A prática comprova o crime

Opinião de Nuno Cláudio

Uma das respostas de Fernando Amorim aquando da entrevista que concedeu ao Fundamental, e que publicamos nesta edição, constitui no meu ponto de vista um hino às vantagens do serviço público quando comparado com a prestação do mesmo serviço por empresas privadas. Afirmou o Fernando que a Câmara Municipal, depois de chamar à sua responsabilidade a recolha de resíduos sólidos no município, consegue uma poupança que lhe permite a cada 19 meses que passam adquirir uma viatura nova destinada à prestação desse mesmo serviço. Ou seja, com a economia conseguida por assumir o trabalho que outrora dava a uma empresa privada, a autarquia cartaxeira alcança uma poupança que a leva a ter capacidade financeira para ir paulatinamente renovando a frota da recolha do lixo. Esta resposta, aparentemente simples, acaba no meu ponto de vista por ser a prova evidente de que as autarquias semearam nos últimos anos o desgoverno e o desbaratar dos dinheiros públicos. De uma forma incompreensível, quem nos tem (des)governado conduziu a administração pública local para um cenário que é difícil de entender à luz da lógica que deveria imperar quando se trata de gerir a causa de todos tendo em conta o interesse colectivo. Por um lado, aumentaram em alguns casos desmesuradamente a quantidade de funcionários públicos, muitas vezes atolando os serviços de pessoas sem uma função definida, apenas porque caiu bem atribuir um emprego a um familiar, a um amigo ou a alguém como contrapartida de uma qualquer ajuda em tempo de eleições. Por outro, livraram a administração pública de responsabilidades de execução, passando para a mão de privados serviços de proximidade, que acabaram por custar os olhos na cara aos contribuintes de ambas as formas – têm que pagar o serviço prestado pelos privados e ainda vêem as autarquias com cada vez mais funcionários, parte deles em excesso. Tem sido o galope do descalabro. A conclusão a que o vice-presidente da autarquia cartaxeira chegou é a prova provada – passe o pleonasmo – de que as autarquias estão, de um modo geral, pessimamente geridas. O autarca-tipo dos tempos modernos é assim uma espécie de manda-chuva com muita basófia: manda vir cada vez mais funcionários para fazer cada vez menos trabalho, gastando a dobrar o dinheiro que cada vez existe menos. De um modo geral perdeu o controlo sobre áreas cruciais como o fornecimento de água ao domicílio, o saneamento e a recolha de resíduos sólidos. Mas em contrapartida admitiu nos gabinetes das câmaras mais um punhado de gente para fazer não se sabe bem o quê. Recorre permanentemente a pareceres jurídicos acerca de tudo e mais alguma coisa entregando tal serviço à prestação executada por escritórios externos, quando nas próprias autarquias trabalham advogados e juristas que, para lá serem admitidos, concerteza que terão de ter capacidades. Se pegarmos neste simples exemplo comprovado pelo vice-presidente da Câmara Municipal do Cartaxo, não é dificil imaginar os muitos milhares (milhões?) de euros que as autarquias poderiam poupar caso assumissem a prestação destes serviços essenciais, continuando a apostar na valorização das chefias internas como motivadores de equipas formadas por funcionários locais, também eles com formação para garantir a prestação destes serviços de proximidade. Quantas frotas poderiam ser renovadas? Quantas colectividades e instituições poderiam beneficiar do produto desta poupança? Ou, mais adequado aos tempos que vivemos, quantos empréstimos e buracos seriam evitados com uma gestão desta natureza? A pergunta fica no ar, perante a evidência. O que tem faltado à administração pública local, de um modo geral, tem sido gente com capacidade e talento para o governo da causa pública. Infelizmente o povo, na hora de votar, muito poucas vezes é orientado por valores que tais, preferindo amiúde o fanfarrão popularucho que tem muita lábia mas pouca ou nenhuma capacidade. E quem não tem capacidade para gerir empurra com a barriga; dá para outros fazerem aquilo que manifestamente não tem unhas para executar. É um problema sério deste sistema democrático. O paraíso dos fanfarrões, com o povo enterrado em milhões de dívidas e uma sociedade à beira da ingovernabilidade.

O cão do Benavente. O meu grande amigo e saudoso autarca João Benavente foi à Assembleia Municipal de Azambuja a 22 de Julho afirmar que nem o seu pobre cão já consegue beber água dos canos públicos de Azambuja, de tão má e insalubre que a dita cuja é. Como eu compreendo o meu amigo! Aliás, também tenho em casa um problema idêntico com o meu cachorro que, por mais que eu insista, se recusa a gostar de heavy metal. Até lhe comprei uns auscultadores de qualidade superior e dei-me ao trabalho de lhe dar a ouvir o melhor das discografias dos Maiden, AC/DC e Helloween, mas o danado fica no estado que a fotografia documenta… o problema do meu cão é que facilmente esqueceu os tempos em que era um pobre cachorro abandonado e que só ouvia chiadeira de pneus de automóvel a travar a fundo para não o atropelar, e agora está de tal forma snob e fino que só quer escutar grandes compositores em aparelhagens hi-fi de sublime impedância. Pobre cão, o meu, que esqueceu depressa as origens… Não sei se será o caso do seu, amigo Benavente, mas dou-lhe um conselho, que resulta sempre com estes cãezitos armados em pavões: deixe-o sem beber água um dia ou dois até ele aprender o que custa a vida, e vai ver que ao fim desse tempo a água da torneira até lhe vai saber a Luso. É garantido.

Se o Luís ao menos tivesse jeito para cantar. O meu outro amigo e (não saudoso porque está no activo) autarca Luís de Sousa referiu-se à minha pessoa empregando a palavra “cantante” num determinado contexto, que não interessa agora revelar. Para não me alongar muito apenas lhe digo, caro presidente: tivesse você ao menos também algum jeitinho para cantarolar alguma coisita e não teria perdido a maioria absoluta e dois vereadores que o seu antecessor conquistou com facilidade em duas eleições consecutivas. Digo eu, a cantarolar…

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VIANuno Cláudio
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