
Confesso que, apesar de não comungar minimamente dos seus ideais políticos, sempre tive algum fascínio por Jerónimo de Sousa desde que assumiu as rédeas ( estou a falar em sentido figurado, claro…) do Partido Comunista Português. Depois do aristocrático e irredutível Álvaro Cunhal, que integrou aquela grande geração de líderes partidários dos anos setenta e oitenta, os últimos a quem se pode efectivamente chamar Estadistas – Cunhal, Sá-Carneiro, Soares, Adriano Moreira e mesmo Freitas do Amaral na sua versão de direita -, e depois daquele senhor que ciciava em vez de falar e era lá para as bandas da Serra da Estrela, que já nem me lembro do nome dele, a figura de Jerónimo aparecia envolta numa aura de romantismo político : o self-made man, o operário fabril que chegou a deputado e dirigente partidário, o tribuno que, sem ser doutor nem sequer ter tentado sê-lo, se apresentava na Assembleia da República com o discurso mais coerente, pragmático – no sentido de chamar as coisas pelo nome que o Povo lhes dá – , muitas vezes carregado de um humor ténue mas visível, e sempre, sempre, usando a palavra como uma bala para quem estava no Governo.
E de facto , formalmente, o PCP tem passado por alterações radicais durante a sua liderança. A gente dantes vislumbrava na televisão algumas reuniões no Hotel Vitória, e aquilo parecia mais um lar de terceira idade do que um Comité Central. Agora, continuamos apenas a vislumbrar de vez em quando, mas ficamos surpreendidos com a quantidade de jovens de ambos os sexos que lá estão. O mesmo acontece no Grupo Parlamentar ; há anos, aquela bancada parecia uma delegação do Partido Comunista Chinês ( dos tempos do Mao); agora, tem a idade média mais baixa de todos os Grupos Parlamentares. Mas há mais : onde dantes eram só operários com ar de cintura industrial, agricultores a cheirar a creolina e adubo orgânico e alguns intelectuais para desenjoar, hoje são rapazes e raparigas , doutores e engenheiros, que fazem inveja a qualquer Juventude Centrista ou JSD. Em finuras e mordomias só são ultrapassados pela rapaziada do Bloco, que esses são o crème de la crème da sociedade, que até se cumprimentam só com um beijinho na face, estilo Viscondessa de Cascais. Eu até acho que agora, nas reuniões do Comité Central, quando algum quer usar da palavra já não diz, de braço no ar : “Camarada Jerónimo, dás-me licença ?”, mas sim :” Oh Tio, posso falar ?”.
Então digam-me cá se alterações destas sob a batuta dum homem com as raízes de Jerónimo de Sousa não são um feitos notáveis.
Eu comecei a desiludir-me com Jerónimo de Sousa quando dei por mim a perceber nos seus discursos que, para ele, o principal adversário do PCP era o PS e não a direita que nos desgoverna há três anos. Essa desilusão acentuou-se quando o PCP votou ao lado do PSD e do CDS o chumbo do PEC IV, a queda do Governo Sòcrates e a inevitável entrada da Troika : ou seja, o PCP foi cúmplice em entregar a soberania de Portugal à Alemanha e ao FMI. Não sei se o PEC IV teria resolvido alguma coisa. Aliás, nunca ninguém o saberá.
Eu continuei a desiludir-me com Jerónimo de Sousa quando percebi que para ele era inviável qualquer alternativa de governação que passasse por um entendimento com o PS – experiência, aliás, feita durante dez anos em Lisboa com Sampaio e João Soares, na qual participei activamente e que tão bons resultados deu na governação da cidade. Admito que nesta matéria o PS também tenha os seus pecadilhos, mas é visivelmente o PCP que prefere deixar o País nas mãos da Direita a entender-se com o PS – pelo simples facto que isso obrigaria a cedências dum e doutro Partido e o PCP, por definição e tradição, não faz cedências.
E a minha desilusão com Jerónimo de Sousa foi total quando, há uns dias, o ouvi a responder a perguntas de ouvintes da TSF.
Para ele, o Mundo continua a preto e branco como nos tempos da Guerra Fria, numa luta constante entre os bons (eles) e os maus ( os outros). Para ele, qualquer proposta de intervenção social que não tenha origem nos Camaradas ou nos seus satélites é uma manobra, escondida ou declarada, para ir ao bolso dos trabalhadores. Para ele, qualquer ideia duma Europa mais aprofundada, mais solidária, mais interventiva e com uma identidade própria é uma tentativa imperialista de espezinhar os Países mais pobres e vender a nossa soberania ( a tal que o PCP ajudou a entregar à Troika).
Tive que concluír que, afinal, o PCP só mudou de invólucro. Por dentro mantem-se inalterado desde os tempos heróicos da clandestinidade ( ai que saudades, mesmo os mais novos, devem ter desses tempos…) . Só os compreendo, só entendo essa renovação formal que o PCP teve por uma razão : é que hoje em dia – se excluirmos os dinossauros que povoam todos os Partidos – ser comunista não é uma filosofia política; é uma reacção a qualquer coisa que correu mal na sociedade portuguesa.

















