
O Líbano foi criado com base no “Acordo Sykes-Picot”. Este acordo, entre a Inglaterra e a França, redesenhou o destroçado Império Otomano, ao sul da Turquia, nos estados que hoje conhecemos – Líbano, Síria e Iraque e de certa forma, também a Península Árabe. Durante quase 100 anos, “Sykes-Picot” definiu a região. Pode-se argumentar, com alguma razão, que os estados-nação que “Sykes-Picot” criaram estão agora defuntos, e que o que agora está ocorrendo na Síria e Iraque, representa a emergência dos mapas pós-Franco-Britânicos que irão substituir os que os Estados Unidos têm tentado manter desde o colapso do poder Franco-Britânico.
O Acordo Sykes-Picot, assim chamado devido ao diplomata francês François Georges-Picot e o seu homólogo britânico, Sir Mark Sykes, fazia duas coisas. Primeiro, criava um Iraque dominado pela Inglaterra. Em segundo lugar, dividia a província otomana da Síria numa linha do mar Mediterrâneo a leste, através do monte Hérmon. Tudo o que ficava a norte desta linha era francês. Tudo, a sul desta linha, era da Inglaterra. Os franceses, que desde o sec.19, estavam envolvidos no Levante, tinham aliados entre os cristãos da região. Eles retiraram parte da Síria e criaram um país para eles. À falta de melhor nome, chamaram-lhe Líbano, como a montanha vizinha com o mesmo nome. Os britânicos deram à área a ocidente do rio Jordão, o nome do distrito administrativo otomano da Filistina, que veio a dar em Palestina, na língua inglesa. Porém, os britânicos tinham um problema. Durante a I Guerra Mundial, enquanto s britânicos combatiam os Turcos Otomanos, aliaram-se a uma série de tribos Árabes, para conseguir expulsar os Turcos. Duas das principais tribos, hostis entre si, eram as principais aliadas dos britânicos. A ambas os britânicos prometeram poder após a guerra. Tal deu aos vitoriosos Sauds o direito de governar a Arábia – daí a Arábia Saudita. À outra tribo, os Hashemitas, já lhes tinha sido dada a recém inventada monarquia Iraquiana e, fora da Arábia, uma estreita faixa de terra cultivável, a leste do rio Jordão. À falta de melhor nome foi-lhe dado o nome de Trans-Jordão ou, o outro lado do Jordão. Com o decorrer do tempo, deixou-se cair o “trans” tornando-se Jordânia. Desta sorte, juntamente com a Síria, cinco entidades foram criadas entre o Mediterrâneo e o Tigre, e entre a Turquia e a nova nação Saudi-Arábia. Estes cinco tornaram-se seis depois de as Nações Unidas, em 1947, votarem a criação de Israel. O acordo Sykes-Picot correspondia aos modêlos europeus e dava-lhes um quadro de trabalho para gerir a região de acordo com os seus princípios administrativos. O interesse mais importante, o petróleo no Iraque e na Península Arábica, estava protegido de quaisquer sublevações na sua periferia, já que a Turquia e a Pérsia enfrentavam agitação e insurgência. Isto dava aos europeus o que queriam. O que não fez foi criar um quadro que fizesse sentido aos árabes que viviam na região. O modelo europeu de direitos individuais, imposto aos estados-nação, não se adaptava ao seu modelo cultural. Para os árabes a unidade fundamental da sociedade era a família, não o indivíduo. As famílias pertenciam a clãs, e os clãs às tribos, não a nações Os europeus usavam o conceito de estado-nação para exprimir divisões entre “nós” e “eles”. Para os árabes este era um quadro estranho que, até aos dias de hoje ainda compete com identidades religiosas e tribais. Os estados que os europeus criaram eram arbitrários, os seus habitantes não prestavam a sua primeira lealdade ao estado, e as tensões dentro dos estados, muitas vezes transbordava além-fronteiras para os estados vizinhos. Os ingleses e os franceses impuseram estruturas de governação antes da guerra e, depois, uma vaga de golpes destitui-os após a 2ª Guerra Mundial. A Síria e o Iraque tornaram-se estados pró-soviéticos, enquanto Israel, a Jordânia e os estados árabes se tornaram pró-americanos e, monarquias e ditaduras governaram a