Coise honeste ê sooouuu!

Parece ficção mas é a pura realidade: o Grande Monarca Alvarenga Pedra está a dias de ir embora. Leu bem, caro leitor, de ir embora. Abdicar, entrar na reforma, descansar, dar de frosques, ou lá o que lhe queiram chamar. Mas há - há sempre... - um problema: o Monarca quer ir embora mas deseja ardentemente que ninguém em Ninguém Quer fique com a mais pequena das dúvidas. Ele, Alvarenga Pedra, foi um Monarca honesto. Honeste e coise.

Xicos Cuvilheiro, o agente secreto que nunca dorme... menos de 16 horas por dia...

Alvarenga Pedra: Na seporte a indeia de na me ver nesta cadeira quande aqui chigar todes os dias despois de Ótubre… O que vou ê fazer aqui e coise s’ê na cá tiver?
Lambe Bota da Silva: Hã… Perdão, Eminência Suprema, mas até um intelecto superior como o meu teve dificuldade em acompanhar esse raciocínio e…
Alvarenga Pedra: Ê sei muite bem qu’és de raça cíneca, na precisas de me tar a alembrar a tode o coise de memente. Por falar em alembrar, alembrei-me das alembranças… Unf. Chama cá o coise do home dos anunces para…
Lambe Bota da Silva: Mas, Majestade Majestosa, Vossa Superioridade não compra anúncios a ninguém porque também não tem nada para anunciar!…
Nariz de Rena: Foi assim ao longo de 34 séculos…
Alvarenga Pedra: Chega de desrespeite, coises! Se na há home dos anunces, inventem um! Quero meter um coise ali à entrada do Reine pra que toda a gente veija a minha fronha de coise d’home trabalhador e dedicade!
Nariz de Rena: Hum… Tomaste nota, Lambe Bota? Trabalhador e dedicado, diz Sua Eminência.
Lambe Bota da Silva: Está-me a parecer que falta qualquer coisinha. Aquela palavra que faça a diferença e que complete o sentido que é dado por trabalhador e dedicado. Não lhe ocorre mais nada, Superioridade Incontestável?
Alvarenga Pedra: Ê já nem assentade quante mais a querrer… Deixa cá ver… Talvez…

Entretanto toca o telefone vermelho do Monarca

Voz ao telefone: Eminência? Sou eu, o Baralho Coito! Posso começar a abrir caboucos? Já lá tenho um bando de pretos a jeito que arrebanhei numa jangada ali no Reino dos All-Graves. Se me der autorização para começar, eu…
Alvarenga Pedra: Hum… Já trataste da lecença especial?
Baralho Coito: Úgasse, que não lhe escapa uma! Quer em gajas ou em charutos cubanos?
Alvarenga Pedra: Pode ser uma gaija a trazer a mala das alembrancinhas e outra logue atrás com a caixa de charutes.
Baralho Coito: Úgasse, que isso já tá a fugir muito ao orçamento…
Alvarenga Pedra: Faz mais dois andares em altura, coise.
Baralho Coito: E o Fiscal em Cunha?
Alvarenga Pedra: Faz ó sábade e ó demingue qu’ê vou mandá-lo prá praia.
Baralho Coito: Coitados dos gajos que constroem castelos na areia… Prazer em ouvi-lo, Eminência. Milhões de cumprimentos e gajas com fartura. As “alembranças” estão a caminho.
Alvarenga Pedra (desligando o telefone): Era o boéme do Baralhe Coite, a falar em gaijas e charutes cubanes e a dezer que tem lá um bande de pretes pa lhe levantar o coise.
Nariz de Rena: Perdão, Eminência Suprema?
Lambe Bota da Silva: Como assim, Superioridade Incontestável?
Alvarenga Pedra: É areia demais de coise pá vossa caminete. Se alguém de coise bater à porta, recebe a mala das alembrancinhas e trázia práqui.
Lambe Bota da Silva: Estávamos à procura da palavra que falta para o seu anúncio, Eminência…
Alvarenga Pedra: Ah, pois era. Então e s’a gente lá pesesse…

