de nação no contexto do mundo no qual estamos inseridos – a democracia acaba por dar oportunidade de colocar as unhas nas rédeas do poder àqueles que são mais popularuchos e aos que demonstram ter mais lábia, mas que não são necessariamente os mais capazes. O que acontece a seguir é previsível: acumulam-se os erros de governação, gasta-se o que existe e o que ainda não foi inventado e endividam-se os povos até ao tutano, normalmente devido ao aproveitamento por parte de terceiros, mais avisados, das “potencialidades” e dos talentos destas cabeças ocas. O resultado já todos conhecemos: austeridades, pobreza, falta de tudo e de mais alguma coisa.

;
VIANuno Cláudio
COMPARTILHAR