GNR de Alenquer: um porto de abrigo para dezenas de idosos que vivem em isolamento

Muitas vezes vivem isolados, expostos à solidão, ocasionalmente passam necessidades e não têm dinheiro para comer ou adquirir medicamentos. O Programa Apoio 65 - Idosos em Segurança leva diariamente agentes da autoridade ao encontro estas pessoas nos Concelhos de Alenquer, Azambuja e Cadaval.

Idosos com mais de 65 anos que muitas vezes vivem isolados física ou socialmente. São viúvos ou viúvas, expostos à solidão e sem terem quem lhes garanta uma palavra de conforto. Ocasionalmente passam necessidades e não têm dinheiro para comer ou adquirir medicamentos. Não há que virar costas nem assobiar para o lado, porque o problema existe. E tem rostos nos territórios dos municípios de Alenquer, Azambuja e Cadaval.

Programa Apoio 65 – Idosos em Segurança. É este o nome da iniciativa que leva diariamente agentes da autoridade ao encontro de idosos isolados nos Concelhos de Alenquer, Azambuja e Cadaval. Uma presença amiga e indispensável nestes tempos conturbados que vivemos. O Fundamental falou com o Capitão Marco Pinheiro, do Destacamento de Alenquer da Guarda Nacional Republicana, sobre os contornos desta acção levada a cabo pelas forças de segurança.

Marco Pinheiro explica: “É um programa que visa apoiar a camada de população mais desfavorecida e vulnerável como é o caso destes idosos, principalmente aqueles que vivem mais afastados e isolados dos centros populacionais mais activos”. O Capitão alerta para o facto de não serem apenas idosos afastados dos centros populacionais, naquele que poderemos chamar de isolamento geográfico. “Há também casos de isolamento social, pessoas que estão no centro de uma população mas que estão vulneráveis por estarem socialmente isolados”, esclarece.

Esta acção das autoridades é desenvolvida por todo o concelho de Alenquer e Azambuja mas sobretudo nas zonas mais rurais, onde existe maior concentração de idosos nestas circunstâncias. Marco Pinheiro fala da verdadeira vocação deste projecto: “Reforçamos o policiamento dos locais mais frequentados por estas pessoas e tentamos criar uma rede de contactos directos entre estes idosos e os nossos militares, uma linha privilegiada entre os agentes e estes idosos”. Existe um plano definido de visitas e contactos frequentes em relação a cada idoso ou idosa nestas circunstâncias.

Ou seja, esta acção permite que estas pessoas, isoladas e solitárias, tenham um número de telemóvel que lhes garante o acesso directo aos agentes da GNR que dão o rosto pelo Programa Apoio 65. “Muitas das vezes os idosos nem ligam para o Posto da GNR, já que optam por contactar directamente o militar que têm como referência”, conta Marco Pinheiro. Um trabalho precioso por parte da Guarda Nacional Republicana junto de uma camada de população que apresenta fragilidades e requer cuidados extras neste contexto.

Programa Apoio 65: um ombro amigo para garantir segurança a dezenas de idosos em Alenquer e Azambuja

A GNR assume neste “Programa Apoio 65 – Idosos em Segurança” um papel relevante tendo em conta que promove pontes de ligação entre os cenários de carência destes idosos e as instituições locais que possam garantir uma resposta social a estas pessoas. Este apoio é garantido pela Secção de Policiamento Comunitário do Destacamento de Alenquer. São 6 militares que têm esta missão em exclusivo.

“Estes idosos criam tanta afinidade com estes militares que muitas vezes reagem mal quando vão outros militares. Acham estranho e até chegam a pensar que se trata de algum tipo de burla”, revela o Capitão Marco Pinheiro, dando desta forma a perceber a força dos laços que unem idosos dos Concelhos de Alenquer, Azambuja e Cadaval e militares no âmbito desta acção.

E quais são, afinal, os problemas mais frequentes que estas pessoas apresentam aos agentes que os acompanham no terreno? Marco Pinheiro revela: “É a preocupação com os medicamentos, o problema com o vizinho, o problema de mobilidade relacionado com a dificuldade de ir ao hospital ou ao centro de saúde fazer exames”.

O Capitão também assegura que há outros problemas mais graves, mas estes normalmente não são revelados pelos idosos de forma directa: “É a alimentação, o aproveitamento por parte de familiares, ou burlas que levam os idosos na maior parte das vezes a terem vergonha de assumir que foram enganadas”.

Nestes casos o Capitão assegura que os agentes no terreno acabam por perceber que o problema existe a partir de aspectos ou pormenores que vão percebendo durante as conversas que mantém com os idosos. “Percebemos que foram alvos de uma burla e esses são os casos que mais nos preocupam”, reforça Marco Pinheiro. Relembre-se que nos últimos dias as autoridades reportaram um acréscimo de assaltos na região de Meca e dos Cabeços, na periferia norte de Alenquer. Mais um motivo de precaução acrescida para o Programa Apoio 65 – Idosos em Segurança.

Coronavírus e idosos em isolamento: um desafio suplementar para os militares no terreno

E agora com a Covid-19? A pandemia que vivemos exige dos agentes no terreno um conjunto acrescido de cuidados. “Esta população é de risco e isso obrigou-nos a cuidados especiais, já que tivemos que adaptar as nossas visitas uma vez que não as podemos fazer como fazíamos antes da pandemia”, elucida Marco Pinheiro.

O Capitão acrescenta: “Não queremos ser nós, militares, o veículo de propagação deste vírus junto desta camada idosa de população, que compreende a situação, embora no inicio tenha havido um choque pois havia a tendência destes idosos virem junto de nós, abraçarem-nos, interagir com os agentes”.

Marco Pinheiro relembra ainda que no âmbito da pandemia de coronavírus foi criado o Programa 65 – Longe Mais Perto: “Vamos junto do idoso com um tablet e proporcionamos o contacto com pessoas amigas através de video-chamada. Os idosos acham engraçado e ficam emocionados quando vêm os seus familiares”, garante o Capitão do Destacamento de Alenquer.

Acrescente-se ainda que os militares que estão na Secção de Policiamento Comunitário do Destacamento de Alenquer tiveram formação específica no âmbito destas exigentes funções. “Os militares em questão têm um curso específico ministrado pela Guarda no qual, entre outras valências, tiveram formação em direito comunitário”. Relembre-se que serão cerca de 70 pessoas idosas só no Concelho de Alenquer que estão abrangidas neste programa. Terão de ter pelo menos 65 anos e estarem a viver em isolamento físico ou social, ou ambos os cenários.

De resto, a acção da GNR neste contexto acaba por ser activa em relação a pessoas que vivam neste cenário, mesmo que tenham idade abaixo dos 65 anos, pelo que a abrangência será muito superior aos cerca de 70 idosos que são referidos apenas no âmbito do Programa Apoio 65 – Idosos em Segurança. “São pessoas que não entram neste programa por não preencherem os requisitos mas temos uma acção pro-activa junto desta população”, assegura o Capitão Marco Pinheiro.

VIANuno Cláudio
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