“Ainda hoje, em qualquer sítio que vá, as pessoas continuam a reconhecer-me, ou porque ganhei o programa, ou por ser gago”

Fez precisamente dez anos hoje (16 de Dezembro) que António Franco venceu com grande categoria o concurso "Quem quer ser milionário", na altura apresentado por Jorge Gabriel. Foram 250 mil euros, ali em pouco mais de hora e meia. Ainda hoje Franco está conotado com o feito, que possivelmente o vai acompanhar durante toda a vida.

Ter vencido o “Quem quer ser milionário” em 2003 abriu-te muitas portas?
É um facto que abre muitas portas, mas também limita um pouco a pessoa, porque passamos a ser reconhecidos por todo o lado. Ainda hoje, em qualquer sítio que vá, as pessoas continuam a reconhecer-me, ou porque ganhei o programa, ou por ser gago, ou por ter um sentido de humor estranho, caústico até. Na altura pagavam-me para ter ido a inaugurações de discotecas e coisas do género, se eu tivesse querido ir.
Não foi mundo que te tivesse fascinado…
A fama obtida dessa forma é uma coisa efémera. E depois nós aprendemos a relativizar as coisas. Um ano depois de ter ganho o concurso o meu filho, que na altura tinha 10 anos, teve um cancro. E aí eu rapidamente percebi que de nada me adiantava ter ganho aquele dinheiro e ser reconhecido na rua em qualquer lado caso não tivesse conseguido salvar o meu filho.
É fácil uma pessoa deslumbrar-se com a mediatização que é proporcionada pela televisão?
É extremamente fácil. Eu acho até que a televisão deveria disponibilizar algum apoio psicológico para as pessoas que ganham concursos a este nível, ou assim como Big Brothers ou mesmo Casas de Segredos, assim como tem a Santa casa para quem ganha prémios avultados. Porque depois és abandonado quando deixas de ser rentável, e há pessoas que não lidam muito bem com isso.
Estás a pensar ir à nova versão do concurso, agora apresentado pela Manuela Moura Guedes? Ou nem te deixam lá meter os pés? (sorrisos)
Ainda nem tentei ir. Sabes que depois do que sucedeu ao meu filho eu fiquei com uma imensa dívida de gratidão ao IPO, e isso faz com que basicamente não queira ir de novo ao programa para ganhar dinheiro; mas se um dia o prémio reverter para o IPO, então não me importo nada de lá ir ganhar 100 mil euros e dar tudo ao Instituto.
Mas apareceu muita gente a pedir-te dinheiro emprestado naquela altura?
Vieram pessoas que eu não conhecia de lado nenhum a propor-me parcerias em negócios. A ideia era deles, o dinheiro era meu. Do género: “tive aqui esta ideia, o senhor mete o dinheiro e ficamos ricos os dois”. Obviamente que não fui na cantiga, mas também te digo, Nuno, que teria sido fácil cair se eu não tivesse vindo de uma família compacta, estruturada. Olha, eu tinha uma relação muito especial com o meu avô, e um dia estava lá na câmara e ligou-me uma senhora de Trancoso, a dizer que era vidente, a perguntar-me se eu era muito agarrado ao meu avô e a garantir-me que ele, o meu avô, tinha estado todo o tempo ao meu lado no programa.
Mas conhecias a senhora?
Não conhecia nem provavelmente vou conhecer, mas de repente ela diz-me aquilo. Há coisas na nossa vida que não vamos jamais conseguir explicar, pois vão muito para lá do racional. E isso é fantástico.
Como é que é acordar de repente e descobrir que todo o país fala de nós?
O programa foi gravado a 16 de Dezembro mas só foi para o ar a 29 de Dezembro, e só nessa altura comecei a perceber o impacto. Até lá era assim uma coisa quase sigilosa, eu apenas tinha dito a meia dúzia de pessoas. Depois de ter ido para o ar diziam-me coisas incríveis.
Que opinião tens da nova liderança da Câmara Municipal de Alenquer?
Dois meses depois dá-me a sensação de que ainda é muito cedo para dizer que se notam diferenças. O que se nota é que há uma nova dinâmica e estas festividades de natal têm sido a prova disso. Agora, se acontecem por se tratar do primeiro ano, ou se são para manter, só o tempo o dirá. Mas respira-se uma nova dinâmica. Quem não vem de um aparelho partidário tem vantagens porque consegue ver para além da própria ideologia e dos condicionalismos que daí advêm. E o Pedro tem essa vantagem; há condições para haver cada vez mais uma maior comunhão entre pessoas e câmara.
Pedro Folgado não é tão fundamentalista como os seus antecessores?
Não vou dizer que é o supra-sumo da abertura, e provavelmente ele até quererá reger-se por algumas directivas do Partido Socialista, que é normal de acontecer porque foi apoiado pelo PS.
Os funcionários municipais sentem-se mais motivados com Folgado?
Dá-me a sensação que essa nova dinâmica tem mais como objectivo motivar a sociedade civil a estar de novo identificada com a câmara. Um funcionário tem que encontrar motivação para trabalhar todos os dias onde lhe pagam. Toda a gente diz que Alenquer tem um potencial imenso, é quase um cliché, mas nós somos um povo que teima em não sair muito das ideias. É complicado que alguém ponha alguma coisa em prática.
O que é que falta então em Alenquer para sairmos desse cenário de eterno potencial que nunca dá em coisa alguma?
