Um pouco de história

Opinião de António Franco

António Franco atira-se a Mariana Mortágua como gato a bofe...

25 anos depois da queda do muro de Berlim, e enquanto o mundo livre celebrava o fim da barreira de betão que separava a capital Alemã, eis que o PCP através do seu órgão oficial nos brinda com um exercício de retórica, que por ser surreal, facilmente entraria em qualquer sketch dos Monty Python.
Refere o artigo do Avante que o ocidente opressor tinha pela RDA uma espécie de inveja pelo seu desenvolvimento económico, social e cultural.
Vamos focar-nos nestes 3 pontos.
A nível económico, a RDA sempre viveu dependente dos fundos que vinham da URSS e que permitiram que o país subsistisse durante 40 anos, numa espécie de paraiso socialista. Bastou em 1989 a URSS ter cortado os apoios financeiros para o ministro da economia Gunther Mittag ter que confessar que na realidade a RDA estava em colapso financeiro há mais de 20 anos.
A economia que o Avante refere assentava em projectos utópicos, como as quintas colectivas da Rottes Banner, ou as cidades industriais como Eisenhuttenstadt, cujo maior legado foi, no caso da última, uma faixa de 50 quilómetros de nafta impregnada no solo com 3 metros de profundidade, resultante de um enorme desastre ambiental, o qual vai impedir o crescimento de qualquer planta nos próximos 50 anos. Se há quem chame a isto desenvolvimento…
Ainda no plano económico, poderíamos referir o Trabant. O Trabi foi durante 40 anos o único meio de transporte das “classes trabalhadoras”, com a particularidade de ter listas de espera médias de 15 anos, criando a anedota popular na Alemanha de Leste, “dá o nome para o carro no dia do teu baptismo, para o receberes quando fizeres 18 anos…” Calculo a inveja dos ocidentais que se deslocavam em Mercedes, mas cujo sonho era possuírem um Trabi azul produzido em Zwickau.
A nível social quero apenas referir 3 coisas. Stasi, Wandlitz e FDJ. A Stasi, abreviatura de Ministerium fur Staatssichereit (Ministério para a segurança do estado), constituiu durante 40 anos uma espécie de força controladora do povo da RDA, tendo nas suas fileiras mais de 300000 agentes, que diariamente informavam Erich Mielke de supostas atitudes subversivas, 90 por cento das quais pura e simplesmente não existiam. Foram presos durante este tempo milhares de pessoas em antigos campos de concentração como Sachsenhausen, as quais se provou depois estarem completamente inocentes. Todos os cidadãos da Alemanha de Leste tinham na sede da Stasi uma ficha descritiva das suas actividades, incluindo coisas tão simples como por exemplo com quem bebiam café. A Stasi, para demonstrar a supremacia do Socialismo, criou um programa de Doping nos atletas da RDA, que transformou atletas lindíssimas como Katrin Krabbe ou Marita Koch em “mulheres barbadas” ou no caso de Heidi Krieger, uma lançadora de peso que hoje responde por Andreas e cujo bigode é o legado mais visível do desenvolvimento Social da RDA.
Wandlitz é o exemplo acabado da mentira da RDA em termos sociais. Foi criado como uma espécie de cidade, onde cada membro do Politburo possuía uma vivenda e onde tinham regalias como cinemas com filmes ocidentais, piscinas olímpicas e lojas com todo o tipo de produtos da “capitalista RFA”.
Como exemplo do acima referido, sabe-se hoje que Erich Honecker só usava um shampoo da capitalista “Wella” por não gostar dos produzidos na “Gloriosa” RDA. O povo da RDA apelidou Wandlitz de 2 maneiras: o Gueto dos Deuses, em virtude dos elementos que aí viviam possuírem toda a espécie de mordomias, e Volvograd pelo facto de qualquer dos elementos do Politburo possuir um carro da marca Volvo, em detrimento de uma Trabant ou de um Wartburg. A FDJ (Freie Deutsche Jungend) era uma organização juvenil de cariz politico, cujos membros tinham regalias especiais. Por exemplo na RDA quem não pertencesse à FDJ não tinha permissão para entrar no ensino superior.
Por fim, a nível cultural. A RDA, à semelhança de outros regimes de leste, promoveu cantores e poetas de intervenção a ícones culturais, sendo Berthold Brecht e Krista Wolf os seus maiores exemplos.
A cultura da RDA estava condicionada à vontade de Margot Honecker, a toda poderosa ministra da educação e que “por acaso” era esposa do secretário geral do partido. Ao ler artigos como os do Avante, surgem-me duvidas e certezas. Será que nos querem fazer de idiotas? Será que, 25 anos depois, continuam a acreditar num sistema que se provou ser completamente irrealista? Mas surge-me também uma certeza: a de que para alguma esquerda portuguesa um muro não é suficiente. Alguns só serão seguros para a sociedade rodeados por 4 muros, de preferência na Avenida do Brasil.

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VIAAntónio Franco
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