Perplexidades

Opinião de Joaquim Ramos

1. Há uns meses travei um saudável bate- papo facebookiano com o meu amigo Eliseo Summavielle, que foi Secretário de Estado da Cultura, sobre as corridas de toiros em Portugal. Isto porque ambos somos aficionados e porque cada um de nós, ele como Secretário de Estado e eu como membro da Secção dos Municípios com Tauromaquia da Associação Nacional de Municípios, defendemos a corrida integral em Portugal – isto é, a morte do toiro na Arena. Defendi-o e defendo-o por razões históricas e por razões humanitárias. Sim, por razões humanitárias, por mais estranho que vos pareça. E exemplifiquei com Espanha, em que o toiro – como cá- é o animal mais livre e feliz criado pelo homem, depois ao fim de quatro anos de liberdade plena tem os seus dez minutos para que foi criado e morre. E rematei, numa linguagem que o meu amigo Eliseo considerou exagerada, com a frase ” Em Portugal, depois da lide, inicia- se o maior processo de selvajaria possível”. Mantenho o que escrevi porque sei do que estou a falar : naquelas quarenta e oito horas que separam a saída da praça até ao abate num matadouro, os animais são sujeitos a tormentos inenarráveis; vá, choquem-se lá e remexam- se nas cadeiras, mas arrancam- lhes as bandarilhas, injectam- nos directamente com desinfectantes e antibióticos inserindo- lhes as borrachas nas feridas, obrigam- nos a mover- se a aguilhão ou choques eléctricos. Mas os Portugueses são assim : o que não se vê não existe e tudo bem. Por isso é que as Associações anti-taurinas se estão nas tintas para os porcos e vitelos que são confinados toda a vida a meio metro quadrado, para engordarem mais rapidamente, para as galinhas poedeiras à média de dez por metro quadrado, em gaiolas de vários andares tipo Brandoa, com os pés toda a vida sobre rede, para as lagostas a serem cozidas vivas e outros primores da civilização. Ninguém vê, adiante, não interessa. O que interessa é berrar contra as touradas, que essas vêem- se…
Ora umas semanas mais tarde começo a receber insultos no meu facebook, publicos e privados, dirigidos a mim e à família toda, especialmente à minha mãe. Eram insultos de “amigos” virtuais aficionados. Até que um amigo me telefona a dizer que Lisboa estava coberta de cartazes dum tal Partido dos Animais com a minha frase acima referida e a minha identificação – cartazes que ainda hoje por lá se encontram sem me terem pedido autorização, com a frase completamente descontextualizada e sem eu ter hipótese de retorquir, pois, como me disse um advogado, a única coisa que conseguia com uma acção era dar- lhes publicidade e tempo de antena. Não admira que os meus amigos aficionados me tenham chamado, na versão mais soft, traidor !
2. Soube- se esta semana que a ex-Ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues foi condenada a três anos e meio de prisão ( pena suspensa ) e a pagar uma multa de trinta mil euros ao Estado. Soube-se há quinze dias que um sucateiro que ofereceu uns robalos a um político- não sei se simples se recheados…- foi condenado a dezassete anos de prisão, mais do que a pena dum crime de homicídio. Na minha opinião, estes casos reflectem a cedência do Poder Judicial ao populismo e ao julgamento na praça pública. Um escândalo! Os senhores Juízes querem intervir politicamente e serem populares sem se sujeitarem ao voto do Povo. Não falo sobre o caso da sucata e dos robalos,varas,penedos e companhia porque sei pouco do assunto.
Mas sei que a professora Maria de Lurdes Rodrigues foi escolhida não por qualquer compadrio ou fidelidade políticos mas pela sua competência e integridade, reconhecidas unanimemente em toda a Universidade Portuguesa. Sei que teve a coragem de enfrentar um lobby poderosíssimo representado por um militante do PCP que não deve saber o que é dar uma aula nos últimos vinte anos. Sei que fez um grande trabalho na Educação – devemos-lhe a nova Escola de Manique- e encarou a escola como uma estrutura ao serviço dos alunos e educadores e não como um baluarte de defesa dos interesses corporativos dos professores. Sei que foi deixada caír por José Sócrates – os professores são muito voto- que a trocou por uma senhora, muito boa senhora e escritora infantil, que ao fim de quinze dias tinha cedido a tudo quanto era reivindicação dos professores.
Mas não bastava ! Tinham que crucificar a mulher! Vai daí, pegaram num ajuste directo que tinha feito com um Gabinete de Advogados, e toca de lhe mover um processo. Num pequeno aparte, desafio os leitores a descobrirem o anuncio de algum concurso publico feito pelo Governo ou por Autarquias para contratar Advogados. Nada, é tudo por ajuste directo, que a Lei permite- o.
Então, num processo vergonhoso, a Justiça descobriu que o Advogado era irmão dum militante do P S ( crime de lesa majestade ) e que até o companheiro da senhora, também professor, tinha sido o orientador da tese dum outro advogado que também fazia parte do gabinete contratado. Leiam o acórdão que já corre no facebook : dá vontade de rir se não fosse um caso tão sério. Uma vergonha!
3. Perguntarão os meus amigos : mas que raio tem a ver as touradas com a ex – ministra da Educaçã ? Pois nada, para além do facto de que em ambos os casos estão patentes fenómenos da sociedade portuguesa que têm minado a nossa Democracia, desacreditado as nossas Instituições mais respeitáveis e, em última análise, empurrado Portugal para o abismo em que se encontra e do qual não se vislumbra a saída. No primeiro caso, a impunidade no uso distorcido da palavra dum cidadão, o faz-de- conta, a hipocrisia e o cinismo. No segundo, a cedência do Poder Judicial à ” justiça ” popular, a inveja por quem por qualquer razão sobressai e o revanchismo à solta nas instituições. Desculpem, mas hoje estou muito negativo. Prometo que a próxima crónica vai ser côr- de- rosa ( sem qualquer conotação partidária, anh…).

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VIAJoaquim Ramos
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