Aveiras Sport Clube: um acto impensado de gestão autárquica

Opinião de Nuno Cláudio

O investimento no relvado sintético no campo de futebol do Aveiras de Cima Sport Clube é uma daquelas anedotas que, mesmo que bem contadas, não dão para mais do que para... chorar, tal foi a dimensão da imprudência e da falta de visão que caracterizou esta obra.

Não creio que Joaquim Ramos tenha sido dos piores presidente de câmara. Estou até convencido de que foi bom para Azambuja que Ramos tenha aceite o desafio de pegar no município, sobretudo depois da passagem do “furacão Benavente”, que deixou o concelho devastado. Os dois primeiros mandatos justificam esta minha posição, que assumo sem reservas. É óbvio que Joaquim Ramos é humano, tem defeitos, e pôs os mesmos ao serviço da câmara, a exemplo do que terá feito com as qualidades que também possui. O investimento no relvado sintético no campo de futebol do Aveiras de Cima Sport Clube é uma daquelas anedotas que, mesmo que bem contadas, não dão para mais do que para… chorar, tal foi a dimensão da imprudência e da falta de visão que caracterizou esta obra. Passo a explicar, para que o leitor perceba a grandeza desta perfeita asneira no contexto da gestão da coisa pública: o Aveiras de Cima Sport Clube ocupa desde sempre o seu campo de jogos, um terreno particular pertença de uma senhora já com os seus respeitosos oitenta e tais anos de nome Olga Pinto. Esta senhora vive em Lisboa e raramente vem a Aveiras de Cima onde, no entanto, ainda tem família. A dona Olga recebe do Aveiras de Cima Sport Clube uma renda mensal de 179 euros, que é paga, evidentemente, se o clube tiver uma direcção organizada, que obtenha receitas de forma a poder liquidar esta quantia. Paralelamente, a dona Olga Pinto pouco ou nada sabe do que se passa naquele seu terreno. A senhora, muito afável e de agradável conversa, nunca sequer ouviu falar de um tal tapete relvado sintético que a Câmara de Azambuja lá terá colocado… quanto muito, fala de um muro que construiram à volta do terreno sem a sua devida autorização e supõe que por lá existam algumas estruturas de apoio à prática do futebol, como os balneários ou mesmo o bar e as casas de banho. Agora, um relvado sintético? Não, nem sabe o que é isso. No valor de meio milhão de euros?? Não. A senhora nunca ouviu falar de tal coisa. O que a dona Olga Pinto sabe é que o clube tem sido desorganizadamente gerido, o que leva a senhora a não ter confiança nas pessoas da terra. Muito agarrada às memórias de família, a dona Olga gostaria que aquele terreno, uma vez transformado em parque de jogos, tivesse a nomenclatura da senhora sua avó, de quem a dona Olga tem a melhor das recordações. Esta garantia faria com que a senhora repensasse a sua intenção, já expressa em testamento, de deixar o terreno à organização Voz do Operário. O problema é que até hoje ninguém teve a sensibilidade de compreender esta legítima vontade da proprietária do terreno onde está situado o campo de futebol do Aveiras de Cima Sport Clube.
Bom, e é no meio desta confusão que acontece o impensável. A Câmara Municipal de Azambuja, atacada pela febre dos campos de relva sintética, resolve presentear o Aveiras de Cima Sport Clube com este equipamento. E vai de gastar cerca de 500 mil euros no dito cujo, em 2011, numa altura em que o clube já dava sinais de completa desorientação, sem que se conhecesse sequer uma direcção eleita na altura, e com as contas do Aveiras a não serem apresentadas já há anos. Investimento público que foi feito, recorde-se, num terreno particular, sem sequer o conhecimento da legítima proprietária do mesmo, nem tão pouco alguma garantia de que o terreno, no futuro, venha a pertencer à colectividade de Aveiras de Cima. Ou seja, caso a vontade expressa por Olga Pinto vá avante e o terreno seja doado à organização Voz do Operário, esta sociedade de instrução e beneficiência herda um campo de futebol com uma mais valia construída e paga