Durante muitos anos houve um claro divórcio entre a câmara e as pessoas. A câmara era assim uma espécie de gaiola dourada e tudo o que era exterior à câmara não interessava muito. Não havia actividades, pouca coisa se fazia, e isso levou a um divórcio que foi crescendo entre as pessoas e a autarquia. Agora é complicado de recuperar, e esse é mesmo o principal problema, esse afastamento entre a sociedade e a autarquia. Agora começa-se a fazer alguma coisa, mas o principal problema é mesmo o facto das pessoas não estarem habituadas.
Lá vamos voltar a falar de Óbidos. Alenquer tem condições para dar esse passo?
Óbidos há vinte anos já era conhecida mas era-o de forma circunstancial. Uma das primeiras coisas que fizeram em Óbidos foi contratar um gabinete de relações públicas, onde meteram a Vicky Fernandes, que era uma socialite, enfim, não vou dizer fútil, mas conhecia imensa gente. E quando em Óbidos se começaram a fazer coisas, as pessoas aderiram rapidamente.
Então defendes que em Alenquer deveriamos seguir o mesmo caminho? Sei lá, contratar a Lili Caneças, por exemplo?
Não diria a Lili Caneças, mas recordo que o Santana Lopes ganhou na Figueira da Foz contra um homem que lá estava há mais de 20 anos, quando até se via que estava perfeitamente desfasado daquela realidade. Mas como na altura namorava com a Cinha Jardim e com aquela malta toda, as pessoas foram todas atrás. No ano passado fui a Montalegre, onde há aquela coisa da noite das bruxas, todas as sextas-feiras 13. E quem lá estava era o Manzarra, a Merche Romero e uma quantidade de gente da televisão, tudo convidado pela câmara, e que as pessoas até foram ver porque ouviram dizer que lá ia o Manzarra, a Merche e outros. Alenquer tem um certo potencial, mas tem que o saber estimular dessa forma. E este é um dos caminhos possíveis.
Mas depois vêm as pessoas e não há restaurantes abertos, nem pensões ou hotéis para as pessoas pernoitarem, nem lojas abertas ao fim de semana, tirando os chineses.
Mas uma coisa leva ao aparecimento das outras. É um ciclo vicioso. O concelho tem claramente duas realidades, uma mais urbana e outra mais rural, e há que saber conciliar essas duas realidades.
Foste candidato a estas eleições integrado nas listas da CPNT. Porque é que a Coligação/PSD ficou desta vez mais longe do objectivo de ganhar a câmara?
O PSD pagou basicamente por duas razões: pela conjuntura do país e pelo facto do Nuno Coelho ter tido a sua grande chance há quatro anos. Sai o Álvaro Pedro e as pessoas acharam que era a altura certa para mandar toda aquela gente embora. O Riso é basicamente eleito pelo Alto Concelho, que vota PS seja qual for o candidato. O Nuno Coelho é uma pessoa extraordinariamente honesta, tem algumas ideias, faltar-lhe-á algum carisma, tem alguma dificuldade em chegar às pessoas, mas nisso o Pedro e ele estão equiparados.
Com outro candidato o PSD teria tido mais hipóteses de ganhar a câmara?
Seria muito fácil estarmos aqui e agora a dizer que com outra pessoa teria sido diferente. Não. Nem sei se outro candidato teria tido um resultado melhor, até em função da conjuntura que se vive, num país que é brutalmente adverso ao governo.
Sentiste-te motivado para esta aventura? Foi a tua primeira campanha de rua; chegeui a ver-te a entregar panfletos e manifestos ali à porta do Intermarché do Carregado.
Senti-me motivado, sem dúvida. Aprendi basicamente que o enraizamento do Partido Socialista no Concelho é muito forte, e é complicado espalhar uma mensagem diferente, por muito inteligente e competente que sejas. O Alto Concelho é maioritariamente de esquerda, e não é por mais nada a não ser porque há 50 anos ouviu dizer que os de direita eram maus.
Porque é que nós não saimos deste marasmo enquanto país? Sempre as mesmas tricas políticas, sempre a mesma lengalenga entre partidos, o A que acusa o B, o C que desmente o A…
Nós não conseguimos olhar para além do nosso umbigo, e esse é um dos nossos principais problemas. Não há um conceito de nação supra-partidário. Estamos a debater o IRC há meses, a reforma do estado há meses, a debater tudo há meses e há anos. Na Alemanha, a CDU, um partido conservador de direita, teve 40 por cento dos votos. O SPD teve 20 por cento. A senhora Merkel, porque tinha o dobro dos votos, poderia facilmente governar recorrendo a coligações esporádicas com os inúmeros partidos de menor dimensão que proliferam na Alemanha. Mas em nome da nação, ela não teve qualquer problema em atribuir seis ministérios ao SPD. Falta-nos claramente este conceito mais abrangente: nós não vamos sair da cepa torta enquanto tivermos este conceito redutor das coisas. Existe este conceito bacoco do partido que ganha as eleições ter dificuldade em conviver com a oposição, e vice versa. Uma das coisas más que o 25 de Abril nos trouxe foi essa ideia de pensarmos que podemos dizer tudo e que ninguém nos pode fazer nada, e isso é complicadíssimo, porque se perderam os valores.
Somos um país de subsidiodependentes?
Sem dúvida, e lá vamos ter que falar de novo na Alemanha. Enquanto a Alemanha nos paga as contas e dá subsídios, são maravilhosos, mas já quando nos pedem alguma responsabilidade passam a ser uns nazis que querem reconquistar a europa, etc.

VIAEntrevista de Nuno Cláudio
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