
No passado dia 13 de março a Coligação Pelo Futuro da Nossa Terra (Azambuja) apresentou uma proposta no sentido de ser atribuída a Medalha de Mérito Municipal – Grau Ouro aos antigos e ao actual presidente da Câmara Municipal. Diz a proposta que “o significado democrático do sentido de serviço público que cada presidente de Câmara Municipal de Azambuja demonstrou merece ser publicamente reconhecido – e ao fazê-lo presta-se a melhor homenagem ao poder local, à democracia e a todos os autarcas”. Bom, os meus habituais leitores já sabem o que penso destas homenagens, autênticos desfiles de pavões que se auto-reconhecem por um serviço prestado no âmbito de funções para as quais concorreram e as quais exerceram com absoluta normalidade e vulgaridade. Vamos lá ver: quando alguém se candidata a presidente de câmara já sabe de antemão que vai exercer um conjunto de funções que são inerentes ao cargo e que por si só não são passíveis de ser considerados feitos excepcionais. Um presidente de câmara alcatroou uma estada? Construiu um equipamento público, como um pavilhão, um ATL ou uma escola? Requalificou um determinado espaço urbano, ou organizou os serviços da autarquia? Mérito, sem dúvida, mas são obrigações que cabem no rol de tarefas no contexto da função para a qual se candidatou e que são expectáveis na acção de um presidente de câmara. Galardoar alguém por ter cumprido a sua função parece-me excessivo, mas ao mesmo tempo compreensível nesta cultura de pavões de meia tigela. Que a proposta tenha surgido da cabeça de António Jorge Lopes a mim não espanta, pois o homem não dá ponto sem nó e já está a imaginar-se presidente da autarquia em 2017 – coitado; vive a sonhar com isto… – e nessa altura, assim tipo uma semana depois de ser eleito (pensa ele) há-de haver um vereador da Coligação que proponha a medalha para o doutor, com o argumento de que os outros também têm por proposta do próprio – quem não o conhecer que o compre… O que me deixa verdadeiramente boquiaberto é a medalha a Luís de Sousa, no cargo há apenas meia dúzia de meses, e ainda por cima com o próprio a votar a proposta para atribuição da sua própria medalha.
Nem há palavras, caro leitor. Numa autarquia que não tem mais do que 30 euros em conta, como afirmou o próprio presidente há dias; numa autarquia que se dá ao trabalho de colocar um funcionário a telefonar para um jornal a perguntar se a respectiva edição já estava a circular por causa de um anúncio de… 100 euros a um dos maiores certames do concelho, constatarmos que anda aqui um bando de gente principescamente paga pelos impostos do povo a perder tempo a auto-reconhecer o seu mérito, é de gritos. Não consigo falar de António José Rodrigues para trás, incluindo do próprio, já que se tratam de tempos que já fogem à minha memória de criança. Mas recordo-me perfeitamente (oh, se recordo…) de João Benavente e também, naturalmente, de Joaquim Ramos. Reporto-me a Benavente para perguntar: mas alguém em consciência e no seu perfeito juízo considera que este homem merece uma medalha de mérito, ainda por cima grau ouro, por ter desempenhado as funções de presidente da Câmara de Azambuja? (Alguém em consciência e no seu perfeito juízo excepto António Jorge Lopes, bem entendido, pelas razões já expostas). O que fez de extraordinário João Benavente para que o município vá gastar um ror de dinheiro numa medalha de mérito para lhe pendurar ao pescoço? É que nem vale a pena gastar espaço nesta página a falar do que ele não fez, do pouco que fez e das muitas asneiras que assinou. Basta recordar esses anos “fantásticos” de Benavente para perceber que não houve mérito, que não se registou nada de excepcional e que os mandatos que protagonizou foram caracterizados pelo sofrível, pela vulgaridade e, em boa verdade, pelo caciquismo e pelo desgoverno, conforme o Fundamental demonstrou durante anos. Já Joaquim Ramos poderá ter tido o mérito de governar introduzindo um factor que estava arredado dos mandatos anteriores de Benavente: fez alguma obra. Mas não foi para tal que o homem foi eleito, caramba?? E ainda por cima, aliada à obra, deixou uma dívida que terá que ser paga pelos autarcas que vierem a seguir. Ou seja, fez obra que não pagou e que vai ser liquidada por outros, com o dinheiro do povo. Onde é que está o mérito excepcional deste género de acções??
Bom, o problema deve ser meu, caro leitor. Eu vejo mérito é, por exemplo, na acção de um homem como o prior António Cardoso, que herdou uma fortuna de 250 mil euros e doou a mesma na sua totalidade para a comunidade, para além de ter dedicado toda a sua vida em prol dos interesses dos seus paroquianos. Isto sim, é que é Mérito Grau Ouro. Ou então todas as mães que trabalham e depois de chegar a casa cansadas ainda têm que cozinhar, limpar, passar a ferro e tratar dos filhos, numa azáfama contínua que não conhece sábados, domingos, feriados ou dias santos. Ou então aos avós, que cuidam dos netos e ainda amparam os filhos, muitas vezes a esticar reformas até aos limites, outras vezes hipotecando o seu próprio e merecido bem estar para acudir ao estilo de vida dos mais novos, também eles entalados por esta espécie de pavões pobres de espírito, que deram em gastar como se não houvesse amanhã, o que conduziu o país ao estado calamitoso em que se encontra. Estes, sim, têm mérito. Agora os pavões?? Com ordenados superiores a 2 mil euros, com carro e combustível pagos pelo povo, com secretárias e acessores, com ajudas de custo, com subsídios de férias e de natal, com prendinhas deste e daquele? E na esmagadora maioria dos casos não fazem mesmo nada de jeito: governam de forma sofrível; gastam em demasia ou mal gasto, sobredimensionam o estado e sobrecarregam as pessoas de impostos para poderem fazer face ao despesismo louco que protagonizam; arranjam empregos para a família e para os que lhes são mais próximos, favorecem os amigos e os mais chegados… e ainda vão receber uma Medalha de Mérito Municipal Grau Ouro?
O que me dá verdadeiro gozo, caro leitor, é sentir que quando falo com as pessoas na rua sobre este género de coisas o sentimento comum é de um profundo desprezo por alguma desta gente. Eles podem à vontade fazer estas tristes figuras, mas o povo, que é quem mais conta, tem de alguns deles a pior das ideias. E tem toda a razão.

