pela Câmara de Azambuja no valor de meio milhão de euros. Esta é uma das possibilidades, porventura a mais provável de vir a suceder, caso não se consiga inverter a situação. E como é que se inverte esta situação, perguntarão os leitores mais interessados? A Câmara Municipal de Azambuja está entalada entre a espada e a parede com todo este imbróglio. Como protagonizou ali naquele terreno um investimento público avultado, agora sente a obrigação de acautelar o investimento realizado, tarefa que o doutor Joaquim Ramos deveria ter feito antes de ali ter construído o relvado sintético – já sei o que me vai dizer em sua defesa, doutor Ramos: se construisse relvados sintéticos noutros locais do concelho e não construisse em Aveiras era esfolado vivo, etc e por aí fora. Mas governar não é para maricas, com o devido respeito: exige-os no sítio para tomar decisões difíceis mas que garantam a boa aplicação dos dinheiros públicos. Para acautelar o investimento, a Câmara terá que garantir que o terreno será pertença do Aveiras de Cima Sport Clube quando a dona Olga Pinto partir deste mundo. Ora, como já disse, a senhora deixou o terreno em testamento à Voz do Operário. Acresce que o terreno era pertença da avó desta senhora, por quem Olga Pinto tem uma notória e profunda admiração, ao ponto de afirmar que jamais quererá ver um cêntimo que seja resultante da venda deste terreno. Portanto, o único instrumento que a Câmara tem ao seu dispôr para acautelar o investimento será o recurso à expropriação do terreno. Tendo em conta que a autarquia só tem 30 euros em caixa, como afirmou recentemente Luís de Sousa, não me parece que haja meios para levar a tarefa a cabo. Mais importante do que isso, não me pareceria justo que tal fosse feito de uma forma assim tão fria, despida de sentimento. A meu ver, e depois de ter conversado via telefone com a dona Olga Pinto, impôem-se alguns passos que poderão levar a senhora a considerar a hipótese do clube um dia vir a beneficiar da posse do terreno, algo que me parece de elementar justiça. Primeiro, que o campo seja requalificado: melhorar a iluminação, criar um parque de estacionamento atrás da baliza Norte, requalificar o corredor Este que conduz desde a referida zona de estacionamento a norte até aos balneários, passando pelo bar e pelas casas de banho; requalificar a entrada Sul e toda a zona por detrás da baliza Sul; melhorar as vedações, degradadas em algumas zonas. E criar num local de destaque um pedestral para colocar um busto da avó da dona Olga Pinto, rebatizando o complexo com o nome e evocando a memória desta já falecida senhora, tal como deseja a sua actual e legítima proprietária. Toda esta requalificação feita com algum critérito e bom gosto, assinalada com uma cerimónia a condizer, na presença da dona Olga Pinto e demais entidades responsáveis deste concelho, dona Olga que ficaria muito satisfeita por ver a memória da sua ascendente perpetuada com dignidade. Neste cenário, estou em crer (e não fui mandatado pela senhora para afirmar tal coisa, não obstante a conversa muito agradável de horas que tive com a mesma), a dona Olga Pinto encontraria condições para equacionar, ao menos equacionar, repensar a sua vontade de deixar aquele terreno “à terra”, como a senhora gosta de dizer. Ora, uma requalificação desta faz-se com meia dúzia de tostões. Estou em crer que quaisquer 15 ou 20 mil euros (quanto muito; provavelmente até estarei a exagerar) chegam e sobram para dotar o complexo de alguma dignidade (muito menos do que custa uma tourada, estou em crer) e levar por diante este projecto. Muito mais caro seria encetar um processo de expropriação, que obrigaria a autarquia a ter que comprar o terreno, já para não falar do lado humano, pois não me parece que a senhora mereça tal medida. Metam a cabeça a trabalhar, meus senhores.

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VIANuno Cláudio
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