O utilizador pagador

Opinião de Daniel Claro

Daniel Claro

O princípio do utilizador/pagador é sem dúvida uma das brilhantes invenções do capitalismo. Para que se perceba do que vamos falar hoje deixem-me usar um exemplo: a malta com os nossos impostos paga as estradas e depois é-nos cobrado um “iuczito” para que possamos andar naquilo que desde o início era nosso porque foi pago com o nosso dinheiro… perceberam? Pois… a coisa dita assim parece fácil, mas é mais sofisticada! O capitalismo na sua constante necessidade de evolução é na sua essência voraz e com tiques de ave de rapina. A classe dominante, quando verificou que a “simples” exploração da força de trabalho não lhe garantia uma constante e suficiente – para o seu apetite – acumulação de capital, foi pelo caminho inventando novos modos de satisfazer a ganância: a bolsa, os produtos financeiros que não correspondem a nada tangível em termos produtivos e coisas semelhantes…! Até que um dia os “senhores do bolo” olharam uns para os outros e na sua imensa imaginação disseram: “é pá a malta tem aqui uma forma de ir buscar o resto do dinheiro que aqueles tipos trabalhadores nos levam ao fim do mês… começamos a privatizar os servicitos públicos que fomos obrigados a criar com algum do dinheiro que eles próprios descontaram, naquela coisa a que os romanos chamaram tributo ou imposto (quem quiser saber o nome em latim telefone para a Câmara de Azambuja que há lá especialista no latinório…) para eles não se chatearem connosco e levarmos uma carga de porrada pelas trafulhices que fazemos, vendemos essas coisas dos hospitais, escolas, pontes, estradas, água etc. a nós próprios e depois dizemos aos tipos que têm de pagar mais umas taxas para usar aquilo…”! Alguns mais temerosos exclamaram: “oi… calma, que os gajos podem perceber que já pagam tudo e a malta leva uma coça!”… “nááá´….” responderam os mais espertos…: ” a gente arranja baratinhos uns comentadores amigos, com ar lavadinho, para irem àquela caixinha que o povinho adora e no intervalo de uma qualquer “casa dos segredos” vão exclamando com ar sapiente: é uma chatice mas não há outro caminho….”! Pouco convencidos, alguns – poucos – balbuciam ainda: “e só isso chega…?”! Depois de algum silêncio, os banqueiros da classe dominante acharam a solução: “… e se lhes dermos com facilidade alguns empréstimos, criando-lhes uma sensação de euforia que os leve a comprar mais que aquilo que podem pagar e depois, no momento certo, aparecemos a dizer que gastaram demais e que têm de pagar tudo e mais alguma coisa, até os muitos milhares de milhões que nós desviámos…?”! Aqui quase desmaiaram de êxtase… tinham descoberto a fórmula mágica de exponenciar a acumulação de capital bastando agora usar os tais comentadores, fazer crer que os privados gerem melhor, privatizar tudo e depois… pimba: aplica-se o princípio do utilizador/pagador rabiscando os últimos tostões ao povinho! Não contentes e pelo sim pelo não, sabendo que o povo português sempre venerou “os santos de fora” arranjaram uma troika estrangeira, composta de uns bacanos muito incompetentes mas com um ar sério, para vir humilhar-nos explicando que aquela Europa que nos “comprou” com dinheiro para desmantelarmos a nossa economia e nos pagou para não produzir, estava descontente connosco porque afinal deixámos de produzir tal como nos mandaram e elogiaram até com a designação de “bom aluno europeu”… lembram-se? Confusos…? Atendamos a um exemplo próximo. Quando a Câmara de Azambuja geria a água e a recolha do lixo o serviço era razoável, o preçozito era aceitável e toda a gente se sentia tranquila… até um dia! O tal dia em que uma rapaziada modernaça resolveu aplicar a toda a força as teorias do “utilizador/pagador” e engendrou umas engenharias financeiras, privatizando ou concessionando – como eles gostam de dizer – os tais serviços públicos. Resultado? Num concelho subdesenvolvido temos uma das águas mais caras do país e pagamos um serviço de recolha de lixo que não corresponde nem de perto à qualidade que o preço justificava. Pelo meio, porque este tipo de gestão é assim mesmo, para libertar verbas para as “obras de regime” que garantissem “maiorias absolutas”, deixaram de cumprir com compromissos que aumentaram exponencialmente as dívidas da Câmara e que em última análise somos nós que teremos de pagar! E até certo ponto é bem feito… para não acreditarmos no repetido “conto do vigário” que representam os compromissos eleitorais de certos partidos denominados do “arco do poder”! O pior é que agora necessitam – para fazer face ao serviço das dívidas e alimentar as clientelas – de uma espiral de aumentos, mascarando isso uma vez mais, de “princípio do utilizador/pagador”! O aumento da taxa do lixo já aí está… o da água porventura não demora muito… e ainda estão a pensar numa taxa (mais uma…) de “protecção civil”…! Eu acrescento a título de sugestão que taxem o povo do concelho simplesmente por serem parvos e morarem cá… ao fim e ao cabo se utilizam o nome de Azambuja devem pagar por isso! Já agora… para que raio serve o IRS que as Câmaras têm recebido nos últimos anos e aquele impostozinho de nome IMI…??? Na realidade a tal coisa do “utilizador/pagador” significa que… nós pagamos e… eles utilizam!

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VIADaniel Claro
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