O desastre

Opinião de Ana Militão

Ao contrário do que possa parecer, ter razão “antes de tempo” não é lá muito agradável, principalmente quando estão em jogo o bem-estar e a qualidade de vida de todos nós. Ao longo dos últimos anos, tive oportunidade (eu como muitos outros) de exprimir publicamente a minha oposição à entrega do sector do fornecimento de água a empresas privadas e é com uma sensação amarga que vejo que o cenário que então previa já é uma realidade – e uma realidade que tem tendência a piorar. As privatizações ou concessões ou o que seja tiveram o dom de aumentar os preços cobrados aos consumidores sem que tenha havido grandes alterações para melhor na qualidade do serviço prestado, os “investimentos” foram financiados pelo dinheiro dos contribuintes e os contratos, desequilibrados, mal redigidos, blindados e criminosos, deixaram para o sector público todos os encargos, reservando para as empresas privadas as receitas e os lucros.
Para se perceber melhor o que está em causa, façamos um exercício. Imaginemos que eu faço um contrato com uma qualquer câmara municipal para abrir um café. Nesse contrato estipulo que venderei mil cafés e quinhentos pastéis de nata por mês, pagando a dita câmara uma verba por cada café e pastel de nata, visto tratar-se de um serviço de interesse público. No final do primeiro mês, vendi apenas oitocentos cafés e cem pastéis de nata, mas vou receber a totalidade da verba, como se tivesse vendido mil cafés e quinhentos bolos, porque é o que está no contrato. Adicionalmente, o referido contrato dá-me o direito de cobrar uma taxa a todos os que entrem no espaço, pelo simples facto de entrarem. Alguma coisa neste negócio fictício faz sentido? Não, pois não? Mas é exactamente o que temos, na água, nas auto-estradas, na energia e quejandos…
Mesmo sem estas particularidades, que fazem destas negociatas uma choruda taluda para meia-dúzia de anafados, a entrega deste sector em mãos privadas é, como já escrevi, uma enorme perversidade. Não há responsabilidade social que se sobreponha ao fim último de uma empresa: gerar lucros. E gerar lucros à custa de um bem que é essencial à vida é simplesmente um crime. Neste momento estamos já a assistir ao início do descalabro: depois de primeiros contratos em que ainda se tentou (sem grande sucesso, diga-se) disfarçar o crime vestindo-o com uma máscara de boas intenções (os famosos ‘investimentos’), as renegociações fizeram já cair todas as máscaras, massacrando de forma inaceitável o erário público e castigando os consumidores com mais aumentos. Se nada for feito para o impedir, o passo seguinte é unir todos os operadores públicos e privados sob a “asa” da Águas de Portugal, que será então privatizada na totalidade. E aí, o céu será o limite…
Eu sou, por princípio, contrária a privatizações e estes recentes acontecimentos apenas vêm reforçar a minha convicção. O Estado não pode abrir mão da água, da energia, da saúde, da educação, dos transportes, combustíveis, comunicações, seja em exclusivo ou como operador público em concorrência com privados em alguns sectores cuidadosamente escolhidos. A presença do Estado ajuda a regular o mercado e dá alternativas aos cidadãos. A desculpa que o Estado gere mal não colhe. As pessoas que são colocadas à frente das empresas do Estado é que são incompetentes ou fazem-se de incompetentes ou estão reféns de outros interesses. Uma empresa estatal visa principalmente prestar um serviço de qualidade mantendo as contas equilibradas. Se der lucro tanto melhor, mas não é esse o objectivo final. E isto não é assim tão difícil de fazer como nos querem fazer crer.
Se a sanha “privatizante” continuar, em breve o Estado não passará de um mísero guichet para passar cheques, do dinheiro roubado aos contribuintes, aos grandes tubarões que na prática governam o país.
Ter razão uma vez não significa ter sempre razão, mas era bom que os portugueses tirassem os olhos do futebol e começassem a pensar como podemos dar a volta a este país.

Já vais tarde. Uma palavra para o vereador da Câmara Municipal de Baião, Luis Sousa. A palavra é adeusinho. O autarca social democrata seguiu o conselho do seu amado líder e emigrou para o Reino Unido. Mas em vez de renunciar ao mandato, exigiu que a Câmara de Baião pagasse as despesas correspondentes às deslocações que fizesse a Portugal. E como pelos vistos a lei portuguesa deixa demasiadas coisas entregues ao bom senso (?) dos políticos, o fulano esteve quase a safar-se com a coisa. Mas como a polémica estalou, o dito senhor enfiou a viola no saco, renunciou ao mandato e abandonou o partido, “para o libertar de qualquer ónus com a sua participação activa”. Pffff. Coitado. Já vais é tarde, amigo. Good bye.

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VIAAna Militão
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