maioria daqueles países árabes. Estes regimes autoritários mantiveram os países coesos. O Líbano foi o primeiro a desfazer-se. O Líbano foi uma pura invenção de Paris, recortada da Síria. Enquanto os cristãos, para quem Paris criou o Líbano, foram o grupo dominante, a coisa funcionou, embora os próprios cristãos estivessem divididos em clãs que se combatiam uns aos outros. Mas, depois da 2ª guerra mundial, as condições demográficas alteraram-se, e a população xiita aumentou. A compor este cenário, estava o movimento de palestinianos para o Líbano em 1948. Desta forma o Líbano transformou-se no palco para os competitivos clãs. Apesar dos clãs professarem diferentes religiões, não era este facto que definia a situação. Muitos clãs, em muitos destes agrupamentos religiosos, degladiavam-se entre si, e aliavam-se com outras religiões. Além do mais, a questão libanesa não se confinava ao Líbano. A linha que dividia o Líbano da Síria era uma fronteira arbitrária desenhada pelos franceses. A Síria e o Líbano não eram um país, mas o recém-criado Líbano, também não era um país. Em 1976 a Síria, ou mais precisamente a ditadura Alauita em Damasco, invadiu o Líbano. A sua intenção era destruir os palestinianos, e o seu principal aliado era um clã cristão. A invasão síria despoletou uma guerra civil de que já havia prenúncios e que durou até 1990. O Líbano foi retalhado em várias áreas, controladas por diversos clãs. Os clãs evoluíram. O clã xiita dominante, foi construído em redor de Nabi Berri. Posteriormente, o Irão patrocinou outra facção, o Hezbollah. Cada facção religiosa tinha múltiplos clãs, e dentro de cada clã existiam múltiplos competidores pelo poder. De fora parecia uma “simples” guerra religiosa, mas tal era uma visão redutora e incompleta. Era uma competição entre clãs por dinheiro, segurança, vingança e poder. A religião desempenhava o seu papel, mas as alianças, frequentemente atravessavam as divisórias religiosas. O Estado tornou-se muito menos poderoso que os clãs. Os israelitas, com a bênção da Síria, invadiram o Líbano, para esmagar a OLP (Organização de Libertação da Palestina) e, a dado momento, os EUA intervieram, em parte para travar os israelitas. Quando, em 1983, o Hezbollah levou a cabo o ataque bombista contra o aquartelamento dos Marines em Beirute, causando a morte a centenas de militares americanos, o presidente Regan, avaliando a quantidade de poderio militar que teria de colocar no terreno, só para tentar estabilizar o Líbano, ordenou a retirada de todas as forças americanas. Ronald Regan determinou que a sorte do Líbano não era um interesse fundamental dos Estados Unidos, ainda que se estivesse em plena Guerra Fria. A complexidade do Líbano vai para além desta resenha histórica e, as intromissões externas por parte de Israel, Síria, Irão e EUA, são ainda mais complicadas. Em 1989 chegou-se a um acordo entre as facções e os seus ‘patronos’ que, em grande parte acabou com o conflito interno, e fortaleceu o estado. Mas, a final, o estado existia com a indulgência dos clãs. O mapa pode mostrar uma nação mas, na realidade é um país de microscópicos clãs, envolvidos numa microscópica luta geopolítica pela segurança e poder. O Líbano permanece um país no qual os senhores da guerra se tornaram políticos nacionais, mas sem sombra de dúvida de que o seu poder advém de serem senhores da guerra e que, sob pressão, os clãs reafirmar-se-ão.
Foi nestas circunstâncias que um tal senhor Calouste Gulbenkian se perfilou nas várias mediações pelas concessões petrolíferas, no desenho da “red line” e amealhou uns cobres.
O que aconteceu neste «redesenhar» de mapas e criação de nações foi, mutatis mutandis, o que vimos na Conferência de Berlim, onde as potências coloniais redefiniram as fronteiras africanas, em total desrespeito pelas etnias, pelos clãs e identidades tribais. E deu no que se vê. Na próxima, falaremos da criação da Síria e do Iraque. Tá prometido.



















