Pobres e loucos – II

O paradoxo de parecer desejoso de enveredar pela guerra, apesar de todos os cálculos racionais, pode ser o fundamento para se evitar a guerra.

Joaquim Castro

Com a jogada de pobres, loucos e ferozes, temos o “eterno” problema nuclear norte-coreano. Na realidade, nunca chega a produzir uma arma nuclear, mas ninguém pode ter a certeza de que a arma poderá, ou não, ser produzida. Devido à convicção generalizada de que os norte-coreanos são ‘loucos’, é largamente consensual que eles poderão apressar-se a concluir o fabrico da sua arma, e se lancem numa guerra à menor provocação. O resultado é os E.U.A., Rússia, China, Japão e Coreia do Sul, em permanentes rondas negociais com a Coreia do Norte, para tentar persuadi-la a não cometer nenhuma loucura. Interessante constatar que a Coreia do Norte, nunca faz nada de significativo e perigoso ou, pelo menos, não suficientemente perigoso para quebrar o padrão. Desde o fim da guerra da Coreia, a Coreia do Norte tem sempre, cuidadosamente, calculando as suas acções, planeando-as no tempo de modo a evitarem qualquer movimento que possa forçar uma reacção musculada. Vemos estes cuidados incorporados no seu programa nuclear. Depois de mais de uma década de uma muito publicitada ferocidade, os norte-coreanos nunca chegaram perto de produzir uma arma nuclear. Mas, já que se os incomodarmos demasiadamente, se calhar até o podem fazer, a melhor aposta é andar em bicos dos pés, e ver se é possível convencê-los com jeitinho a não cometerem nenhuma loucura. O posicionamento do Norte é soberbo: acção de risco mínimo, suficiente para emprestar credibilidade à sua ferocidade e loucura, rodeada de infindáveis ameaças retóricas que posicionam a Coreia do Norte a ser considerada, aos olhos das grandes potências, como uma forte ameaça global. Tendo conquistado esta posição, a Coreia do Norte não a vai arriscar, mesmo que um líder de vinte e poucos anos se ponha a urrar ameaças. Ao longo dos anos, os E.U.A., Japão e Coreia do Sul têm-se virado para a China, para que ela intervenha a persuadir a Coreia do Norte a não tomar nenhuma medida precipitada. Este padrão diplomático estabeleceu-se tão firmemente que se questiona sobre qual será o papel actual da China nisto tudo. Neste momento, a China está envolvida em disputas territoriais com aliados dos E.U.A., nos mares da China, a sul e a este. Se alguém irá, ou poderá ir, para uma guerra por causa de umas quantas ilhas nestas águas é duvidoso mas, mesmo assim, a questão é de levar em conta. Os chineses e os japoneses, ultimamente, têm estado particularmente hostis no seu relacionamento. Uma crise na Coreia do Norte, especialmente uma em que o Norte teste uma arma nuclear, inevitavelmente iniciaria a dança diplomática, na qual japoneses e americanos pedem aos chineses que intercedam junto da Coreia do Norte. E os chineses dizem que sim. Tal não requer um grande esforço já que, tendo já detonado um engenho nuclear, o Norte não está interessado em fazer muito mais. Com efeito, Pyongyang estará concentrada na ‘chuva radioactiva’ durante algum tempo. A China não irá cobrar quaisquer facturas aos norte-coreanos e, americanos e japoneses, aterrorizados com o que poderão fazer a seguir os ferozes, fracos e loucos norte coreanos, ficarão agradecidos à China por esta despoletar a ‘crise’. E quem poderia ser grosseiro a ponto de levantar questiúnculas acerca de comércio ou ilhotas inconsequentes, quando a China usou o seu poderio para “forçar” a Coreia do Norte a amansar? É-nos impossível saber o que pensam os chineses, nem temos bases credíveis para assumir que os chineses e os norte-coreanos estejam colaborar entre si, mas notamos que a China tem vindo a demonstrar um cada vez maior interesse em estabilizar a Coreia do Norte. Por seu lado, a Coreia do Norte tende a encenar estas crises – e as subsequentes intervenções chinesas

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VIAJoaquim Castro
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