Quando a água é o espelho da ganância dos homens

Opinião de Nuno Cláudio

Desde há muito que os homens perceberam que água será, a curto prazo, mais valiosa que o petróleo e quem sabe até do que o próprio ouro. Quando as sociedades começarem a sentir na pele a falta do líquido precioso deixará de fazer sentido guerrear por mais alguma coisa que não seja mesmo pela água, e esse, de resto, é já o cenário real em muitas regiões do mundo, sobretudo em África, continente onde as mais sangrentas das guerras contemporâneas já têm como móbil a disputa pelos parcos recursos que restam.

Desde há muito que os homens perceberam que água será, a curto prazo, mais valiosa que o petróleo e quem sabe até do que o próprio ouro. Quando as sociedades começarem a sentir na pele a falta do líquido precioso deixará de fazer sentido guerrear por mais alguma coisa que não seja mesmo pela água, e esse, de resto, é já o cenário real em muitas regiões do mundo, sobretudo em África, continente onde as mais sangrentas das guerras contemporâneas já têm como móbil a disputa pelos parcos recursos que restam. No México desde há muito que um garrafão de água é mais importante e disputado do que propriamente um galão de combustível, e em algumas zonas da sobrepovoada capital deste país as crianças recém nascidas bebem Coca-Cola como substituto do líquido da vida. Por cá a água torna-se um negócio e, como em tudo o que cheira a dinheiro, também ela já foi abarbatada pelos ganaciosos que dominam os pacóvios que nos governam. A nossa sociedade está, grosso modo, organizada de uma forma até simples de explicar: existe um bando de gananciosos que tem por objectivo na vida amealhar a maior quantidade possível de dinheiro, pois estupidamente considera que esse será o caminho para garantir talvez uma espécie de segurança eterna. Como estúpidos e gananciosos que são, não têm capacidade para entender que de nada lhes adianta serem podres de ricos se o forem isolados do mundo que os rodeia, até porque um rico não consegue sobreviver no meio de uma imensidão de pobres: não vai ter o que comer, não vai ter o que vestir – e já nem falo da imensa solidão e isolamento que vai sentir, porque esta gente não tem sentimento que os leve a chegar a tanto. Depois, comandados por estes gananciosos repugnantes, existe um bando de políticos absolutamente burros e imerecedores da confiança que o povo neles deposita (refiro-me à esmagadora maioria, mas admito que hajam honrosas excepções), que vão tomando decisões e abrindo caminho para que os primeiros, os gananciosos, tenham condições para, de forma legal – pudera! Foram eles que fizeram e aprovaram as leis! – espoliar, roubar e empobrecer o povo. E depois há o povo, o ingénuo povo que vai acreditando, que na maioria das vezes nem percebe bem o caminho pelo qual está a ser conduzido, mas que inevitavelmente o vai conduzir à pobreza, à desigualdade, à extrema dificuldade.
O que se passa com a água é, de forma inequívoca, o sinal mais do que evidente de como existe meia dúzia de gananciosos a espoliar o povo de um bem que por princípio nem deveria ser pago – é a minha opinião. Recordo-me do velho quintal dos meus avós, onde existia um poço, no qual mergulhávamos um balde e dele retirávamos água para tudo: para cozinhar, para tomar banho, para regar as hortas e até para dar água à burra (não é aos burros dos políticos; refiro-me mesmo à velha burra do meu avô Zé, que tinha, bem vistas as coisas, mais capacidade do que determinadas avantesmas que nos têm desgovernado). Nesse tempo ninguém vivia atormentado com a conta da água, nem tão pouco alguém vivia com receio de ver interrompido o serviço de um bem essencial para a sobrevivência. Basta passar um bocado na sala de espera de uma qualquer empresa concessionária do fornecimento de água ao domicílio na região para constatar a imensa injustiça de que os munícipes são alvo. Um cidadão queixava-se, outro dia, de ter para pagar uma factura na ordem dos 900 euros. O mistério adensava-se porquanto o homem vivia sozinho num apartamento e aos fins de semana nem tão pouco estava em casa. Ora, de uma fuga não se tratava, caso contrário haveria de se registar uma enchente no prédio em causa. O pior de tudo é que a factura seguinte já tinha sido calculada por estimativa (sim, porque estes senhores para “estimarem” para o lado deles são verdadeiros Ronaldos a facturar) e, como tinha por base o valor médio do consumo inventado na factura anterior, ascendia a cerca de 600 euros… O mais revoltante desta situação é que ao pobre homem estava a ser dito que teria mesmo que pagar ambas as contas e que, pasme-se, nas facturas posteriores seria feito o acerto! Como se aquele pobre cidadão tivesse a obrigação de emprestar o dinheiro que não tem a estes gulosos de um caneco.
Parece-me evidente, caro leitor, que este estado de coisas não vai durar para sempre. Mesmo que o povo pareça ter infinita paciência para ser roubado, enganado e explorado até à exaustão, vai haver um momento em que a resistência da própria condição humana estará colocada em causa, por não suportar mais tanto atropelo. Não é possível que uma sociedade empobrecida e cada vez mais carenciada, como é exemplo a sociedade alenquerense, tenha que pagar meio milhão de euros em água que não consumiu apenas porque quase analfabeto de um burro qualquer negociou um contrato ruinoso para o povo e para o concelho. Tem que haver uma solução diferente, que esteja do lado dos interesses do colectivo, e que não privilegie o lucro e a ganância de meia dúzia de gulosos que, para além de tudo, se aproveitaram da extrema pobreza de espírito de quem em devido tempo desgovernou este concelho. Não me parece justo que o povo se mate a trabalhar para encher os bolsos desta gente que vive numa estratosfera social, quando em terra firme há gente a passar fome para poder pagar a factura da água. Retomando uma frase que escrevi ainda neste parágrafo, mesmo que o povo pareça ter infinita paciência para ser roubado, enganado e explorado até à exaustão, vai haver um momento em que a resistência da própria condição humana estará colocada em causa, por não suportar mais tanto atropelo. Nessa altura os ganaciosos terão que fugir para as montanhas, enquanto tratamos dos burros que os representam na esfera política.

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VIANuno Cláudio
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