O paraquedista infeliz

Opinião de Nuno Cláudio

A expressão não foi da minha autoria, mas gostei particularmente da oportunidade da mesma, proferida por um director da Associação Desportiva do Carregado, numa alusão a uma frase inoportuna de Rui Costa, vereador do desporto na Câmara de Alenquer.

A expressão não foi da minha autoria, mas gostei particularmente da oportunidade da mesma, proferida por um director da Associação Desportiva do Carregado, numa alusão a uma frase inoportuna de Rui Costa, vereador do desporto na Câmara de Alenquer. Perante o lamento dos dirigentes da ADC, Costa saiu-se com esta: “Se aquilo não é viável, então que fechem a porta”. Bom, é impressionante a falta de sensibilidade de um governante local perante a situação de extrema dificuldade por que passa uma das mais representativas colectividades da região, sinal de que este senhor não está, de todo, preparado para o cargo que desempenha. O mais decepcionante de registar é que este executivo não conseguiu romper com uma certa forma de estar que foi apanágio nos mandatos anteriores, que fez escola em algumas câmaras da região e que se resume a uma estranha tendência para considerar as colectividades assim como uma espécie de bicho papão, dirigidas por gente que não faz mais nada do que pedinchar dinheiro para depois desbaratar em coisas supérfluas como garantir actividade desportiva para centenas e centenas de jovens, que de outra forma andariam por aí perdidos à mercê das tentações da sociedade. “Lá vêm eles pedir dinheiro”, parece ter sido a linha de pensamento que imperou pelos gabinetes de decisão de muitas autarquias, com especial destaque para a Câmara de Alenquer no tocante à Associação Desportiva. A desculpa centra-se invariavelmente no futebol sénior, que acaba sempre por ser a tecla que leva mais pancada, visto frequentemente como a fonte de todas as desgraças, a ponto de se chegar a fazer a clara distinção de que os apoios são exclusivamente para a formação. Ou seja, investe-se para formar o jovem jogador com vista a que um dia possa vir a ser um jogador adulto, mas quando chega à idade adulta adquire esse rótulo tremendo de sénior e passa a ser visto como uma fonte absorvente de dinheiro. O Carregado foi, ao longo dos anos, trepando no futebol da região e até à época passada era o exemplo de um clube que muitos, mas mesmo muitos municípios desejariam ter a representar as suas cores: tinha uma equipa sénior no campeonato nacional da segunda divisão, e tinha uma equipa junior também no campeonato nacional da segunda divisão, o que fazia com que tudo o que era jogador jovem num raio de muitos quilómetros visse a ADC como um clube de topo, de referência. Mas o mais intrigante é que a esta ascenção correspondia na câmara um sentimento antagónico de indisponibilidade crescente para com a Associação Desportiva, como se o sucesso da própria ADC pusesse a nu a incompetência dos executivos de catapultar o concelho para um patamar de idêntica notoriedade. Só esta ciumite primária pode justificar o virar de costas da autarquia para com esta colectividade, consubstanciado no retirar de uma parte importante do subsídio anual que vai canalizado para o pagamento do relvado sintético, com o pretexto de que não pode dar à ADC duas vezes o mesmo subsídio, como se não se justificasse em 2009 a atribuição de uma ajuda suplementar aquando da participação do Carregado numa jornada histórica como foi a disputa da Segunda Liga Profissional de Futebol, que também levou mais longe os valores do concelho, ajudando a promovê-los em todo o país. O que verdadeiramente me intriga é esta ideia alimentada pelos senhores da câmara, presidentes e outros paraquedistas, que se acham no direito de apontar o dedo aos dirigentes associativos, dando a entender que são gestores de dinheiro de qualidade duvidosa, quando estes dão o corpo às balas de forma gratuita e desinteressada para que muitas centenas de jovens possam praticar desporto, uma função que o estado e concretamente as câmaras são manifestamente incapazes de garantir, ao passo que eles próprios não fazem nada nas autarquias sem ser a troco de chorudos salários e demais mordomias, desbaratando dinheiro sem fim em obras e esquemas muitas vezes inúteis e que nada acrescentam à qualidade de vida das pessoas, deixando buracos financeiros que terão que ser pagos pelas gerações vindouras, sobrelotando gabinetes e secções da autarquia com empregos desnecessários muitas vezes atribuídos a familiares e amigos. Para isto tem que haver dinheiro, o tal que faltará inevitavelmente nas colectividades, por exemplo. É a administração local que temos, caro leitor, e que parece continuar a fazer escola nos dias que correm.

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VIANuno Cláudio
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