Toca de novo o telefone

Voz ao telefone: Alvarenga? Sou eu, pá…
Alvarenga Pedra: Alguém de coise que na me trata por Eminença… Só pode ser o Pouque Juize Saliveira. Tás rije?
Pouco Juizo Saliveira: Mais que rijo, pá. Tou teso. Preciso de um favor teu: tenho aqui um barracão mais ou menos pouco usado e em nome do que galguei estrada fora para chegares onde estás, passa aí um cheque e toma lá a ruína. Já mandaste o cheque?
Alvarenga Pedra: O que é um cheque? Coise…
Pouco Juizo Saliveira: São 225 mil europedras. É para ontem, entendido?

E deslegou… isto é, desligou o telefone

Alvarenga Pedra: Mais um que tá mais tese que um carapau da Nazaré. Lambe Bota, dá ordes para adquerir de comprar o barracão do Pouque Juize Saliveira. Come é pra onte, na sei come é que vames fazer porque já é hoje, mas mete uma data falsa pró Saliveira pensar qu’ê obedece cegamente às suas segestões.
Lambe Bota da Silva: E que justificação vou dar na Assembleia Real para gastar 225 mil europedras do Reino para comprar um barracão que não serve para nada, Eminência Suprema?
Alvarenga Pedra: Sei lá eu… Diz qu’é pra lhes tratar da saúde, um hospetal de reumáteques ó coise parecide. Se for pá saúde na vai haver quem reclame… Diz que tá aprevade plo Reine central qu’assim ninguém abre o bique.
Lambe a Bota: Com certeza, Superioridade Incontestável…
Nariz de Rena: No meio de tanta interrupção, Vossa Eminência ainda não encontrou a palavra certa para o cartaz. A tal que falta para compor o ramalhete…
Alvarenga Pedra: Quem é que coise de falou em comprar um belhete, indiota? Ora deixa cá ver de coise… e s’ê lá pesesse escrite hon…

Toca outra vez o raio do telefone vermelho

Voz ao telefone: Tás bom, pá, hã? Olha lá, hã, como é que tá isso das… hã… das licenças de construção?
Alvarenga Pedra: E que queres de pretendes tu construir, coise Patins?
Vítor Patins: Nada, hã, pá. Nada. Pretendo é destruir. Vou vender tudo o que puder, que isto tá muito mau, pá, hã. Muito mau.
Alvarenga Pedra: E pra que queres tu lecença de destruição? Nem sei s’isso inxiste…
Vítor Patins: Tás doido, pá? Tem que existir! Mal pego na chave do dumper e aparece logo uma corja de fiscais a pedir por fora…
Alvarenga Pedra: Tens razão. Eles dantes pediam pra dentre, mas agora lá dentre já têm tude mais que cheie e é por isse que têm que pedir pra fora…
Vítor Patins: Vou mandar uma mala, hã, pá, com o costume, hã. A ver se os mandas prá praia, ou coisa que o valha, hã, pelo menos enquanto eu destruo…
Alvarenga Pedra: Vou mandá-les d’enviá-les e coise prá Serra da Estrela…
Vítor Patins: Coitados dos gajos, hã, que constroem bonecos de neve, pá. Adeus, hã.
Alvarenga Pedra: Manda a alembrancinha em notas e coise de decentes e grandes de quantias aveltadas que da últema vez tive mais de vinte horas a contar e… olha, coise, desligou o telemóvele.
Lambe Bota da Silva: Foram trinta e quatro horas, vinte e dois minutos e quarenta segundos a contar notas de 20 europedras, Eminência. Fui eu que as contei…
Nariz de Rena: Toma lá para não andares a ler o Funde-Metal às escondidas…
Alvarenga Pedra: Já sei! Já me oquerreu a coisa de palavra que falta no anunce. Mete lá… honestedade! Obrigade, Menarca Alvarenga, por 34 sécles de honestedade. Coise…
Nariz de Rena: Duplo coise…
Lambe Bota da Silva: Eu também tecia um comentário, mas depois fico a contar alembrancinhas em moedas de 5 o resto da vida…

VIAXicos Cuvilheiro
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