Paracêntimos

Opinião de Nuno Cláudio

A Câmara está hoje entregue a uma equipa de gestão inexperiente em termos políticos, excessivamente encarcerada em gabinetes, onde é notória a ausência de uma figura com carisma político que devolva às populações do concelho a ideia de que há um líder que orienta a governação dos destinos do seu concelho - curiosamente, pese todos os defeitos que tinha, Álvaro Pedro pelo menos nesse particular era carismático e marcava presença, nem que fosse para coleccionar "alembrancinhas"

A Câmara de Alenquer convidou as freguesias do município a pronunciarem-se sobre uma proposta no minimo original, no contexto dos transportes escolares que são garantidos pelas carrinhas das juntas e pagos (às mesmas juntas) pela Câmara. A proposta, assinada pelo vereador e vice-presidente Rui Costa, avança com dois valores distintos por cada quilómetro percorrido: o mais baixo, de 53 cêntimos, destina-se às freguesias cujas carrinhas já estejam completamente pagas. O outro, de 58 cêntimos também por quilómetro, tem como destinatárias as freguesias que ainda estejam a pagar as carrinhas ao banco ou a uma qualquer instituição de crédito… Bom, quando uma carrinha efectua um serviço de transporte, seja em que freguesia for, é suposto que venha a ter um custo idêntico relacionado com combustíveis, revisões e despesas relacionadas, pelo que esta diferença dificilmente encontra uma explicação lógica, a não ser na imaginação fértil do experimentalista vice-presidente. Seria uma proposta compreensível, por exemplo, num município junto à fronteira com a vizinha Espanha, no qual algumas freguesias pudessem estar geograficamente beneficiadas para aceder às bombas de combustível espanholas em detrimento de outras, mais de interior, que não tivessem outro remédio senão arcar com a roubalheira do preço dos gasóleos e afins em Portugal. Nesse caso talvez se justificasse uma diferenciação, mas mesmo assim seria discutível à luz da lógica que deve imperar nestas decisões – afinal, os portugueses devem abastecer em Portugal, os espanhóis em Espanha e os coreanos do norte na Coreia do… não, este exemplo não é apropriado, porque os coreanos do norte nem dinheiro têm para comer, quanto mais para comprar carro, que também não o podem comprar por não estarem autorizados pelo regime. Vida triste… Voltemos a Alenquer: claro que eu suponho qual tenha sido o princípio que norteou Rui Costa nesta ideia pioneira de diferenciar os valores da proposta que pretende apresentar às freguesias. O vereador, e vice-presidente, considera que as juntas que ainda estão a pagar as carrinhas precisam de receber mais dinheiro para compensar a mensalidade das mesmas. As outras, que já têm as carrinhas pagas, não precisam de receber tanto por cada quilómetro feito… e como eu sei que a esta hora já haverá quem esteja armado de sorriso amarelo com este raciocínio de lógica absolutamente… original, convém que façamos aqui um mero exercício de matemática simples, para apurar as diferenças que hipoteticamente resultam desta originalidade. Supondo que duas carrinhas de duas freguesias diferentes percorram 3 mil quilómetros por mês cada uma, haverá uma diferença de 1800 euros anuais entre a que recebe 53 cêntimos e a que vai beneficiar dos 58 cêntimos por quilómetro. O que significa que na prática a Câmara estará a beneficiar as freguesias que ainda estão a liquidar créditos referentes às carrinhas, já que em boa verdade esta verba extra ajudará a pagar a mensalidade, se não é que chega mesmo para as pagar na íntegra. Ora bom, a questão é que, quando as freguesias que hoje têm carrinhas pagas estiveram com o encargo das mesmas às costas, a Câmara não fez esta mesma distinção, o que significa que as juntas que estão nesta situação acabam por ser penalizadas… por já terem liquidado os empréstimos de aquisição das suas viaturas. Acresce que estas carrinhas são, por lógica, mais antigas do que as que ainda estão a ser pagas às financeiras, e por conseguinte exigem mais despesas de manutenção para fazer os mesmos quilómetros, já que provavelmente terão cessado as garantias de fábrica e em alguns casos requerem investimentos avultados para estarem de acordo com as regras exigentes que são impostas às viaturas que efectuam transportes escolares. Ou seja, se não gastam com mensalidades acabam por ter de dispender com outras despesas, pelo que os custos inerentes serão idênticos, de grosso modo. Nesta perspectiva, esta ideia de diferenciar os pagamentos não faz de todo qualquer sentido e muito possivelmente as freguesias encarregar-se-ão de explicar isso mesmo ao vice-presidente da Câmara de Alenquer. A minha dúvida prende-se com a disponibilidade do vereador, ou da maioria na Câmara, para ouvir algumas freguesias ou mesmo quem quer que seja. Pouco falta para que esteja cumprido um ano sobre a eleição do actual executivo, que com muita naturalidade veio criar renovadas expectativas em todos os habitantes do município, mesmo naqueles que à partida são cépticos por definição de feitio. Mesmo tendo em conta que vivemos tempos exigentes e acrescentando que a autarquia estava (e está) um dó de alma quanto à sua situação financeira, seria de esperar – eu, pelo menos, tinha essa expectativa… – que ao cabo de todo este tempo houvesse um sentimento generalizado de que algo tinha mudado, e para melhor, na governação e na orientação da edilidade. A verdade é que não oiço, em lado algum, qualquer opinião nesse sentido, seja em que quadrante for. Mais preocupante ainda, é aos próprios simpatizantes socialistas a quem oiço mais lamentos, mais sinais de desapontamento e de indiferença para com o trabalho (não) realizado. A Câmara está hoje entregue a uma equipa de gestão inexperiente em termos políticos, excessivamente encarcerada em gabinetes, onde é notória a ausência de uma figura com carisma político que devolva às populações do concelho a ideia de que há um líder que orienta a governação dos destinos do seu concelho – curiosamente, pese todos os defeitos que tinha, Álvaro Pedro pelo menos nesse particular era carismático e marcava presença, nem que fosse para coleccionar “alembrancinhas”. Alenquer já vivia, em meados do ano passado, uma situação complexa e exigente ao nivel da sustentabilidade da sua Câmara Municipal, e essa realidade requeria uma liderança com outra estaleca após as eleições de Outubro. Não me parece que tal tenha ocorrido. Ainda por cima identifico aqui e ali sinais evidentes de vaidade desproporcionada e de alguma ambição fora de contexto, tendo em conta que o momento presente exige sobretudo sensatez em proporção similar ao talento e à capacidade que, em boa verdade, ainda está longe de dar mostras de existir.

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VIANuno Cláudio
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