Fundamental: 21 anos depois

Opinião de Nuno Cláudio

Primeira edição impressa do Fundamental data de 1 de Outubro de 1993

Quando fundei este jornal em Outubro de 1993 jamais me passou pela cabeça que viesse a assinalar 21 anos de existência. Na verdade, quando temos 22 anos de idade e fundamos um jornal – o que, como se sabe, é comum e recorrente por aí… – não pensamos em mais nada a não ser no próprio e nos dias seguintes. A ideia que na altura presidiu ao aparecimento do Fundamental tinha a ver sobretudo com a necessidade de ter o meu próprio projecto, após 4 anos de rádios como profissional, que me tinham proporcionado conhecer o outro lado da barricada – ou seja, trabalhar para projectos concebidos e liderados por outros. Na altura fundar um jornal era um tremendo de um desafio. Os telemóveis que haviam assemelhavam-se a tijolos de 14, internet era ficção científica e os computadores da altura eram mais lentos que a velha burra do meu saudoso avô Zé, que levava duas horas a chegar à vinha, a três quilómetros de casa. Mesmo assim o Fundamental veio à luz, enfrentou todos os obstáculos que se lhe depararam e fez o caminho que o trouxe até aos 21 anos de vida. Sempre enfrentou concorrência; a esmagadora maioria não durou mais que dois a três anos em média, e os que subsistiram ficaram moribundos e viram goradas as tentativas de imitar a sua linha editorial. O Fundamental sempre viveu das suas receitas próprias provenientes da publicidade, e de mais nada. Nunca teve uma rádio, um mecenas ou uma associação do que quer que seja a suportá-lo. Foram alguns os projectos que neste periodo de tempo apareceram para destronar o Fundamental, um ou outro assumindo mesmo esse propósito, normalmente financiados por muitas promessas vindas naturalmente de quem não pode com o Fundamental nem à lei da bala, promessas que depressa se revelaram vans quando, com o tempo, esses jornais também deram a perceber que as suas limitações nunca lhes proporcionariam chegar sequer aos calcanhares do impacto do Fundamental na região que abrange.
Desculpem-me a arrogância da primeira parte da minha opinião deste mês, caros leitores, mas mais não estou que a tratar a verdade pelo seu próprio nome. Foi mesmo assim que as coisas aconteceram desde 1993 – e, de certa forma, continuam a acontecer. O Fundamental assumiu uma linha editorial corajosa, independente, atenta e interveniente e desde logo instalou-se a confusão nos regimes existentes na altura. João Benavente e Álvaro Pedro odiaram – e odeiam – o Fundamental, que pôs a nú muitas das trafulhices que sucederam nos seus mandatos à frente dos destinos de Azambuja e Alenquer. Naquele tempo chegaram a afirmar/perguntar em público: “mas não há nenhuma lei que permita fechar este jornal?” Claro que haviam, no passado, mas tinham sido extintas em Abril de 1974. Só que eles ainda não sabiam, não obstante estarmos em plena década de noventa. Viviam e governavam como se de representantes do antigo regime se tratassem e não conviveram nada bem com a irreverência do jovem Fundamental, então a dar os seus primeiros passos.
Hoje o Fundamental é um jornal mais adulto, como diria António Franco no seu artigo de opinião desta edição. Mas mesmo assim tem “apenas” 21 anos de vida, pelo que ainda é jovem, e por conseguinte não perdeu a irreverência. Tem agora uma grande vantagem: muita experiência. Já viu quase tudo, já passou por tanto que agora pouco ou nada teme, já nada o atormenta ou assusta. Questão financeira? Irrelevante, até um desafio saudável que se enfrenta com um sorriso rasgado. Tribunais? É para o lado que dorme mais tranquilo. O maior dos desafios prende-se mesmo com a capacidade de renovar em permanência a motivação para ouvir invariavelmente os mesmos discursos, os mesmo cenários políticos e as mesmas… faltas de tudo e mais alguma coisa. Mas para ajudar nesse contexto estão os leitores fantásticos, que consomem milhares e milhares de fundamentais todos os meses. Só no Intermarché do Carregado são entre 700 e 1000 exemplares por edição, em cerca de 5 ou 6 dias. Leu bem, caro leitor: entre setecentos a mil jornais. Por edição. Qualquer concorrência não vende ou distribui mais que uma dúzia de exemplares na papelaria deste estabelecimento, e estou a ser generoso. No Intermarché de Azambuja são entre 400 a 500 os exemplares distribuídos por edição. Em Aveiras de Cima, cerca de 300 a 400 e em Abrigada e Merceana sempre entre 150 e 200 exemplares. Em Azambuja esgota quase sempre no próprio dia. Um senhor, que conheço desde os meus tempos de escola mas cujo nome me escapa (é uma daquelas figuras de Azambuja que toda a gente conhece), disse-me há dias: “O Fundamental está tão enraizado na cultura de Azambuja como está a Feira de Maio”. Para quem conhece o apego dos azambujenses pela sua feira, esta opinião é profundamente elogiosa. No Carregado e em Alenquer desaparece em poucas horas e nas papelarias e locais de distribuição pedem-nos sempre que deixemos mais quantidades, por haver clientes que reservaram “encomendas” (pedem para os nossos distribuidores lhes guardarem um exemplar, para não correrem o risco de não encontrar o Fundamental). Em Manique do Intendente a praça esvaziou em três tempos quando a carrinha de distribuição parou à porta numa destas manhãs de sábado; as senhoras pediam um jornal e acompanhavam o pedido de elogios ao Fundamental, facto que causou a estupefacção do nosso distribuidor, que fazia aquele trabalho pela primeira vez. O caso repetiu-se em Vale da Pinta e na Ereira, e quando chegámos ao Cartaxo já o Bruno estava rendido à força do Fundamental. “As pessoas gostam mesmo do Fundamental, Cláudio, nunca imaginei. Parabéns”. Obrigado, ao Bruno e a todos os nossos leitores. Para vocês… vamos lá viver mais 21 anos!

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VIANuno Cláudio
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